Caso Banco Master: Quem são os protagonistas e os impactos bilionários na mira da Polícia Federal
O mercado financeiro brasileiro atravessa um de seus momentos de maior tensão institucional e regulatória com o avanço das investigações sobre o Caso Banco Master. O que começou com suspeitas de irregularidades pontuais evoluiu, nas últimas semanas, para um inquérito robusto da Polícia Federal (PF), revelando uma complexa teia que envolve banqueiros, líderes religiosos, grandes empresários e gestores de fundos. A Operação Compliance Zero, deflagrada para apurar crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, expôs as entranhas de um esquema que pode gerar um rombo estimado em R$ 47 bilhões.
O Caso Banco Master não se limita apenas à insolvência de uma instituição bancária; ele coloca em xeque mecanismos de fiscalização e expõe conexões perigosas entre o capital financeiro e esferas de influência política em Brasília. No centro desse furacão está Daniel Bueno Vorcaro, controlador do banco, apontado pelas autoridades como o líder de uma suposta organização criminosa. No entanto, as diligências recentes mostram que o escândalo possui ramificações que vão muito além de um único CPF, atingindo nomes de peso como Nelson Tanure e estruturas financeiras como a Reag Investimentos.
A Gênese do Caso Banco Master: Ascensão e Queda de Vorcaro
Para compreender a magnitude do Caso Banco Master, é fundamental analisar a trajetória de seu principal artífice. Daniel Bueno Vorcaro, de 42 anos, protagonizou uma ascensão meteórica e agressiva. Vindo do setor imobiliário de Belo Horizonte, onde seu pai, Henrique Vorcaro, construiu um império, Daniel assumiu o controle do antigo Banco Máxima em 2017. A instituição, à época sob comando de Saul Sabbá, já enfrentava severas restrições do Banco Central.
A estratégia adotada por Vorcaro, que se tornaria o fio condutor do Caso Banco Master, baseou-se em uma expansão alavancada por taxas de retorno muito acima da média de mercado. Enquanto concorrentes ofereciam remuneração de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) próxima a 110% do CDI, o Master ofertava taxas entre 130% e 140%. Em depoimento à PF, o próprio banqueiro admitiu que seu plano de negócios era “100% baseado no Fundo Garantidor de Crédito (FGC)”, explorando a garantia de ressarcimento de até R$ 250 mil por CPF como “regra do jogo” para atrair capital massivo de pequenos investidores.
Essa liquidez artificial financiou um estilo de vida suntuoso e conexões poderosas, elementos que agora recheiam as páginas do inquérito do Caso Banco Master. Festas milionárias, jatinhos privados e mansões em Brasília avaliadas em R$ 36 milhões compunham o cenário de opulência que ruiu com a primeira fase da Operação Compliance Zero, em novembro, quando Vorcaro foi preso tentando embarcar para Dubai.
O Esquema do BRB e a Acusação de Fraude
O ponto de inflexão no Caso Banco Master foi a tentativa de uma transação bilionária com o Banco de Brasília (BRB). Segundo a Polícia Federal, a organização liderada por Vorcaro teria articulado a venda de carteiras de crédito falsas (“podres”) para a instituição estatal em 2025. O valor da operação girava em torno de R$ 12,2 bilhões.
Investigadores apontam que essa manobra visava cobrir buracos contábeis e gerar caixa imediato através de ativos inexistentes ou sem valor real. Embora a defesa de Vorcaro sustente que as tratativas com o BRB não passaram de um estágio preliminar e não resultaram em transferência definitiva, os indícios de gestão fraudulenta e temerária são os pilares que sustentam a acusação no Caso Banco Master. A ousadia da operação, envolvendo um banco público ligado ao governo do Distrito Federal, acelerou o escrutínio das autoridades.
Os Novos Alvos: A Expansão da Investigação
A segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em 14 de janeiro, demonstrou que o Caso Banco Master possui coadjuvantes de luxo operando em diferentes frentes. A investigação ampliou o cerco para figuras que, segundo a PF, davam suporte financeiro, operacional ou político ao esquema.
Fabiano Zettel: O Braço Familiar e Religioso
Um dos nomes de destaque nesta nova etapa do Caso Banco Master é o do empresário e pastor Fabiano Campos Zettel. Cunhado de Vorcaro e CEO da Moriah Asset, Zettel foi detido no Aeroporto de Guarulhos prestes a voar para os Emirados Árabes Unidos. Sua prisão, embora revogada no mesmo dia, lançou luz sobre o fluxo de capitais do entorno familiar do banqueiro.
Zettel conecta o Caso Banco Master ao universo político-religioso. Maior doador individual das campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas em 2022, injetando R$ 5 milhões, ele também possui vínculos com a Igreja Batista da Lagoinha. A PF investiga se suas estruturas empresariais foram utilizadas para blindagem patrimonial ou lavagem de dinheiro, dada a sua ligação com a compra da mansão usada por Vorcaro na capital federal.
João Carlos Mansur e a Reag Investimentos
A complexidade financeira do Caso Banco Master passa necessariamente pela Reag Investimentos (atualmente CBSF). João Carlos Mansur, fundador e ex-executivo da gestora, foi alvo de buscas. A Reag, que administra cerca de R$ 299 bilhões, foi liquidada pelo Banco Central no dia seguinte à operação, um sinal claro da gravidade das descobertas.
A investigação aponta que a gestora teria sido usada para inflar resultados do Master, movimentar recursos de forma atípica e minimizar riscos artificialmente. O envolvimento de Mansur no Caso Banco Master ganha contornos ainda mais dramáticos ao se cruzar com a Operação Quasar, que investiga o uso de fundos da Reag por facções criminosas como o PCC para lavagem de dinheiro do tráfico e combustíveis. Essa intersecção de crimes financeiros de colarinho branco com o crime organizado é uma das vertentes mais alarmantes do inquérito.
Nelson Tanure: O “Sócio Oculto”
Talvez a figura mais proeminente arrastada para o centro do Caso Banco Master seja o investidor Nelson Tanure. Conhecido por sua habilidade em adquirir empresas em dificuldades (como Light, Prio e Gafisa), Tanure foi alvo de buscas e teve bloqueio de bens decretado pelo STF.
A tese da Procuradoria-Geral da República (PGR), citada em reportagens e documentos do inquérito, é que Tanure atuaria como “sócio oculto” de Vorcaro. Utilizando fundos e estruturas societárias complexas, ele exerceria influência decisiva nos rumos do banco. A defesa de Tanure nega veementemente qualquer participação societária ou de controle, mas sua inclusão no rol de investigados eleva o Caso Banco Master a um patamar de crise sistêmica no mercado de capitais brasileiro.
Risco Sistêmico e Impacto Econômico
O mercado financeiro observa com apreensão os desdobramentos do Caso Banco Master devido ao “efeito contágio”. Cálculos preliminares indicam que a quebra do Banco Master e do Will Bank (vinculado ao conglomerado) pode gerar um impacto de R$ 47 bilhões. Esse volume de perdas acionaria gatilhos de proteção e poderia desestabilizar outras instituições médias que operam com modelos de captação semelhantes.
A estratégia de Vorcaro de alavancagem via FGC criou uma distorção no mercado de renda fixa. Agora, com a liquidação e as fraudes expostas pelo Caso Banco Master, há um temor real sobre a capacidade de solvência do próprio Fundo Garantidor em um cenário de quebras em cadeia. O Banco Central tem atuado para conter os danos, mas a desconfiança dos investidores em relação a bancos de médio porte aumentou significativamente.
Conexões Políticas e o Judiciário
Não se pode analisar o Caso Banco Master sem considerar o componente político. Daniel Vorcaro cultivou relações estreitas em Brasília, contratando escritórios de advocacia ligados a familiares de ministros do STF e mantendo interlocução com senadores e líderes partidários.
Em sua defesa, Vorcaro argumentou que, se suas conexões fossem tão influentes para ilícitos, ele “não estaria de tornozeleira eletrônica”. Contudo, a facilidade de trânsito do banqueiro nos corredores do poder é vista pelos investigadores como uma ferramenta que pode ter facilitado a expansão das operações suspeitas até a deflagração da Compliance Zero. A blindagem política, aparentemente, falhou diante da materialidade das provas colhidas no Caso Banco Master.
O Posicionamento das Defesas
Diante da avalanche de acusações no Caso Banco Master, as defesas adotam a estratégia de negação técnica. Vorcaro reafirma sua inocência e alega que o banco possuía ativos superiores aos passivos, atribuindo a quebra a uma crise de liquidez pontual. Sua equipe jurídica critica os vazamentos seletivos e insiste na legalidade da estratégia baseada no FGC.
A Reag Investimentos repudia as alegações de fraude e associação criminosa, enquanto Nelson Tanure publicou carta aberta negando ser controlador ou sócio do banco. Fabiano Zettel, por sua vez, sustenta que suas atividades empresariais são lícitas e desvinculadas da gestão financeira do cunhado. Todos, no entanto, permanecem sob a lupa do STF e da Polícia Federal enquanto o Caso Banco Master avança.
O Futuro da Investigação
O Caso Banco Master está longe de um desfecho. A análise do material apreendido na segunda fase da operação — computadores, celulares e documentos financeiros — deve revelar novos nomes e detalhar o caminho do dinheiro desviado. A possibilidade de delações premiadas, especialmente de executivos do escalão intermediário do banco e da gestora Reag, mantém o mercado e a classe política em alerta máximo.
A narrativa de que o Master era apenas um banco agressivo comercialmente caiu por terra. O que emerge do Caso Banco Master é a anatomia de uma organização suspeita de criar um motor financeiro de ilusões, sustentado por fraudes contábeis e alavancagem irresponsável. Para a economia brasileira, resta a conta bilionária e a urgente necessidade de revisão dos mecanismos de supervisão bancária para evitar que novos “Masters” surjam no horizonte.
A Gazeta Mercantil seguirá acompanhando cada desdobramento deste que já se configura como um dos maiores escândalos financeiros da década. O Caso Banco Master serve como um severo alerta sobre os limites da ganância e a fragilidade das estruturas de controle diante de operações sofisticadas de engenharia financeira.






