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Juros futuros voltam a cair com estrangeiros comprando o “pacote Brasil”

por Camila Braga
23/01/2026 às 18h31
em Economia
Juros-Futuros-Caem-Fluxo-Estrangeiro-Pacote-Brasil - Gazeta Mercantil

Juros futuros recuam forte com fluxo estrangeiro e mercado aposta no “Pacote Brasil”

O mercado financeiro brasileiro encerrou a semana com um tom predominantemente otimista, impulsionado por uma combinação virtuosa de fatores externos e uma rotação global de portfólio que beneficiou os ativos locais. As taxas dos juros futuros fecharam esta sexta-feira em baixa consistente, com destaque especial para o alívio nos contratos de longo prazo. Esse movimento na curva a termo ocorreu em perfeita sintonia com o avanço firme do Ibovespa, evidenciando a atuação decisiva de investidores estrangeiros na compra do chamado “kit Brasil” ou “pacote Brasil.

O fechamento da curva de juros futuros reflete uma percepção de risco atenuada, apesar dos ruídos institucionais domésticos envolvendo operações policiais e instituições bancárias. Para o investidor que monitora a renda fixa e a macroeconomia, o comportamento dos DIs (Depósitos Interfinanceiros) nesta sessão sinaliza uma janela de oportunidade tática, sustentada pela entrada de dólares e pela acomodação dos Treasuries norte-americanos.

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Nesta análise aprofundada, a Gazeta Mercantil disseca os vetores que pressionaram os juros futuros para baixo, o impacto do cenário geopolítico envolvendo os Estados Unidos e a Groenlândia, e como o mercado de opções de Copom está precificando os próximos passos da política monetária do Banco Central.

O Comportamento da Curva: Alívio nos Vértices Longos

O pregão desta sexta-feira foi marcado por um desinclinação da curva de juros. No fim da tarde, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2028 — uma referência importante para o médio prazo — encerrou cotada a 13,015%, registrando uma baixa de 1 ponto-base ante o ajuste de 13,027% da sessão anterior.

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No entanto, o movimento mais expressivo foi observado na ponta longa, onde o prêmio de risco costuma ser maior. A taxa dos juros futuros para janeiro de 2035 recuou para 13,595%, uma queda significativa de 6 pontos-base em relação ao ajuste de 13,651% do dia anterior. Durante a mínima do dia, registrada às 12h27, esse contrato chegou a marcar 13,555%, uma baixa de 10 pontos-base.

Esse comportamento dos juros futuros longos é o termômetro mais fiel da percepção de risco-país de longo prazo. Quando essas taxas cedem, significa que o mercado exige um prêmio menor para financiar a dívida pública em horizontes dilatados. O saldo da semana para o DI Janeiro/35 foi de uma baixa acumulada de 13 pontos-base, revertendo a forte pressão vendedora observada na terça-feira.

O “Pacote Brasil” e o Fluxo Estrangeiro

O principal driver para a queda dos juros futuros foi, indubitavelmente, o fluxo de capital externo. Operadores de mercado consultados pela reportagem apontam que, na ausência de notícias fiscais negativas bombásticas sobre o Brasil, os gestores globais estão aproveitando os preços descontados dos ativos locais.

Essa estratégia, apelidada nas mesas de operação de “pacote Brasil”, consiste em uma operação casada: compra de ações no Ibovespa (que acelerou ganhos na metade da sessão) e venda de taxas longas nos juros futuros. A lógica é que, com o Brasil oferecendo juros reais entre os mais altos do mundo e um mercado de ações com valuation atrativo em dólares, o país se torna um destino preferencial na rotação global de carteiras.

A queda dos juros futuros é a contrapartida necessária para esse fluxo. À medida que o estrangeiro entra vendendo taxa (apostando na queda), ele pressiona os preços dos DIs para baixo, criando um ciclo virtuoso que também beneficia o câmbio, com o Dólar cedendo ante o Real ao longo da semana.

Cenário Externo: O Fator Geopolítico e os Treasuries

A dinâmica dos juros futuros domésticos não pode ser dissociada do ambiente internacional. A semana foi marcada por tensões geopolíticas inusitadas, especificamente envolvendo os Estados Unidos e a Groenlândia. O alívio nessas tensões funcionou como um catalisador para a tomada de risco em mercados emergentes.

Na quinta-feira, o anúncio do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre um acordo que garante acesso total do país à ilha, removeu um fator de incerteza que, embora exótico, trazia volatilidade. Com o cenário externo mais calmo, os rendimentos dos Treasuries (títulos do Tesouro americano) demonstraram acomodação nesta sexta-feira.

Às 16h34, o rendimento da T-Note de dez anos — a referência global para o custo de capital e para a precificação dos juros futuros em todo o mundo — operava estável, a 4,251%. A estabilidade dos juros americanos retira pressão da curva brasileira, permitindo que os fatores técnicos locais, como o fluxo de entrada, prevaleçam na formação de preço.

Ruídos Domésticos: Operação Policial e Banco Master

Apesar do otimismo com o fluxo externo, o cenário doméstico apresentou pontos de atenção que, em outro contexto, poderiam ter estressado a curva de juros futuros. Pela manhã, a Polícia Federal (PF) cumpriu mandados de busca e apreensão contra três autoridades do Rioprevidência, o fundo de pensão dos servidores do Estado do Rio de Janeiro.

A operação visa apurar irregularidades ligadas a investimentos no Banco Master. O noticiário envolvendo supostas fraudes bancárias e a gestão de recursos de Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) costuma gerar aversão ao risco, pois levanta dúvidas sobre a saúde do sistema financeiro de médio porte e a governança de fundos públicos.

Em resposta rápida para conter especulações e evitar contaminação na curva de juros futuros via risco de crédito, o Banco Central publicou uma nota oficial. A autoridade monetária afirmou que seu diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino, “obviamente jamais recomendou a aquisição de carteiras fraudadas” do Banco Master pelo BRB (Banco de Brasília).

O fato de os juros futuros terem fechado em queda mesmo com esse noticiário policial demonstra a força do fluxo comprador estrangeiro. O mercado optou por focar no macro (juros globais e fluxo) e ignorar, por ora, o micro (risco institucional pontual), embora o tema permaneça no radar de compliance das tesourarias.

Política Monetária: O Que Esperar do Copom?

A precificação dos juros futuros também reflete as apostas para os próximos passos do Comitê de Política Monetária (Copom). Com a taxa Selic atualmente em patamar restritivo, o debate se volta para o momento do início do ciclo de cortes.

Os agentes financeiros seguem precificando majoritariamente que o Banco Central manterá a taxa básica Selic em 15% em sua reunião da próxima semana. A curva de juros futuros curta (vencimentos mais próximos) já absorveu esse cenário de manutenção. A grande dúvida — e onde reside a volatilidade — está no que será feito na reunião de março.

Dados do mercado de opções de Copom da B3, referentes à última quarta-feira, mostravam um cenário dividido, mas com viés de baixa:

  • 36,50% de probabilidade de corte de 25 pontos-base em março.

  • 32,25% de chance de um corte mais agressivo de 50 pontos-base.

  • 25,10% de probabilidade de manutenção da taxa.

Essa dispersão nas apostas mantém a volatilidade nos vértices curtos e intermediários dos juros futuros. A nota do C6 Bank, assinada pelo economista-chefe Felipe Salles, corrobora a visão de um afrouxamento iminente: “Nossa expectativa é de que o ciclo de cortes da Selic comece em março, com um corte de 0,25 ponto percentual, e ganhe tração em abril, com redução de 0,50 ponto percentual.

Se essa projeção se confirmar, a tendência é que os juros futuros continuem em trajetória de queda, antecipando o movimento da autoridade monetária.

Análise Técnica: Correlação Ibovespa x DIs

A sessão desta sexta-feira foi um exemplo clássico de correlação negativa entre Bolsa e juros futuros. Quando as taxas de juros projetadas para o futuro caem, o valor presente dos fluxos de caixa das empresas listadas na Bolsa aumenta, tornando as ações mais atrativas.

Além disso, a queda nos juros futuros reduz a atratividade da Renda Fixa como competidora do capital de risco, incentivando a migração de recursos para a Renda Variável. O Ibovespa acelerou seus ganhos justamente no momento em que as taxas longas (Jan 35) renovavam mínimas, confirmando que o “kit Brasil” está sendo montado com base na premissa de normalização da curva de juros.

Perspectivas para a Próxima Semana

Para a semana que se inicia, o mercado de juros futuros estará atento à ata da reunião do Copom e aos dados de inflação que possam confirmar ou refutar a tese de cortes a partir de março. A continuidade do fluxo estrangeiro dependerá da estabilidade dos dados econômicos nos EUA e da ausência de novos ruídos fiscais ou políticos em Brasília.

O investidor deve monitorar se o alívio na ponta longa da curva de juros futuros se sustentará. Taxas acima de 13,5% em prazos tão longos (2035) ainda embutem um prêmio de risco fiscal considerável, sugerindo que o mercado, embora otimista no curto prazo, mantém cautela estrutural com as contas públicas brasileiras.

Janela de Oportunidade na Renda Fixa

O recuo dos juros futuros nesta sexta-feira encerra uma semana volátil com um sinal positivo. A capacidade do mercado brasileiro de atrair capital estrangeiro mesmo diante de manchetes policiais envolvendo bancos e fundos de pensão demonstra a resiliência dos ativos locais e o quão descontados eles parecem aos olhos do investidor global.

Para quem busca alocação, a volatilidade nos juros futuros oferece oportunidades de travamento de taxas atrativas na Renda Fixa pré-fixada ou indexada à inflação, antes que o ciclo de cortes do Copom efetivamente comece e comprima os prêmios hoje disponíveis. A “aposta Brasil” está na mesa, e os estrangeiros já começaram a se posicionar.

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