O uso de carteiras digitais no celular já alcança 26% dos brasileiros que possuem cartão, segundo a Pesquisa sobre Meios de Pagamento realizada em junho de 2026 pelo Instituto Datafolha a pedido da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs). O levantamento mostra que cerca de um terço dos portadores de cartão possui uma carteira digital, mas a utilização ativa é mais concentrada entre consumidores jovens, de maior escolaridade e pertencentes às faixas superiores de renda.
Entre os usuários de cartão de 25 a 34 anos, 47% afirmam ter e utilizar carteira digital no celular, maior percentual de toda a amostra. Na faixa de 18 a 24 anos, a proporção é de 46%. O índice cai para 28% entre pessoas de 35 a 44 anos, 17% entre aquelas de 45 a 59 anos e 3% no grupo com 60 anos ou mais. O recorte evidencia que a incorporação do smartphone à rotina de pagamentos ocorre em velocidades diferentes conforme a geração.
A diferença também aparece quando a pesquisa separa os entrevistados por condições socioeconômicas. Nas classes A e B, 41% usam carteira digital, ante 24% na classe C e 12% nas classes D e E. Entre pessoas com ensino superior, a utilização chega a 43%, enquanto entre entrevistados com ensino fundamental fica em 9%. Os números mostram que a digitalização do pagamento não se distribui de maneira uniforme entre os portadores de cartão.
Idade, renda e escolaridade definem ritmos distintos de adoção
A distância entre os grupos etários é especialmente expressiva. A taxa de uso entre consumidores de 25 a 34 anos é mais de quinze vezes superior à observada entre pessoas com 60 anos ou mais. Mesmo entre faixas vizinhas, a diferença é relevante: a participação de usuários ativos cai de 47% entre 25 e 34 anos para 28% no grupo de 35 a 44 anos.
O mesmo padrão aparece na comparação por escolaridade. A diferença de 34 pontos percentuais entre quem possui ensino superior e quem tem ensino fundamental indica que o avanço tecnológico nos meios de pagamento convive com níveis distintos de familiaridade e acesso ao ambiente digital. A pesquisa não atribui causalidade a esses fatores, mas identifica uma associação clara entre perfil socioeconômico e uso da carteira digital.
No recorte regional, Sudeste e Sul registram as maiores taxas de utilização, de 30% e 29%, respectivamente. No Norte, o percentual é de 15%. A pesquisa também aponta diferença entre regiões metropolitanas, onde 29% dos portadores de cartão utilizam a ferramenta no celular, e municípios do interior, com 25%.
Os dados sugerem que o celular já se tornou um dispositivo relevante no ecossistema de pagamentos, mas ainda divide espaço com o cartão físico. Essa convivência fica mais evidente quando se observa a expansão das transações por aproximação, tecnologia que pode ser usada tanto pelo plástico tradicional quanto por smartphones e relógios inteligentes.
Pagamento por aproximação supera R$ 1 trilhão no semestre
No primeiro semestre de 2026, os pagamentos por aproximação movimentaram R$ 1 trilhão no Brasil, crescimento de 18,5% em relação ao mesmo período de 2025, de acordo com dados da Abecs. Em junho, 76,2% das transações presenciais com cartão foram realizadas por aproximação. Cinco anos antes, em junho de 2021, essa participação era de 13,7%.
A disseminação da tecnologia é mais ampla do que o uso específico de carteiras digitais. Pesquisa divulgada pela associação indica que 73% dos brasileiros realizam pagamentos por aproximação. Entre esses usuários, 91% apontam rapidez e comodidade como os principais benefícios. O cartão físico ainda aparece como o dispositivo mais utilizado para esse tipo de operação, citado por 65%, enquanto o celular é usado por 41% e relógios inteligentes por 2%.
A comparação ajuda a separar dois movimentos que frequentemente aparecem juntos. O primeiro é a adoção do NFC, que já domina as transações presenciais com cartão. O segundo é a migração do instrumento de pagamento do cartão físico para o smartphone. Embora 76,2% das compras presenciais com cartão já sejam feitas por aproximação, a carteira digital ativa no celular alcança 26% dos portadores, o que mostra que a substituição do plástico pelo telefone ocorre em ritmo mais gradual.
A infraestrutura de aceitação também se ampliou. Segundo a Abecs, praticamente todos os terminais de pagamento instalados já contam com funcionalidade de aproximação. Isso reduz uma das barreiras operacionais para o uso do celular em compras presenciais, ainda que a adoção dependa também do aparelho, do sistema operacional, da carteira utilizada e das opções disponibilizadas por bancos e instituições de pagamento.
Mercado de cartões movimenta R$ 2,3 trilhões
A expansão das carteiras digitais ocorre dentro de um mercado de cartões que continua crescendo em valor. As transações com cartões de crédito, débito e pré-pagos somaram R$ 2,3 trilhões no primeiro semestre de 2026, alta de 8% sobre igual período de 2025. Foram 23,9 bilhões de operações, crescimento de 3%, o equivalente a uma média de 133 milhões de pagamentos por dia.
O cartão de crédito respondeu pela maior parcela do volume, com R$ 1,7 trilhão transacionado e avanço de 12,1% em um ano. O débito movimentou R$ 481,6 bilhões, queda de 1,8%, enquanto o pré-pago somou R$ 191,1 bilhões, alta de 0,5%. Esses números mostram que a digitalização do meio de acesso não elimina necessariamente o cartão como trilho financeiro: em muitos casos, a carteira digital apenas substitui a apresentação do cartão físico por uma credencial armazenada no dispositivo.
As compras não presenciais também ganharam peso. Operações realizadas pela internet e outros canais remotos movimentaram R$ 633 bilhões no primeiro semestre, 18% acima do resultado do mesmo período de 2025. O movimento reforça a integração entre os pagamentos presenciais e digitais, já que o mesmo cartão pode ser utilizado no comércio eletrônico, em aplicativos, em carteiras digitais ou por aproximação em lojas físicas.
Outro indicador da transformação da infraestrutura é o avanço do Tap on Phone, tecnologia que permite transformar smartphones e tablets em terminais capazes de aceitar pagamentos por aproximação. A modalidade movimentou R$ 53,6 bilhões no primeiro semestre de 2026, expansão de 79,2% na comparação anual. Em dois anos, segundo a Abecs, o crescimento acumulado chegou a 471,3%.
Pix amplia funções das carteiras digitais
O avanço das carteiras não está restrito aos cartões. O Banco Central incorporou o Pix por aproximação ao ecossistema de pagamentos, permitindo que uma transação instantânea seja iniciada com a aproximação do celular ou de um relógio inteligente de um terminal compatível com NFC.
No modelo de carteira digital, o usuário precisa vincular previamente sua conta à plataforma. A comunicação entre a carteira e a instituição financeira ocorre por meio das interfaces do Open Finance, e a carteira deve atuar como iniciadora de transação de pagamento autorizada pelo Banco Central. Depois da vinculação, o consumidor pode aproximar o dispositivo, conferir os dados e autorizar a operação com os mecanismos de autenticação disponíveis.
O Banco Central informa que o serviço depende de três condições técnicas básicas: a carteira ou o aplicativo precisa oferecer a funcionalidade, o aparelho do cliente deve ser compatível com NFC e o equipamento do recebedor precisa estar habilitado para esse tipo de pagamento. A oferta é facultativa para carteiras digitais, instituições financeiras e provedores de terminais.
Na segurança, o modelo utiliza autenticação do dispositivo, como biometria ou senha, além de criptografia e dos controles do ecossistema do Pix e do Open Finance. O desenho regulatório amplia o papel da carteira digital, que deixa de funcionar apenas como um repositório virtual de cartões e passa a poder concentrar também pagamentos iniciados diretamente de contas bancárias.
Celular avança sem eliminar o cartão físico
Os dados de 2026 indicam que a mudança mais rápida ocorre na forma de apresentar e autenticar o pagamento, e não necessariamente na substituição imediata dos instrumentos financeiros existentes. O cartão continua movimentando trilhões de reais e permanece como o dispositivo mais usado nas operações por aproximação, ao mesmo tempo em que o smartphone ganha espaço como interface para cartões, Pix e outras jornadas digitais.
A diferença de adoção entre faixas etárias mostra que essa transição deve permanecer desigual por algum tempo. Enquanto quase metade dos usuários de cartão entre 18 e 34 anos já utiliza carteira digital no celular, a presença da tecnologia é residual entre consumidores com 60 anos ou mais. Renda, escolaridade e localização geográfica também estão associadas a taxas distintas de utilização.
Para bancos, empresas de pagamento, varejistas e desenvolvedores de tecnologia, a expansão cria uma estrutura em que diferentes meios precisam coexistir. O consumidor pode pagar com o cartão físico por aproximação, usar uma credencial digitalizada no smartphone ou iniciar um Pix por NFC, desde que os participantes envolvidos ofereçam suporte à funcionalidade.
No curto prazo, os dados oficiais apontam para uma convergência crescente entre cartão, celular, NFC e Open Finance. A carteira física não desapareceu, mas o telefone passou a concentrar funções que antes exigiam instrumentos separados. A próxima etapa dessa transformação dependerá da ampliação da adoção entre os grupos que hoje apresentam menor utilização e da continuidade da infraestrutura de aceitação em bancos, carteiras e estabelecimentos comerciais.
Fontes:
- Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) — “Carteira digital já alcança 1 em cada 4 usuários de cartão” — 13/08/2026
- Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) — “Pagamentos por aproximação somam R$ 1 trilhão no 1º semestre 2026” — 20/08/2026
- Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) — “Pagamentos com cartões crescem 8% no primeiro semestre de 2026 e movimentam R$ 2,3 trilhões” — 19/08/2026
- Banco Central do Brasil — “Pix por aproximação” — acesso em 24/08/2026










