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AngloGold Ashanti chega a 192 anos no Brasil mais concentrada em Minas e com produção em alta

Após vender Serra Grande e manter Córrego do Sítio paralisada, mineradora amplia extração em Cuiabá, enquanto o grupo aposta em Sukari e preserva meta de até 3,225 milhões de onças em 2026

por Sandro Dias
25/08/2026 às 13h25 - Atualizado em 26/08/2026 às 13h40
em Empresas
Anglogold Ashanti: De Mina Imperial De 1834 Em Nova Lima A 4ª Maior Produtora De Ouro Do Mundo-Gazeta Mercantil

Divulgação

A AngloGold Ashanti plc (NYSE: AU; JSE: ANG) chega a 192 anos de atividade no Brasil em uma configuração muito diferente daquela que sustentou sua expansão no país durante décadas. Depois de vender a mina Serra Grande, em Goiás, no fim de 2025, e de manter Córrego do Sítio, em Minas Gerais, sob cuidados e manutenção desde 2023, a companhia concentrou a produção brasileira no complexo Cuiabá, formado pelas minas subterrâneas Cuiabá e Lamego e pelas plantas de Cuiabá e Queiroz.

O portfólio encolheu, mas o ativo remanescente avançou. Dados operacionais apresentados pela mineradora à Securities and Exchange Commission (SEC) mostram que a AGA Mineração produziu 137 mil onças de ouro no primeiro semestre de 2026, ante 125 mil onças no mesmo período de 2025, crescimento próximo de 10%. No conjunto do grupo, a produção caiu 4%, de 1,524 milhão para 1,468 milhão de onças, movimento influenciado também pela saída de Serra Grande do perímetro de consolidação.

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A comparação corrige uma informação que se tornou recorrente em perfis da empresa. As unidades brasileiras já responderam por aproximadamente 15% da produção global, mas esse percentual não descreve mais a operação atual. Em 2025, o Brasil entregou 326 mil onças, ou 10,6% das 3,09 milhões produzidas pelo grupo. Nos seis primeiros meses de 2026, a AGA Mineração representou cerca de 9,3% do volume global. A conta muda à medida que o grupo vende ativos maduros e adiciona minas de maior escala em outras regiões.

A origem brasileira é de 1834, não de 1841

A idade também exige atualização. A marca de 185 anos foi celebrada em 2019 e não deve ser repetida em uma reportagem publicada em 2026. A linha do tempo mantida pela própria companhia registra que a inglesa Saint John del Rey Mining Company adquiriu a Mina Morro Velho em 1834 e transferiu suas atividades para Congonhas das Minas de Ouro, atual Nova Lima. A operação brasileira completa, portanto, 192 anos em 2026.

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Foi a partir desse núcleo que se formou uma das histórias industriais mais longas do país. Em 1881, Dom Pedro II e a imperatriz Teresa Cristina visitaram a localidade e desceram 457 metros para conhecer a mina subterrânea. Em 1892, foi aberta a Mina Grande, que chegou a ser considerada a mais profunda do mundo. Em 1904, começou a construção do sistema hidrelétrico Rio de Peixe, destinado ao abastecimento das operações. Em 1920, Morro Velho recebeu a primeira usina de refrigeração de mina subterrânea registrada pela empresa.

Esses marcos pertencem à linhagem brasileira do negócio, não à atual AngloGold Ashanti como pessoa jurídica. A AngloGold foi criada em 1998 pela consolidação dos ativos de ouro ligados à Anglo American. A combinação com a ganesa Ashanti Goldfields foi concluída em 2004 e deu origem ao nome usado hoje. Tratar os 192 anos no Brasil e os 22 anos da companhia resultante da fusão como se fossem a mesma idade societária apaga uma distinção importante.

De Joanesburgo a Londres, Nova York e Denver

A geografia corporativa também mudou. Em 2023, a AngloGold Ashanti concluiu uma reorganização que estabeleceu a AngloGold Ashanti plc, incorporada na Inglaterra e no País de Gales, e transferiu a listagem primária para a Bolsa de Nova York. A companhia mantém listagens secundárias em Joanesburgo e Gana, endereço registrado em Londres e sede global em Greenwood Village, na região de Denver, Colorado.

Isso significa que classificá-la simplesmente como uma mineradora sul-africana com sede em Joanesburgo ficou impreciso. A origem da AngloGold e parte relevante da estrutura administrativa permanecem ligadas à África do Sul, mas o centro societário e o acesso principal ao mercado de capitais foram reposicionados. O grupo é presidido no conselho por Jochen Tilk e comandado pelo executivo Alberto Calderon.

Ao fim de 2025, a mineradora informava dez operações em dez países, produção de 3,09 milhões de onças de ouro, 3,70 milhões de onças de prata e força de trabalho média de 38.243 pessoas, incluindo contratados. A produção de ouro cresceu 16% sobre as 2,66 milhões de onças de 2024. O fluxo de caixa livre atingiu US$ 2,9 bilhões, recorde anual da empresa, beneficiado pela elevação do preço do metal e pelo aumento do volume produzido.

Sukari explica a nova escala do grupo

Uma parcela decisiva desse crescimento veio do Egito. Em novembro de 2024, a AngloGold concluiu a aquisição da Centamin por aproximadamente US$ 2,2 bilhões. O principal ativo adquirido foi Sukari, mina a céu aberto e subterrânea que contribuiu durante todo o exercício de 2025, diferentemente de 2024, quando entrou nas contas somente a partir de 22 de novembro.

Há outra sutileza societária. A AngloGold comprou a Centamin, e não apenas “50% de Sukari”. Sob o acordo de concessão, porém, a autoridade egípcia de recursos minerais tem direito a 50% dos lucros e a um royalty de 3%. Nos demonstrativos do grupo, a participação na Sukari Gold Mines Company aparece em 50%. A distinção ajuda a explicar por que a aquisição é descrita como integral no nível da Centamin e, ao mesmo tempo, há participação não controladora relevante no ativo egípcio.

Para 2026, a companhia manteve a orientação de produzir entre 2,9 milhões e 3,225 milhões de onças. No primeiro semestre, o volume global de 1,468 milhão de onças ficou abaixo do registrado um ano antes, mas o fluxo de caixa livre dobrou para US$ 1,895 bilhão. A administração espera produção mais forte na segunda metade do ano e redução dos custos unitários com o ganho de escala.

A venda que redesenhou o mapa brasileiro

A mudança mais visível no Brasil foi concluída em 1º de dezembro de 2025. A AngloGold vendeu à Aura Minerals todas as ações da Mineração Serra Grande, dona do complexo de Crixás. O negócio foi anunciado por US$ 76 milhões, sujeito a ajustes de capital de giro no fechamento, além de pagamentos futuros equivalentes a 3% do retorno líquido de fundição sobre o recurso mineral então identificado, incluindo as reservas.

Serra Grande não era uma parceria de 50% no momento da venda. A AngloGold havia adquirido, em 2012, a participação que ainda não possuía e passou a controlar 100% da empresa. Em 2024, o complexo produziu 80 mil onças. Ao anunciar a alienação, a própria mineradora o classificou como sua menor operação em volume e uma das de custo mais elevado. A transação retirou Goiás do mapa produtivo atual da AngloGold no país.

Em Minas Gerais, Córrego do Sítio tampouco deve ser apresentado como uma mina em produção. A unidade de Santa Bárbara foi colocada sob cuidados e manutenção em agosto de 2023 após perdas operacionais persistentes. A companhia permanece responsável pelo ativo e por suas obrigações ambientais, mas o ouro brasileiro atualmente reportado pelo grupo vem do complexo Cuiabá.

Com isso, a estrutura ativa reúne a Mina Cuiabá, em Sabará, a Mina Lamego, entre Sabará e Caeté, e as plantas de Cuiabá e Queiroz. O braço brasileiro informa mais de 6.300 empregos diretos e indiretos. Em 2025, o complexo produziu 273 mil onças. No primeiro semestre de 2026, a elevação do volume refletiu maior lavra subterrânea, embora custos tenham subido com mão de obra, combustíveis, água, energia e serviços contratados.

Ouro, ácido, energia e passivos de longa duração

A operação não se limita à venda de ouro. A planta de Queiroz tem capacidade instalada para produzir 240 mil toneladas anuais de ácido sulfúrico a partir de gases gerados no tratamento do minério. A companhia também mantém ativos hidrelétricos iniciados no começo do século 20 e participa de projetos de energia renovável. Em seu relatório latino-americano de 2024, informou que fontes renováveis já respondiam por 60% da energia consumida e que 10,5 mil hectares no Brasil eram destinados à preservação.

Na gestão de rejeitos, a empresa afirma não enviar polpa para barragens desde o fim de 2022, após instalar filtragem e empilhamento a seco nas unidades brasileiras. Isso não elimina as obrigações sobre estruturas antigas. Monitoramento, descaracterização de barragens, reabilitação de áreas e fechamento de minas permanecem compromissos de longo prazo, inclusive em Córrego do Sítio e nas áreas históricas de Nova Lima.

A longa permanência cria uma vantagem difícil de copiar — conhecimento geológico, infraestrutura e mão de obra especializada —, mas também acumula responsabilidades que atravessam gerações. Por isso, a narrativa de longevidade só se sustenta quando acompanhada de dados atuais sobre produção, segurança, água, rejeitos, emissões e recuperação ambiental.

O próximo teste será transformar história em vida útil

A AngloGold de 2026 é mais concentrada no Brasil e mais diversificada no mundo. Sua produção local já não equivale a 15% do grupo, Serra Grande pertence à Aura Minerals e Córrego do Sítio não produz. Ao mesmo tempo, Cuiabá cresce, Queiroz voltou a beneficiar ouro e a companhia global ampliou escala com Sukari enquanto reforça projetos em Nevada.

A próxima decisão material será demonstrar quanto tempo de vida adicional pode ser obtido em Cuiabá e Lamego sem deteriorar custos e indicadores ambientais. Os resultados do terceiro trimestre, previstos para novembro, deverão mostrar se a alta de aproximadamente 10% observada no primeiro semestre se mantém e se o Brasil continuará ganhando eficiência dentro de um portfólio global cada vez mais seletivo.

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