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IPCA-15 cai 0,40% em agosto e inflação em 12 meses recua para 4,24%

Queda de habitação, transportes e alimentação leva a prévia da inflação ao campo negativo; resultado acumulado em 12 meses fica em 4,24%.

por Camila Braga
26/08/2026 às 10h46
em Economia
Ipca-15 Cai 0,40% Em Agosto E Inflação Em 12 Meses Recua Para 4,24% - Gazeta Mercantil - Economia

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) caiu 0,40% em agosto, após avançar 0,06% em julho, informou nesta quarta-feira (26) o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com o resultado, a prévia da inflação acumula alta de 3,09% em 2026 e de 4,24% em 12 meses, abaixo dos 4,52% registrados até julho. A queda mensal foi puxada principalmente por habitação, transportes e alimentação e bebidas, três grupos de peso relevante no orçamento das famílias.

O resultado de agosto representa uma desaceleração expressiva em relação aos primeiros meses do ano. O IPCA-15 havia subido 0,20% em janeiro, 0,84% em fevereiro, 0,44% em março, 0,89% em abril, 0,62% em maio e 0,41% em junho, antes de perder força para 0,06% em julho e entrar no campo negativo em agosto. A trajetória reduziu a inflação acumulada em 12 meses para um nível inferior ao limite superior de 4,5% do intervalo de tolerância da meta contínua de inflação.

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Essa comparação, porém, exige uma distinção. A meta definida pelo Conselho Monetário Nacional é de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, e sua aferição formal é feita pela variação do IPCA, e não pelo IPCA-15. A prévia utiliza metodologia equivalente, mas considera outro período de coleta. Portanto, a leitura de 4,24% é um sinal favorável sobre a dinâmica recente dos preços, sem representar, por si só, o cumprimento da meta pelo indicador oficial.

Habitação e transportes concentram pressão negativa

Entre os nove grupos pesquisados pelo IBGE, Habitação apresentou a maior queda em agosto, de 1,41%. Transportes recuaram 1,00%, enquanto Alimentação e bebidas caiu 0,57%. Somados, esses movimentos foram determinantes para levar o índice geral ao território negativo.

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Vestuário também registrou queda, de 0,33%, e Comunicação recuou 0,02%. Na outra direção, Artigos de residência avançaram 0,04%, Saúde e cuidados pessoais subiram 0,40%, Educação teve alta de 0,46% e Despesas pessoais registraram o maior aumento entre os grupos, de 0,66%.

A queda de Habitação teve peso particularmente importante porque o grupo concentra despesas recorrentes das famílias. A energia elétrica residencial esteve entre os componentes responsáveis pela redução dos custos no período, enquanto agosto continuou sob bandeira tarifária amarela. Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), essa bandeira acrescenta R$ 1,885 às contas a cada 100 quilowatts-hora consumidos.

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A combinação mostra que o comportamento mensal da energia pode refletir simultaneamente componentes tarifários distintos. O sistema de bandeiras sinaliza as condições correntes de geração, enquanto outros créditos, reajustes ou componentes tarifários podem alterar o valor efetivamente capturado pelo índice de preços.

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Em Transportes, a deflação também contribuiu de forma importante para o resultado agregado. O grupo possui peso elevado no IPCA-15 e reúne componentes sujeitos a variações significativas, como combustíveis, passagens aéreas, veículos e serviços de transporte. A retração de 1,00% ajudou a ampliar a contribuição negativa observada em agosto.

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Alimentação recua e amplia alívio no orçamento doméstico

O grupo Alimentação e bebidas caiu 0,57% em agosto. A retração é particularmente relevante para a percepção de inflação pelas famílias porque os alimentos possuem peso elevado no consumo corrente e afetam diretamente o orçamento doméstico.

A leitura negativa do grupo se soma à desaceleração observada em outros componentes do índice. Quando quedas em alimentos ocorrem simultaneamente a recuos em habitação e transportes, o efeito sobre o índice geral torna-se mais disseminado do que em episódios de deflação concentrados exclusivamente em um preço administrado ou altamente volátil.

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O movimento também contrasta com o comportamento observado no primeiro semestre. Em junho, por exemplo, o IPCA-15 havia avançado 0,41%, com Alimentação e bebidas subindo 0,74% e Habitação aumentando 0,72%. Naquele mês, os dois grupos responderam por parcela expressiva da alta do índice. A reversão registrada posteriormente ajuda a explicar a mudança da inflação acumulada em 12 meses.

Ainda assim, um único mês de queda não estabelece uma tendência definitiva. O comportamento dos alimentos depende de safras, condições climáticas, custos logísticos, câmbio e preços internacionais de commodities. Energia e combustíveis também podem voltar a pressionar o índice conforme mudem tarifas, bandeiras, preços do petróleo e taxa de câmbio.

O Banco Central tem destacado que choques de oferta continuam relevantes para a inflação brasileira. Na ata da reunião de agosto, o Comitê de Política Monetária afirmou que não deve reagir aos efeitos primários desses choques, mas precisa acompanhar eventuais efeitos de segunda ordem, sobretudo quando eles alcançam expectativas, serviços ou reajustes de outros preços.

IPCA-15 volta para dentro da banda de tolerância

A taxa de 4,24% acumulada em 12 meses coloca o IPCA-15 abaixo do teto de 4,5% correspondente ao intervalo de tolerância da meta. Em julho, a prévia acumulava 4,52%, ligeiramente acima desse limite. A mudança reforça o processo de desaceleração da inflação corrente, embora a regra do regime de metas utilize o IPCA oficial.

Desde janeiro de 2025, o Brasil adota uma meta contínua. O centro permanece em 3%, com intervalo de tolerância entre 1,5% e 4,5%. Pela sistemática vigente, considera-se descumprida a meta quando a inflação medida pelo IPCA permanece fora do intervalo de tolerância por seis meses consecutivos.

O IPCA cheio mais recente disponível antes da divulgação desta quarta-feira foi o de julho. Segundo o IBGE, o índice oficial subiu 0,07% naquele mês e acumulou 4,44% em 12 meses. Isso significa que o indicador utilizado formalmente no regime de metas já estava dentro do intervalo de tolerância na leitura de julho, embora ainda distante do centro de 3%.

A diferença entre os dois indicadores está principalmente no período utilizado para coletar os preços. Para o IPCA-15 de agosto de 2026, o calendário do IBGE estabeleceu coleta entre 16 de julho e 14 de agosto. O IPCA do mês cheio utiliza outra janela temporal.

O IPCA-15 acompanha famílias com rendimento monetário de um a 40 salários mínimos e abrange regiões metropolitanas e outros centros urbanos definidos pelo IBGE. Por utilizar estrutura metodológica semelhante à do IPCA e ser divulgado antes do índice mensal cheio, tornou-se uma referência importante para acompanhar antecipadamente a direção dos preços ao consumidor.

Essa característica, porém, também significa que os dois índices podem apresentar diferenças relevantes dentro de um mesmo mês. Alterações tarifárias, movimentos de combustíveis, promoções ou choques de alimentos ocorridos fora de uma das janelas de coleta podem aparecer primeiro em um indicador e apenas posteriormente no outro.

Copom ainda projeta inflação acima da meta em 2026

A desaceleração da prévia ocorre em um momento de mudança gradual na política monetária. Na reunião de 4 e 5 de agosto, o Copom reduziu a Selic para 14,00% ao ano. A decisão foi acompanhada de uma avaliação cautelosa: o comitê afirmou que a política monetária continua restritiva e que os riscos para a inflação permanecem mais elevados do que o usual, com assimetria altista.

Na ata, o Banco Central registrou que as expectativas coletadas pela pesquisa Focus para a inflação de 2026 estavam em 5,0%, enquanto a projeção do próprio Copom no cenário de referência era de 5,1%. Para 2027, a projeção do comitê estava em 3,8%, e para o primeiro trimestre de 2028, atual horizonte relevante de política monetária, em 3,2%.

Esses números mostram por que uma leitura mensal negativa, embora favorável, não determina isoladamente as próximas decisões sobre juros. A política monetária é formulada com base na inflação prospectiva, nas expectativas, na atividade econômica, no mercado de trabalho, no câmbio e no balanço de riscos, e não apenas no comportamento de um indicador em um único mês.

O Copom também apontou em agosto que a atividade econômica vinha apresentando moderação gradual, embora permanecesse resiliente, e que o mercado de trabalho continuava aquecido. O diagnóstico é relevante porque uma demanda ainda resistente pode dificultar a desaceleração de componentes mais relacionados ao ciclo econômico, especialmente serviços.

Entre os riscos de alta para a inflação, o Banco Central citou uma desancoragem mais prolongada das expectativas, maior resiliência da inflação de serviços, taxa de câmbio persistentemente depreciada e políticas capazes de estimular a demanda agregada acima da capacidade de oferta da economia.

No sentido contrário, o comitê listou como riscos de baixa uma desaceleração doméstica mais intensa do que a projetada, uma perda de força mais pronunciada da economia mundial e uma eventual redução dos preços das commodities com efeitos desinflacionários.

Próximas leituras mostrarão alcance da desaceleração

A composição do IPCA-15 de agosto melhora o quadro corrente porque a queda não ficou restrita a um único grupo. Cinco dos nove conjuntos de produtos e serviços apresentaram variação negativa, enquanto despesas pessoais, educação e saúde continuaram avançando.

A próxima referência importante será o IPCA cheio de agosto, que permitirá verificar quanto da queda capturada pela prévia será transmitida ao indicador utilizado formalmente no regime de metas. Também será necessário acompanhar o comportamento dos serviços e das medidas de inflação subjacente, que ajudam o Banco Central a distinguir movimentos temporários de alterações mais persistentes na dinâmica dos preços.

Para a política monetária, o dado desta quarta-feira acrescenta evidência ao processo de desinflação já reconhecido pelo Banco Central, mas não elimina a distância entre o centro da meta de 3% e as projeções para o fechamento de 2026. A próxima reunião do Copom ocorrerá em setembro, quando o comitê terá novas leituras de inflação, atividade, câmbio e expectativas para definir a intensidade adequada da restrição monetária.

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