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Correios suspendem cortes para evitar greve, mas crise bilionária pressiona caixa da estatal

Estatal adia fechamento de unidades e revisão de gratificações até 31 de julho, enquanto acumula prejuízo de R$ 11,6 bilhões desde 2025 e depende de crédito garantido pela União para sustentar a reestruturação.

por Alice Nascimento
10/07/2026 às 19h14
em Empresas
Correios Suspendem Reestruturação Para Evitar Greve E Adiam R$ 2,1 Bi Em Cortes-Gazeta Mercantil

Os Correios decidiram suspender temporariamente parte das medidas mais sensíveis do plano de reestruturação depois da pressão de sindicatos e da ameaça de paralisação nacional. A empresa adiou até 31 de julho o fechamento de unidades, a retirada de gratificações ligadas ao atendimento em agências e a aplicação de mudanças operacionais que vinham sendo contestadas por trabalhadores. A decisão evitou uma greve imediata, mas empurrou para o fim do mês o principal dilema da estatal: como cortar despesas em uma empresa que fechou 2025 com prejuízo recorde e voltou a registrar rombo bilionário no primeiro trimestre de 2026.

A trégua foi costurada em meio à deterioração acelerada das contas. As demonstrações financeiras oficiais mostram que os Correios tiveram prejuízo líquido de R$ 8,46 bilhões em 2025 e novo resultado negativo de R$ 3,16 bilhões apenas nos três primeiros meses de 2026. Somados, os dois períodos acumulam perda de aproximadamente R$ 11,62 bilhões em 15 meses. O patrimônio líquido, que já estava negativo em R$ 13,16 bilhões no fim de dezembro, caiu para R$ 16,28 bilhões negativos em março.

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O recuo da direção foi comunicado após reuniões com representantes dos trabalhadores. A Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Correios, Telégrafos e Similares (Fentect) informou, em suas redes oficiais, que a empresa aceitou suspender até 31 de julho medidas como fechamento de agências, mudanças em sistemas de distribuição, fim de quebra de caixa e alterações no Adicional de Atendimento em Guichê (AAG). A categoria, porém, manteve o estado de greve, o que preserva a possibilidade de paralisação caso a negociação não avance.

Ajuste fica no meio do caminho

O ponto central da crise é que a suspensão atinge justamente as medidas que deveriam produzir economia estrutural. O plano de reestruturação dos Correios foi apresentado como resposta a uma combinação de queda de receita, aumento de custos, passivos trabalhistas e necessidade de modernização operacional. A própria empresa afirma que o programa 2025–2027 busca recompor caixa, reorganizar a operação, reduzir despesas e preparar novas fontes de receita.

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No papel, a estratégia tem três frentes: estabilizar a operação, reorganizar a estrutura e abrir espaço para novas receitas. Na prática, o componente mais difícil é o corte de custo. A empresa tem capilaridade nacional, obrigação de universalização postal e presença em municípios onde a operação dificilmente se sustenta apenas por retorno econômico. Essa característica torna politicamente sensível qualquer fechamento de agência, centro de distribuição ou unidade de atendimento.

A suspensão também afeta o desenho do novo Programa de Demissão Voluntária (PDV), que deveria ser direcionado a empregados lotados nas unidades previstas para fechamento. A primeira rodada de desligamentos ficou abaixo da meta informada pela própria empresa em sua página oficial: os Correios afirmam que quase 7 mil empregados aderiram voluntariamente ao PDV nos últimos dois anos, com economia estimada de R$ 923 milhões para o biênio 2026–2027.

Resultado financeiro virou novo foco de pressão

O primeiro trimestre de 2026 mostrou que a crise deixou de ser apenas operacional. A receita líquida caiu de R$ 3,95 bilhões no primeiro trimestre de 2025 para R$ 3,86 bilhões em igual período de 2026, mas o principal agravante veio das despesas gerais, administrativas e financeiras. As despesas financeiras saltaram para R$ 985 milhões no trimestre, contra R$ 283 milhões um ano antes, enquanto o resultado financeiro negativo chegou a R$ 636,9 milhões.

Esse avanço reflete o peso do endividamento contraído para atravessar a crise. Em dezembro, os Correios anunciaram a captação de R$ 12 bilhões com um sindicato de bancos, em operação destinada a recompor capital de giro, regularizar compromissos financeiros e financiar investimentos estratégicos. Segundo o Ministério da Fazenda, a garantia da União foi assinada em 29 de dezembro de 2025; dos R$ 12 bilhões contratados, R$ 10 bilhões foram desembolsados ainda em 2025 e incorporados ao saldo de operações de crédito garantidas pela União.

A presença da garantia federal é decisiva. Ela reduz o custo da operação para a empresa, mas transfere risco potencial ao Tesouro Nacional caso os Correios não consigam honrar o pagamento. Por isso, a suspensão de medidas de ajuste reacende dúvidas sobre a capacidade da estatal de gerar caixa suficiente para sustentar o plano sem depender de novas operações de crédito.

Receita encolheu e internacional desabou

A fotografia de 2025 ajuda a explicar a gravidade do quadro. A receita bruta de vendas e serviços caiu de R$ 19,56 bilhões em 2024 para R$ 17,34 bilhões em 2025, recuo de 11,35%. A receita líquida ficou em R$ 16,65 bilhões, abaixo dos R$ 18,91 bilhões do ano anterior. O segmento internacional foi o mais atingido: a receita caiu de R$ 3,90 bilhões para R$ 1,34 bilhão, uma contração de 65,5%.

A própria empresa reconhece que o resultado de 2025 foi pressionado por queda da receita internacional, provisões judiciais, aumento de custos de pessoal e despesas financeiras. Segundo os Correios, esses fatores somaram R$ 6,2 bilhões e estão na origem do plano de reestruturação.

O problema é que a recomposição de receita não acompanha a velocidade da despesa. Até maio de 2026, os Correios afirmaram ter superado a meta de receita acumulada em 3,28% e registrado melhora operacional, com avanço do índice de entregas no prazo de 65% em janeiro para 90% em maio. Também informaram economia de R$ 321 milhões com renegociações contratuais e cumprimento de 78% da meta financeira de redução de despesas para 2026.

Esses indicadores mostram alguma recuperação operacional, mas ainda não resolvem o desequilíbrio estrutural. A empresa continua com patrimônio líquido negativo, despesas financeiras elevadas e dependência de medidas de reestruturação que agora ficaram parcialmente suspensas.

Contrato com Banco do Brasil dá fôlego, mas não resolve rombo

O alívio mais recente veio do Banco do Brasil. O banco formalizou contrato de até R$ 2,307 bilhões com os Correios para prestação de serviços postais convencionais, especiais e telemáticos, em âmbito nacional e internacional, a todas as unidades do BB. O contrato foi formalizado em 26 de junho, entrou em vigor em 2 de julho e tem prazo de 60 meses.

No documento de transações com partes relacionadas, o Banco do Brasil afirma que não realizou tomada de preços com terceiros por considerar haver inviabilidade de competição. Segundo o banco, aproximadamente 97,84% das despesas com postagens estão sujeitas ao monopólio postal dos Correios. Para os demais serviços, o BB argumenta que não há prestadores com capilaridade, abrangência nacional e capacidade operacional equivalentes em localidades remotas e de difícil acesso.

O contrato ajuda a dar previsibilidade de caixa, mas não muda a escala do problema. Distribuído por cinco anos, o valor equivale a cerca de R$ 461 milhões por ano. É uma receita relevante, especialmente em uma estatal com necessidade urgente de liquidez, mas insuficiente para compensar prejuízos anuais bilionários ou despesas financeiras próximas de R$ 1 bilhão por trimestre.

Nova captação volta ao radar

A busca por uma nova operação de crédito passou a fazer parte do debate sobre a sobrevivência financeira da estatal. Informações de mercado indicam que os Correios negociam uma nova captação de aproximadamente R$ 7 bilhões, depois de já terem contratado R$ 12 bilhões no fim de 2025. A operação ainda não aparece, nos documentos oficiais examinados, com estrutura, custo ou eventual garantia da União definidos.

Esse ponto é sensível para o governo federal. Sem aval soberano, qualquer novo financiamento tende a sair mais caro, porque os bancos precificam o risco direto da empresa. Com aval, o custo pode cair, mas o risco potencial recai sobre a União. Em ambos os cenários, a suspensão de cortes dificulta a narrativa de que a estatal está avançando de forma consistente rumo ao equilíbrio.

O impasse também aumenta a pressão sobre o Ministério da Fazenda e o Tesouro Nacional. A garantia concedida em 2025 foi justificada dentro de um plano de reequilíbrio econômico-financeiro. Se o plano perde força na execução, a concessão de novo respaldo federal tende a exigir contrapartidas mais duras, maior transparência e metas verificáveis de redução de despesas.

Greve segue como risco operacional

A manutenção do estado de greve mantém um risco adicional sobre a operação. Uma paralisação nacional afetaria entregas, contratos corporativos, atendimento em agências e serviços de interesse público executados pelos Correios, como distribuição de materiais oficiais, provas, documentos e encomendas em regiões onde a presença de operadores privados é limitada.

A direção da empresa tenta equilibrar duas pressões opostas. De um lado, precisa manter diálogo com sindicatos para evitar interrupção de serviços e desgaste político. De outro, precisa demonstrar ao mercado, ao Tesouro e aos órgãos de controle que o plano de ajuste não foi abandonado.

A margem de erro é pequena. Se a empresa insistir nos cortes sem acordo, pode enfrentar greve e perda adicional de receita. Se recuar demais, adia economias necessárias e amplia a necessidade de endividamento. Nos dois casos, a crise dos Correios deixa de ser apenas corporativa e passa a ter impacto fiscal, logístico e político.

A suspensão até 31 de julho comprou tempo, mas não resolveu a equação. Os Correios continuam essenciais para a infraestrutura postal do país, mas operam com uma estrutura de custos incompatível com a receita atual. A negociação aberta com os trabalhadores decidirá se a reestruturação será retomada com algum pacto interno ou se a estatal entrará no segundo semestre ainda mais dependente de crédito para manter a operação em funcionamento.

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