terça-feira, 13 de outubro de 2026
contato@gazetamercantil.com
GAZETA MERCANTIL
GAZETA MERCANTIL
GAZETA MERCANTIL
Home Empresas

Correios suspendem cortes para evitar greve, mas crise bilionária pressiona caixa da estatal

Estatal adia fechamento de unidades e revisão de gratificações até 31 de julho, enquanto acumula prejuízo de R$ 11,6 bilhões desde 2025 e depende de crédito garantido pela União para sustentar a reestruturação.

por Alice Nascimento
10/07/2026 às 19h14
em Empresas
Correios Suspendem Reestruturação Para Evitar Greve E Adiam R$ 2,1 Bi Em Cortes-Gazeta Mercantil

Os Correios decidiram suspender temporariamente parte das medidas mais sensíveis do plano de reestruturação depois da pressão de sindicatos e da ameaça de paralisação nacional. A empresa adiou até 31 de julho o fechamento de unidades, a retirada de gratificações ligadas ao atendimento em agências e a aplicação de mudanças operacionais que vinham sendo contestadas por trabalhadores. A decisão evitou uma greve imediata, mas empurrou para o fim do mês o principal dilema da estatal: como cortar despesas em uma empresa que fechou 2025 com prejuízo recorde e voltou a registrar rombo bilionário no primeiro trimestre de 2026.

Leia também: BlackRock (BLK; BLAK34) supera projeções e ativos atingem recorde de US$ 15,3 trilhões

A trégua foi costurada em meio à deterioração acelerada das contas. As demonstrações financeiras oficiais mostram que os Correios tiveram prejuízo líquido de R$ 8,46 bilhões em 2025 e novo resultado negativo de R$ 3,16 bilhões apenas nos três primeiros meses de 2026. Somados, os dois períodos acumulam perda de aproximadamente R$ 11,62 bilhões em 15 meses. O patrimônio líquido, que já estava negativo em R$ 13,16 bilhões no fim de dezembro, caiu para R$ 16,28 bilhões negativos em março.

Leia também: CURY3, TEND3 e DIRR3 caem com greve da Caixa; veja o que muda para as incorporadoras.

O recuo da direção foi comunicado após reuniões com representantes dos trabalhadores. A Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Correios, Telégrafos e Similares (Fentect) informou, em suas redes oficiais, que a empresa aceitou suspender até 31 de julho medidas como fechamento de agências, mudanças em sistemas de distribuição, fim de quebra de caixa e alterações no Adicional de Atendimento em Guichê (AAG). A categoria, porém, manteve o estado de greve, o que preserva a possibilidade de paralisação caso a negociação não avance.

Ajuste fica no meio do caminho

O ponto central da crise é que a suspensão atinge justamente as medidas que deveriam produzir economia estrutural. O plano de reestruturação dos Correios foi apresentado como resposta a uma combinação de queda de receita, aumento de custos, passivos trabalhistas e necessidade de modernização operacional. A própria empresa afirma que o programa 2025–2027 busca recompor caixa, reorganizar a operação, reduzir despesas e preparar novas fontes de receita.

Leia também: Exoneração do marido de Carla Zambelli aprofunda crise no núcleo bolsonarista.

No papel, a estratégia tem três frentes: estabilizar a operação, reorganizar a estrutura e abrir espaço para novas receitas. Na prática, o componente mais difícil é o corte de custo. A empresa tem capilaridade nacional, obrigação de universalização postal e presença em municípios onde a operação dificilmente se sustenta apenas por retorno econômico. Essa característica torna politicamente sensível qualquer fechamento de agência, centro de distribuição ou unidade de atendimento.

A suspensão também afeta o desenho do novo Programa de Demissão Voluntária (PDV), que deveria ser direcionado a empregados lotados nas unidades previstas para fechamento. A primeira rodada de desligamentos ficou abaixo da meta informada pela própria empresa em sua página oficial: os Correios afirmam que quase 7 mil empregados aderiram voluntariamente ao PDV nos últimos dois anos, com economia estimada de R$ 923 milhões para o biênio 2026–2027.

Resultado financeiro virou novo foco de pressão

O primeiro trimestre de 2026 mostrou que a crise deixou de ser apenas operacional. A receita líquida caiu de R$ 3,95 bilhões no primeiro trimestre de 2025 para R$ 3,86 bilhões em igual período de 2026, mas o principal agravante veio das despesas gerais, administrativas e financeiras. As despesas financeiras saltaram para R$ 985 milhões no trimestre, contra R$ 283 milhões um ano antes, enquanto o resultado financeiro negativo chegou a R$ 636,9 milhões.

Esse avanço reflete o peso do endividamento contraído para atravessar a crise. Em dezembro, os Correios anunciaram a captação de R$ 12 bilhões com um sindicato de bancos, em operação destinada a recompor capital de giro, regularizar compromissos financeiros e financiar investimentos estratégicos. Segundo o Ministério da Fazenda, a garantia da União foi assinada em 29 de dezembro de 2025; dos R$ 12 bilhões contratados, R$ 10 bilhões foram desembolsados ainda em 2025 e incorporados ao saldo de operações de crédito garantidas pela União.

A presença da garantia federal é decisiva. Ela reduz o custo da operação para a empresa, mas transfere risco potencial ao Tesouro Nacional caso os Correios não consigam honrar o pagamento. Por isso, a suspensão de medidas de ajuste reacende dúvidas sobre a capacidade da estatal de gerar caixa suficiente para sustentar o plano sem depender de novas operações de crédito.

Receita encolheu e internacional desabou

A fotografia de 2025 ajuda a explicar a gravidade do quadro. A receita bruta de vendas e serviços caiu de R$ 19,56 bilhões em 2024 para R$ 17,34 bilhões em 2025, recuo de 11,35%. A receita líquida ficou em R$ 16,65 bilhões, abaixo dos R$ 18,91 bilhões do ano anterior. O segmento internacional foi o mais atingido: a receita caiu de R$ 3,90 bilhões para R$ 1,34 bilhão, uma contração de 65,5%.

A própria empresa reconhece que o resultado de 2025 foi pressionado por queda da receita internacional, provisões judiciais, aumento de custos de pessoal e despesas financeiras. Segundo os Correios, esses fatores somaram R$ 6,2 bilhões e estão na origem do plano de reestruturação.

O problema é que a recomposição de receita não acompanha a velocidade da despesa. Até maio de 2026, os Correios afirmaram ter superado a meta de receita acumulada em 3,28% e registrado melhora operacional, com avanço do índice de entregas no prazo de 65% em janeiro para 90% em maio. Também informaram economia de R$ 321 milhões com renegociações contratuais e cumprimento de 78% da meta financeira de redução de despesas para 2026.

Esses indicadores mostram alguma recuperação operacional, mas ainda não resolvem o desequilíbrio estrutural. A empresa continua com patrimônio líquido negativo, despesas financeiras elevadas e dependência de medidas de reestruturação que agora ficaram parcialmente suspensas.

Contrato com Banco do Brasil dá fôlego, mas não resolve rombo

O alívio mais recente veio do Banco do Brasil. O banco formalizou contrato de até R$ 2,307 bilhões com os Correios para prestação de serviços postais convencionais, especiais e telemáticos, em âmbito nacional e internacional, a todas as unidades do BB. O contrato foi formalizado em 26 de junho, entrou em vigor em 2 de julho e tem prazo de 60 meses.

No documento de transações com partes relacionadas, o Banco do Brasil afirma que não realizou tomada de preços com terceiros por considerar haver inviabilidade de competição. Segundo o banco, aproximadamente 97,84% das despesas com postagens estão sujeitas ao monopólio postal dos Correios. Para os demais serviços, o BB argumenta que não há prestadores com capilaridade, abrangência nacional e capacidade operacional equivalentes em localidades remotas e de difícil acesso.

O contrato ajuda a dar previsibilidade de caixa, mas não muda a escala do problema. Distribuído por cinco anos, o valor equivale a cerca de R$ 461 milhões por ano. É uma receita relevante, especialmente em uma estatal com necessidade urgente de liquidez, mas insuficiente para compensar prejuízos anuais bilionários ou despesas financeiras próximas de R$ 1 bilhão por trimestre.

Nova captação volta ao radar

A busca por uma nova operação de crédito passou a fazer parte do debate sobre a sobrevivência financeira da estatal. Informações de mercado indicam que os Correios negociam uma nova captação de aproximadamente R$ 7 bilhões, depois de já terem contratado R$ 12 bilhões no fim de 2025. A operação ainda não aparece, nos documentos oficiais examinados, com estrutura, custo ou eventual garantia da União definidos.

Esse ponto é sensível para o governo federal. Sem aval soberano, qualquer novo financiamento tende a sair mais caro, porque os bancos precificam o risco direto da empresa. Com aval, o custo pode cair, mas o risco potencial recai sobre a União. Em ambos os cenários, a suspensão de cortes dificulta a narrativa de que a estatal está avançando de forma consistente rumo ao equilíbrio.

O impasse também aumenta a pressão sobre o Ministério da Fazenda e o Tesouro Nacional. A garantia concedida em 2025 foi justificada dentro de um plano de reequilíbrio econômico-financeiro. Se o plano perde força na execução, a concessão de novo respaldo federal tende a exigir contrapartidas mais duras, maior transparência e metas verificáveis de redução de despesas.

Greve segue como risco operacional

A manutenção do estado de greve mantém um risco adicional sobre a operação. Uma paralisação nacional afetaria entregas, contratos corporativos, atendimento em agências e serviços de interesse público executados pelos Correios, como distribuição de materiais oficiais, provas, documentos e encomendas em regiões onde a presença de operadores privados é limitada.

A direção da empresa tenta equilibrar duas pressões opostas. De um lado, precisa manter diálogo com sindicatos para evitar interrupção de serviços e desgaste político. De outro, precisa demonstrar ao mercado, ao Tesouro e aos órgãos de controle que o plano de ajuste não foi abandonado.

A margem de erro é pequena. Se a empresa insistir nos cortes sem acordo, pode enfrentar greve e perda adicional de receita. Se recuar demais, adia economias necessárias e amplia a necessidade de endividamento. Nos dois casos, a crise dos Correios deixa de ser apenas corporativa e passa a ter impacto fiscal, logístico e político.

A suspensão até 31 de julho comprou tempo, mas não resolveu a equação. Os Correios continuam essenciais para a infraestrutura postal do país, mas operam com uma estrutura de custos incompatível com a receita atual. A negociação aberta com os trabalhadores decidirá se a reestruturação será retomada com algum pacto interno ou se a estatal entrará no segundo semestre ainda mais dependente de crédito para manter a operação em funcionamento.

LEIA MAIS

Vivara Aprova Emissão De R$ 300 Milhões Em Debêntures Com Vencimento Em 2031-Gazeta Mercantil
Empresas

Vivara aprova emissão de R$ 300 milhões em debêntures com vencimento em 2031

A Vivara (VIVA3) aprovou uma emissão de debêntures simples no valor de R$ 300 milhões, em uma operação voltada principalmente à reorganização de passivos e ao reforço da...

Leia MaisDetails
Lvmh Perde Mais De €250 Bilhões Em Valor De Mercado Desde 2023-Gazeta Mercantil
Empresas

LVMH registra queda de 5% em moda e ações acumulam perda de 40% em 2026

A LVMH, conglomerado francês que reúne marcas como Louis Vuitton, Christian Dior, Tiffany & Co. e Sephora, encerrou o terceiro trimestre de 2026 com resultados abaixo das expectativas...

Leia MaisDetails
Mercado Livre
Mercados

Mercado Livre (MELI): Citi corta preço-alvo para US$ 2.100 antes do balanço do 3T26

O Citi elevou a recomendação do Mercado Livre (MELI34) de Neutra/Alto Risco para Neutra e cortou o preço-alvo das ações. Saiba mais.

Leia MaisDetails
Embraer (Embj3) Fecha Acordo Com Latam Para Suporte A 24 Jatos E195-E2 - Gazeta Mercantil - Empresas
Empresas

Embraer (EMBJ3) fecha acordo com Latam para suporte a 24 jatos E195-E2

A Embraer (EMBJ3) e a Latam assinaram um acordo do Programa Pool para dar suporte à introdução de 24 aeronaves Embraer E195-E2 encomendadas pela companhia

Leia MaisDetails
Movida (Movi3) - Gazeta Mercantil
Empresas

Movida (MOVI3) lucra R$ 152,1 milhões no 3T26, alta de 117%, e supera projeção

A Movida (MOVI3) informou nesta terça-feira (13) sua prévia de resultados do terceiro trimestre de 2026 (3T26). Veja.

Leia MaisDetails

GAZETA MERCANTIL ENCERRADO

19:58:46
IBOV

IBOVESPA

B3
Consultando... buscando última cotação
$

DÓLAR

USD/BRL
Consultando... buscando última cotação
€

EURO

EUR/BRL
Consultando... buscando última cotação
â‚¿

BITCOIN

BRL
Consultando... buscando última cotação
Gazeta Mercantil · dados de mercado
Sênior Sistemas Sênior Sistemas Sênior Sistemas
PUBLICIDADE

Veja Também

Taxa De Juros - Gazeta Mercantil
Mercados

Juros futuros sobem mais de 20 pontos-base após pesquisas eleitorais

Leia MaisDetails
Nunes Marques - Gazeta Mercantil
Política

Advogados acusam Nunes Marques de favorecer Flávio Bolsonaro em decisões do TSE

Leia MaisDetails
Lula - Gazeta Mercantil
Política

MDB: dez diretórios declaram apoio a Lula, enquanto outra ala se alinha a Flávio Bolsonaro

Leia MaisDetails
Dinheiro Esquecido - Gazeta Mercantil
Economia

Dinheiro esquecido em bancos chega a R$ 5,8 bilhões; veja como sacar

Leia MaisDetails
Brasileiros Conservadores - Gazeta Mercantil
Política

Conservadorismo no Brasil atinge maior nível desde 2018, aponta Ipsos-Ipec

Leia MaisDetails

EDITORIAS

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco
Gazeta Mercantil Logo White

contato@gazetamercantil.com

Gazeta Mercantil — marca jornalística fundada em 1920, com continuidade editorial contemporânea no ambiente digital por meio do domínio oficial gazetamercantil.com.

EDITORIAS

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco

Veja Também:

Juros futuros sobem mais de 20 pontos-base após pesquisas eleitorais

Advogados acusam Nunes Marques de favorecer Flávio Bolsonaro em decisões do TSE

MDB: dez diretórios declaram apoio a Lula, enquanto outra ala se alinha a Flávio Bolsonaro

Dinheiro esquecido em bancos chega a R$ 5,8 bilhões; veja como sacar

Conservadorismo no Brasil atinge maior nível desde 2018, aponta Ipsos-Ipec

Dólar hoje (13/10): moeda fecha a R$ 5,02, sobe 0,74% e contraria queda no exterior após pesquisas eleitorais

  • Anuncie Conosco
  • Política de Correções
  • Política Editorial
  • Política de Privacidade
  • Termos de Uso
  • Sobre a Gazeta Mercantil
  • Expediente
  • Política de Conflitos de Interesse

© 2026 GAZETA MERCANTIL - Marca jornalística fundada em 1920. Site oficial: gazetamercantil.com - Todos os direitos reservados. - ISSN 1519-0129 - contato@gazetamercantil.com - Grupo SMEdit - Av.Paulista 777 - Bela Vista - São Paulo - SP

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco

© 2026 GAZETA MERCANTIL - Marca jornalística fundada em 1920. Site oficial: gazetamercantil.com - Todos os direitos reservados. - ISSN 1519-0129 - contato@gazetamercantil.com - Grupo SMEdit - Av.Paulista 777 - Bela Vista - São Paulo - SP