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PF vê atuação de Ciro Nogueira em favor de Vorcaro no caso Banco Master

Decisão de André Mendonça aponta suspeita de benefícios políticos ao banqueiro em troca de vantagens econômicas; senador nega irregularidades.

por Júlia Campos
07/05/2026 às 10h52
em Política
Ciro Nogueira - Gazeta Mercantil

Ciro Nogueira - Foto: Reprodução

A Polícia Federal afirma ter identificado indícios de que o senador Ciro Nogueira (PP-PI) teria atuado no Congresso em favor de interesses do banqueiro Daniel Bueno Vorcaro, controlador do Banco Master, em troca de vantagens econômicas indevidas. A suspeita consta em decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou medidas cautelares no âmbito da quinta fase da Operação Compliance Zero, deflagrada nesta quinta-feira, 7 de maio de 2026. A apuração investiga supostos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o sistema financeiro nacional.

Segundo a decisão, os elementos reunidos pela PF apontam uma “suposta atuação parlamentar em benefício de interesses privados” de Vorcaro. O relatório policial menciona pagamentos mensais, custeio de viagens, hospedagens, disponibilização de imóvel de alto padrão e uma aquisição societária com deságio expressivo como possíveis vantagens direcionadas ao senador.

Leia também: Perda de mandato de Ramagem: o que a Câmara precisa decidir e como o caso pressiona a relação com o STF.

Ciro Nogueira foi alvo de mandado de busca e apreensão. O ministro André Mendonça, no entanto, não decretou prisão cautelar contra o parlamentar. O magistrado determinou a proibição de contato entre o senador e outros investigados da Operação Compliance Zero, medida destinada a preservar a apuração e evitar eventual interferência na coleta de provas.

A defesa do senador nega participação em atividades ilícitas. Em manifestação pública, a assessoria de Ciro Nogueira afirmou que o parlamentar se colocou à disposição para esclarecimentos e criticou medidas investigativas baseadas, segundo a defesa, em troca de mensagens de terceiros.

Leia também: Banco Fator coloca seguradora à venda e atrai interesse de Generali, AXA e Mapfre.

Emenda ao FGC está no centro da suspeita

Um dos principais pontos da investigação envolve a Emenda nº 11 à PEC nº 65/2023, apresentada por Ciro Nogueira em agosto de 2024. A proposta previa ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante.

Na avaliação da Polícia Federal, a medida poderia ter impacto direto sobre a capacidade de captação do Banco Master. O FGC funciona como uma proteção a depositantes e investidores em caso de intervenção, liquidação ou insolvência de instituição financeira, dentro de limites e regras específicas. Ao elevar a cobertura, a proposta poderia aumentar a atratividade de produtos bancários cobertos pelo fundo, como CDBs, especialmente em instituições que dependem de captação junto ao mercado.

A PF sustenta que o texto da emenda teria sido elaborado pela assessoria do Banco Master e reproduzido integralmente pelo senador no Senado. A decisão de André Mendonça cita mensagens obtidas na investigação nas quais Daniel Vorcaro teria comemorado a apresentação da proposta, afirmando que o texto “saiu exatamente como mandei”.

Ainda conforme a apuração, interlocutores ligados ao banco teriam avaliado que a mudança poderia ampliar de forma significativa os negócios do Master. A investigação menciona mensagens segundo as quais a alteração “sextuplicaria” a operação da instituição e provocaria uma “hecatombe” no mercado financeiro.

A hipótese investigativa da PF é que a atuação legislativa não teria ocorrido de forma ordinária, mas como parte de uma relação mais ampla entre o senador e o banqueiro, marcada por interesses privados, vantagens econômicas e possíveis contrapartidas políticas. Essa linha de investigação ainda depende de aprofundamento e todos os citados têm direito à defesa.

PF cita circulação de minutas entre aliados do banqueiro

A decisão também aponta que a emenda ao FGC não seria um episódio isolado. Segundo a Polícia Federal, em novembro de 2023, minutas de projetos de lei de interesse de Daniel Vorcaro teriam circulado entre a residência de Ciro Nogueira e pessoas ligadas ao banqueiro antes de serem encaminhadas ao gabinete parlamentar.

O documento relata que houve orientação para que os papéis não fossem associados ao Banco Master durante o transporte. Para os investigadores, esse cuidado indicaria tentativa de ocultar a origem das propostas legislativas e de preservar a aparência de iniciativa parlamentar autônoma.

A PF vê nesse fluxo de documentos um indício de que interesses do grupo ligado ao Banco Master teriam sido convertidos em iniciativas formais no Congresso. A apuração busca esclarecer se houve influência indevida na elaboração de textos legislativos e se essa atuação esteve vinculada a benefícios financeiros concedidos ao senador.

No campo jurídico, a suspeita é relevante porque a atividade parlamentar é protegida pela Constituição, mas não autoriza, segundo a jurisprudência, o uso do mandato para favorecer interesses privados mediante recebimento de vantagens. A investigação tenta delimitar se houve apenas interlocução política ou se a relação extrapolou os limites legais.

Relação financeira é descrita como arranjo de benefícios mútuos

A decisão de André Mendonça descreve a relação entre Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro como um “arranjo funcional e instrumentalmente orientado para obtenção de benefícios mútuos”. A expressão aparece no contexto da análise dos elementos financeiros reunidos pela Polícia Federal.

Entre os pontos citados está a aquisição de participação societária estimada em cerca de R$ 13 milhões pelo valor de R$ 1 milhão. Para os investigadores, a diferença entre o valor estimado e o montante pago poderia configurar vantagem econômica indevida, caso seja comprovada a relação com atos praticados no exercício do mandato.

A PF também menciona supostos pagamentos mensais de R$ 300 mil, posteriormente elevados para R$ 500 mil, de acordo com a investigação. O relatório ainda aponta custeio de viagens internacionais, hospedagens e outras despesas pessoais, além da disponibilização gratuita de imóvel de alto padrão.

Esses elementos são tratados pela decisão em caráter preliminar, em juízo de cognição sumária. Isso significa que o ministro avaliou a existência de indícios suficientes para autorizar medidas cautelares, mas sem julgamento definitivo sobre responsabilidade criminal.

A investigação busca agora rastrear a origem, o caminho e a finalidade dos valores mencionados. A análise de movimentações financeiras, contratos, mensagens e vínculos societários será central para definir se os pagamentos apontados pela PF têm natureza lícita ou se integravam um mecanismo de corrupção e lavagem de dinheiro.

Banco Master amplia dimensão econômica do caso

A Operação Compliance Zero tem como pano de fundo a crise envolvendo o Banco Master e seus controladores. O caso ganhou relevância nacional por envolver uma instituição financeira com forte atuação na captação de recursos, operações estruturadas e instrumentos de crédito.

Para o mercado, a suspeita de interferência política em favor de uma instituição financeira investigada aumenta a sensibilidade do caso. A ampliação do limite de cobertura do FGC, se aprovada, poderia alterar incentivos relevantes no sistema bancário, ao afetar a percepção de risco de investidores em produtos de renda fixa emitidos por bancos.

O ponto de atenção está no potencial efeito competitivo. Instituições menores ou com maior necessidade de captação poderiam se beneficiar de uma garantia ampliada, enquanto bancos maiores e mais capitalizados poderiam ver mudança relevante na dinâmica de disputa por recursos de clientes.

A investigação não afirma que a proposta legislativa, por si só, seja ilegal. O foco da PF está na suspeita de que a emenda teria sido apresentada como contrapartida a vantagens indevidas e com origem direta em interesses privados do Banco Master.

Esse enquadramento aproxima a apuração de uma zona sensível entre política econômica, regulação financeira e integridade institucional. A atuação de parlamentares em temas do sistema financeiro é legítima, mas a elaboração de propostas sob influência oculta de agentes privados investigados pode gerar questionamentos jurídicos e reputacionais.

Mendonça vê indícios, mas afasta prisão do senador

Na decisão, André Mendonça afirma que os elementos reunidos até o momento indicam possível prática de corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o sistema financeiro nacional. O ministro, porém, considerou desnecessária a prisão cautelar de Ciro Nogueira neste momento.

A cautelar imposta ao senador foi a proibição de contato com os demais investigados. A medida busca evitar combinação de versões, interferência em depoimentos ou destruição de provas, sem afastar o parlamentar do mandato.

A decisão também autorizou diligências contra outros investigados e determinou a suspensão das atividades econômicas de empresas apontadas pela PF como possíveis instrumentos de lavagem de dinheiro e circulação de recursos ilícitos.

Na mesma fase da operação, foi decretada a prisão temporária de Felipe Cançado Vorcaro, apontado pela investigação como integrante do núcleo financeiro-operacional do suposto esquema. Segundo a PF, ele teria atuado na operacionalização de repasses financeiros e em estruturas societárias consideradas suspeitas.

A prisão temporária tem prazo determinado e finalidade investigativa. Seu objetivo é permitir a coleta de provas e evitar interferência na apuração durante etapa considerada sensível pelos investigadores.

Caso pressiona Congresso e sistema financeiro

A nova fase da Operação Compliance Zero aumenta a pressão política sobre Ciro Nogueira, presidente nacional do PP e uma das principais lideranças do Congresso. A presença de um senador em exercício no centro de uma investigação sobre um banco amplia o impacto institucional do caso e deve produzir desdobramentos no Senado, no STF e no debate sobre a regulação do sistema financeiro.

Do ponto de vista político, a apuração atinge uma figura com forte capacidade de articulação partidária. Ciro Nogueira foi ministro da Casa Civil no governo Jair Bolsonaro e mantém influência sobre negociações legislativas, alianças eleitorais e votações de interesse do Congresso.

No plano econômico, o caso reforça a necessidade de transparência em propostas que alteram mecanismos de proteção financeira, como o Fundo Garantidor de Crédito. Mudanças nesse tipo de instrumento têm efeitos diretos sobre bancos, investidores, custo de captação e percepção de risco no mercado.

A investigação ainda está em andamento. Caberá à Polícia Federal aprofundar a análise das provas, ao Ministério Público Federal avaliar eventual denúncia e ao Supremo Tribunal Federal decidir sobre os próximos atos processuais. Até lá, as suspeitas permanecem sob apuração, e os investigados mantêm o direito à ampla defesa e ao contraditório.

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