O Bradesco (BBDC4) avalia que a taxa Selic poderia encerrar 2026 em 13,25% ao ano caso a inflação continue cedendo, a atividade econômica perca força e o câmbio permaneça relativamente estável. Apesar dessa leitura, o banco mantém oficialmente a projeção de 13,75% para dezembro, após interpretar como conservadora a sinalização emitida pelo Banco Central na reunião mais recente do Comitê de Política Monetária (Copom).
Na quarta-feira, 5 de agosto, o Copom reduziu a taxa básica de juros de 14,25% para 14% ao ano, mas evitou indicar uma sequência definida de novos cortes. A comunicação reforçou que, embora alguns indicadores tenham melhorado, o cenário inflacionário ainda exige cautela.
Para o economista-chefe e diretor de Pesquisa Econômica do Bradesco, Fernando Honorato, os fundamentos domésticos poderiam justificar uma flexibilização maior da política monetária. A avaliação considera a desaceleração da economia, a estabilidade do real, a menor persistência do choque do petróleo e sinais recentes de perda de força da inflação.
Antes da decisão do Copom, a equipe econômica do Bradesco trabalhava internamente com uma Selic de 13,25% no final do ano. Depois da divulgação do comunicado, porém, o banco decidiu elevar sua projeção para 13,75%, incorporando uma postura mais restritiva da autoridade monetária.
Bradesco espera pelo menos mais um corte
Com a Selic atualmente em 14%, a projeção oficial do Bradesco pressupõe mais uma redução de 0,25 ponto percentual até dezembro.
O cenário de 13,25%, por sua vez, exigiria queda acumulada de 0,75 ponto percentual, equivalente a três cortes de 0,25 ponto caso o Copom mantenha o ritmo adotado até agora.
A diferença entre os dois níveis reflete menos uma divergência sobre os fundamentos econômicos e mais uma avaliação sobre a disposição do Banco Central de continuar reduzindo os juros.
Na leitura do Bradesco, há espaço econômico para uma taxa menor, mas o Copom vem demonstrando preferência por uma condução mais gradual.
O banco, por isso, decidiu manter uma previsão mais prudente enquanto acompanha a evolução dos próximos indicadores.
Copom vê melhora, mas inflação ainda preocupa
O próprio Banco Central reconheceu, no comunicado da reunião de agosto, que a atividade econômica apresenta sinais de moderação gradual.
O Comitê também identificou desaceleração da inflação cheia e de algumas medidas subjacentes, mas avaliou que o cenário ainda apresenta riscos relevantes.
As expectativas inflacionárias permanecem acima do centro da meta, enquanto a inflação de serviços continua sendo acompanhada de perto pela autoridade monetária.
Para o primeiro trimestre de 2028, horizonte relevante da política monetária, a projeção de inflação do Copom ficou em 3,2%.
A meta contínua definida pelo Conselho Monetário Nacional é de 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.
O Banco Central também destacou que o balanço de riscos permanece assimétrico, com possibilidade de inflação superior ao cenário-base caso as expectativas continuem desancoradas ou a economia apresente maior resistência à desaceleração.
Atividade econômica pode favorecer novos cortes
Um dos principais argumentos utilizados pelo Bradesco é a perda gradual de dinamismo da economia brasileira.
Segundo o IBGE, o Produto Interno Bruto cresceu 1,1% no primeiro trimestre de 2026 em relação aos três meses anteriores. Na comparação com igual período de 2025, a expansão ficou em 1,8%.
Embora a economia continue crescendo, indicadores recentes apontam redução de ritmo em segmentos sensíveis aos juros, especialmente crédito, consumo e investimentos.
Esse processo é relevante porque os efeitos da política monetária aparecem com defasagem.
Mesmo depois do início dos cortes, as taxas elevadas praticadas nos últimos meses continuam restringindo decisões de empresas e famílias.
Para o Bradesco, esse efeito acumulado tende a contribuir para uma desaceleração mais clara da demanda ao longo do segundo semestre.
Câmbio próximo de R$ 5 reduz pressão sobre preços
O comportamento do dólar também sustenta a avaliação mais favorável a cortes adicionais.
Nas projeções econômicas do Bradesco, a moeda americana aparece em R$ 5 no final de 2026, com média anual próxima de R$ 5,10.
A estabilidade cambial reduz o risco de novas pressões sobre produtos importados, combustíveis, alimentos e bens industriais.
Uma forte depreciação do real poderia produzir efeito contrário, dificultando a continuidade da queda dos juros.
Por enquanto, porém, o banco considera que o câmbio apresenta fundamentos para permanecer relativamente estável.
Essa percepção reforça a avaliação de que parte das pressões inflacionárias observadas ao longo do ano pode perder intensidade sem exigir a manutenção da Selic em níveis tão elevados.
Petróleo perdeu parte da pressão inicial
Outro elemento monitorado pelo Bradesco é o comportamento das commodities, especialmente o petróleo.
As tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos e Irã chegaram a provocar receio de uma pressão prolongada sobre os preços de energia.
Até agora, no entanto, o impacto mostrou menor persistência do que inicialmente se temia.
Para a política monetária, a duração desse tipo de choque é fundamental.
Uma elevação temporária de preços tende a produzir efeito diferente de um processo persistente de inflação, especialmente quando a demanda doméstica também começa a perder força.
Na avaliação do banco, a combinação entre acomodação das commodities e desaceleração interna pode permitir que a inflação continue recuando nos próximos meses.
IPCA será determinante para próximos passos
A trajetória dos índices de preços deverá ser o principal fator na decisão das próximas reuniões do Copom.
O IPCA-15 de julho avançou 0,06%, depois de alta de 0,41% em junho. Em 12 meses, o indicador ficou em 4,52%.
A desaceleração foi recebida como um sinal positivo, mas ainda não é suficiente para eliminar as preocupações do Banco Central.
A autoridade monetária tende a observar principalmente a inflação de serviços, os núcleos de preços e as expectativas para horizontes mais longos.
Caso esses indicadores confirmem uma trajetória consistente de melhora, o cenário de juros abaixo de 13,75% poderá ganhar força.
Uma reversão, por outro lado, reduziria o espaço para novos cortes.
Ata do Copom pode indicar extensão do ciclo
A próxima sinalização relevante virá com a divulgação da ata da reunião do Copom, prevista para 11 de agosto.
O documento deverá detalhar a avaliação do Banco Central sobre atividade econômica, inflação, mercado de trabalho, cenário externo e riscos para a política monetária.
Depois disso, o Comitê volta a se reunir nos dias 15 e 16 de setembro.
Até lá, novos dados de preços, atividade, emprego, câmbio e expectativas serão incorporados às projeções.
O cenário-base do Bradesco continua apontando Selic de 13,75% no fim de 2026. A possibilidade de 13,25%, porém, permanece no radar caso a desinflação avance mais rapidamente do que o Banco Central atualmente considera.










