A pouco mais de um mês do primeiro turno das eleições presidenciais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mantém a liderança da disputa, enquanto Flávio Bolsonaro permanece na segunda posição e Augusto Cury passa a ocupar sozinho o terceiro lugar. Pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira, 2 de setembro, mostra Lula com 37% das intenções de voto, Flávio com 29% e Cury com 10% no principal cenário estimulado, sem Pablo Marçal.
Renan Santos aparece com 3%. Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Samara Martins registram 1% cada. Rui Costa Pimenta, Wilson Grassi, Clariana Barão, Edmilson Costa e Hertz Dias não pontuaram. Os indecisos representam 11% dos entrevistados, enquanto 7% afirmam que votarão em branco, anularão o voto ou não pretendem comparecer.
O resultado deixa Lula oito pontos percentuais numericamente à frente de Flávio Bolsonaro. Somados, os dois principais candidatos concentram 66% das intenções de voto, confirmando que a polarização continua sendo a característica dominante da eleição mesmo depois da entrada de Cury em um patamar eleitoral mais elevado.
A mudança mais significativa ocorre, de fato, na terceira posição. Cury aparece com 10%, depois de ter registrado 2% na pesquisa anterior, divulgada em 14 de agosto. A comparação entre as duas rodadas exige cautela porque os cenários não são idênticos: o levantamento anterior incluía Leonardo Avalanche como candidato do PRTB, enquanto a configuração atual da disputa partidária mudou. Ainda assim, o avanço do candidato do Avante é amplo o suficiente para alterar a distribuição das forças abaixo dos dois líderes.
A Quaest entrevistou presencialmente 2.004 eleitores de 16 anos ou mais em todo o país entre 30 de agosto e 1º de setembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado na Justiça Eleitoral sob o número BR-07065/2026.
Lula mantém liderança, mas segundo turno segue apertado
A vantagem de Lula no primeiro turno é mais confortável do que a situação encontrada nas simulações de segundo turno. Quando o confronto é restrito ao presidente e Flávio Bolsonaro, a Quaest registra 42% para Lula e 41% para o senador do PL. Como a diferença é de apenas um ponto percentual e a margem de erro é de dois pontos, os dois aparecem tecnicamente empatados.
Brancos, nulos e entrevistados que dizem que não votariam em nenhum dos dois representam 13% nesse cenário, enquanto 4% permanecem indecisos. Essa parcela, equivalente a 17% dos entrevistados, ajuda a mostrar por que o segundo turno continua aberto apesar da liderança de Lula na primeira etapa.
Na rodada anterior, Lula tinha vantagem numérica de três pontos sobre Flávio em um eventual segundo turno, com 43% a 40%. Agora a diferença caiu para um ponto, resultado que mantém os dois dentro da margem de erro e aumenta o peso das próximas semanas de campanha.
O quadro é diferente nos demais confrontos testados pela Quaest. Lula aparece com 42% diante de 37% de Ronaldo Caiado; tem 40% contra 34% de Augusto Cury; registra 43% diante de 36% de Renan Santos; e alcança 44% contra 33% de Romeu Zema.
A simulação entre Lula e Cury foi incluída pela primeira vez e oferece um dado relevante sobre o potencial do candidato do Avante. Embora Cury esteja muito distante do segundo colocado no primeiro turno, a diferença para Lula cai para seis pontos quando o eleitor é obrigado a escolher apenas entre os dois. Ao mesmo tempo, 21% responderam que votariam em branco, anulariam ou não votariam, e outros 5% permanecem indecisos nesse confronto.
Cury muda desenho da disputa abaixo dos líderes
O crescimento de Augusto Cury reorganiza uma faixa da eleição que até poucas semanas atrás permanecia fragmentada. Na rodada de 14 de agosto, Renan Santos e Ronaldo Caiado tinham 4% cada, enquanto Cury e Zema apareciam com 2%. Agora, no cenário principal, Cury chega a 10%, Renan tem 3% e Caiado e Zema aparecem com 1%.
Como os cenários entre as duas pesquisas são diferentes, não é metodologicamente seguro atribuir todos os movimentos registrados simplesmente à transferência direta de votos entre os candidatos. A fotografia atual, entretanto, deixa claro que Cury passou a ocupar uma posição que nenhum dos demais nomes fora da polarização havia conseguido consolidar.
O desempenho entre os independentes ajuda a explicar esse crescimento. Dados da mesma rodada mostram Cury com 24% nesse segmento, numericamente à frente de Lula, que registra 23%, e de Flávio Bolsonaro, com 11%. Os independentes são definidos pela pesquisa como eleitores que não se identificam como lulistas, bolsonaristas, de esquerda ou de direita.
Cury também registra resultados acima de sua média nacional entre jovens e eleitores com ensino superior. Esse padrão sugere que a candidatura encontrou espaço justamente entre parcelas menos rigidamente vinculadas aos dois campos políticos que dominaram as últimas eleições presidenciais.
O desafio agora será consolidar esse voto. Entre os eleitores que afirmam votar em Cury, 52% dizem que sua escolha é definitiva, enquanto 48% admitem que ainda podem mudar de candidato. O eleitorado do escritor, portanto, apresenta grau de volatilidade muito maior que as bases de Lula e Flávio.
Lula e Flávio têm votos mais consolidados
No conjunto da pesquisa, 71% dos entrevistados afirmam que o candidato escolhido hoje será definitivamente seu voto no primeiro turno. Os outros 29% dizem que ainda podem mudar até 4 de outubro.
Lula possui a base mais consolidada: 80% dos entrevistados que declaram voto no presidente consideram a decisão definitiva. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, esse percentual é de 75%. A diferença em relação a Cury é expressiva e evidencia que o crescimento do terceiro colocado ainda não possui o mesmo nível de cristalização encontrado nos dois principais polos.
Entre os eleitores de Renan Santos, 57% admitem mudar de candidato. No caso de Caiado, a parcela chega a 58%. A volatilidade mais elevada entre candidaturas menores significa que a distribuição atual de votos abaixo de Lula e Flávio ainda pode passar por alterações relevantes até outubro.
O aumento do grau geral de decisão também reduz gradualmente o espaço disponível para mudanças profundas. Se 71% já consideram seu voto definitivo, as campanhas entram numa fase em que conquistar novos eleitores depende cada vez mais de convencer uma parcela menor e mais disputada do eleitorado.
Esse fenômeno não impede reviravoltas, especialmente porque debates, propaganda eleitoral, acontecimentos políticos e fatos envolvendo candidatos podem modificar escolhas consideradas anteriormente consolidadas. Mas torna progressivamente mais caro o esforço necessário para alterar a estrutura da corrida.
Pesquisa espontânea mostra eleitorado ainda menos definido
Quando os entrevistadores não apresentam os nomes dos candidatos, o quadro muda. Na pesquisa espontânea, Lula é citado por 28% e Flávio Bolsonaro por 20%. Cury aparece com 4%, enquanto outros nomes somados também chegam a 4%.
Nesse formato, 42% não conseguem indicar espontaneamente em quem pretendem votar. Outros 2% dizem que votarão em branco, anularão ou não comparecerão.
A diferença entre os 42% de indecisos na espontânea e os 11% registrados no cenário estimulado mostra que uma parcela relevante do eleitorado reconhece uma preferência quando recebe a lista de candidatos, mas ainda não incorporou essa escolha de maneira suficientemente forte para mencioná-la sem estímulo.
Mesmo assim, houve redução importante da indefinição espontânea. Na rodada anterior, 51% estavam indecisos nessa modalidade. Agora são 42%, queda de nove pontos percentuais. Ao mesmo tempo, Lula passou de 25% para 28% e Flávio, de 19% para 20%, enquanto Cury aparece com 4%.
Esse movimento é coerente com a aproximação do primeiro turno. À medida que aumenta a exposição da campanha, cresce a parcela de eleitores que consegue identificar espontaneamente algum candidato, mesmo que ainda não considere sua decisão absolutamente definitiva.
Rejeição permanece elevada para os dois líderes
Outro obstáculo para Lula e Flávio é a rejeição. A Quaest perguntou aos eleitores se conhecem e votariam em cada candidato, se não os conhecem ou se conhecem e não votariam.
Flávio Bolsonaro registra o maior índice de rejeição, com 55% dizendo que o conhecem e não votariam nele. Lula aparece logo atrás, com 53%. A diferença de dois pontos coincide com a margem de erro geral da pesquisa.
Pablo Marçal registra 44%, Caiado tem 40%, Zema aparece com 38%, Renan Santos marca 28% e Cury, 25%. A rejeição mais baixa do candidato do Avante em comparação com os líderes ajuda a explicar por que seu desempenho cresce significativamente em algumas simulações de segundo turno, mas esse potencial ainda precisaria ser convertido em intenção de voto no primeiro turno.
Para Lula e Flávio, a elevada rejeição cria uma dificuldade adicional numa eventual segunda etapa. Os dois precisam ampliar suas bases, mas começam essa disputa com mais da metade dos entrevistados declarando resistência a votar neles.
Essa combinação — intenção de voto elevada e rejeição igualmente alta — é uma das marcas da polarização brasileira. Os candidatos possuem eleitorados fortes e consolidados, porém enfrentam limites expressivos para crescer fora de suas próprias bases.
Economia continua sendo um ponto de atenção para Lula
A mesma rodada também mediu a avaliação do governo e a percepção econômica. O governo Lula é desaprovado por 48% e aprovado por 45%, enquanto 7% não souberam responder. A diferença está dentro da margem de erro.
Quando a pergunta é sobre a qualidade do governo, 37% o classificam negativamente, 35% positivamente e 25% como regular. Outros 3% não souberam ou não responderam.
A percepção sobre a economia é mais desfavorável. Para 49% dos entrevistados, a situação econômica piorou nos últimos 12 meses. Outros 29% consideram que ficou igual, enquanto 19% afirmam que houve melhora.
A sensação sobre os preços dos alimentos é ainda mais disseminada: 67% dizem que ficaram mais caros no último mês, 22% afirmam que permaneceram iguais e apenas 9% perceberam queda.
Esses indicadores não podem ser convertidos automaticamente em intenção de voto. Eleitores avaliam candidatos por múltiplos critérios e podem reprovar aspectos da economia sem necessariamente abandonar uma escolha política. Ainda assim, para um presidente que disputa a reeleição, o sentimento econômico representa uma variável importante da campanha.
Cenário com Marçal altera pouco os líderes
A Quaest também testou uma configuração que inclui Pablo Marçal, do PRTB. Nesse cenário, Lula continua com 37%, Flávio passa de 29% para 30% e Cury permanece com 10%. Renan Santos registra 3%, enquanto Caiado, Marçal e Zema aparecem com 1% cada.
Os indecisos são 10% e brancos, nulos ou aqueles que não pretendem votar somam 7%. A inclusão de Marçal, portanto, praticamente não modifica o posicionamento dos três primeiros colocados.
A situação jurídica de Marçal permanece relevante porque sua participação definitiva na eleição depende da Justiça Eleitoral. Por isso, a existência de cenários com e sem seu nome permite medir como a eventual presença do candidato poderia alterar a distribuição das intenções de voto.
Neste momento, o efeito registrado pela Quaest é pequeno no topo da disputa. Lula permanece com os mesmos 37%, Cury mantém 10% e Flávio oscila apenas um ponto.
Campanha entra na fase de consolidação
O primeiro turno das eleições está marcado para 4 de outubro. Com aproximadamente um mês de campanha pela frente, a pesquisa de setembro apresenta uma disputa com três características simultâneas: Lula continua líder no primeiro turno, Flávio Bolsonaro permanece competitivo a ponto de empatar tecnicamente com o presidente numa eventual segunda etapa, e Augusto Cury se distancia dos demais candidatos e passa a ocupar sozinho a terceira posição.
O crescimento de Cury não rompeu a polarização. Lula e Flávio ainda concentram dois terços das intenções de voto no principal cenário estimulado e possuem as bases mais consolidadas da eleição. Ao mesmo tempo, a entrada de um terceiro candidato na faixa de dois dígitos cria uma nova variável para a reta final e pode influenciar a distribuição dos votos que ainda estão disponíveis.
As próximas pesquisas mostrarão se os 10% de Cury representam um novo patamar ou um movimento temporário, se a diferença de oito pontos entre Lula e Flávio no primeiro turno será mantida e, principalmente, se o empate técnico de 42% a 41% numa eventual segunda etapa persistirá.
Com 71% dos eleitores afirmando que já fizeram uma escolha definitiva, a corrida entra em uma fase menos marcada pela apresentação dos candidatos e mais pela consolidação, disputa dos indecisos e tentativa de reduzir rejeições. O espaço para mudança continua existindo, mas está ficando menor à medida que 4 de outubro se aproxima.
Fontes:
Quaest – pesquisa nacional sobre a eleição presidencial realizada entre 30 de agosto e 1º de setembro de 2026, registrada sob o número BR-07065/2026
Tribunal Superior Eleitoral – calendário oficial e atos gerais das Eleições 2026
Tribunal Superior Eleitoral – informações oficiais sobre pesquisas eleitorais e registro de levantamentos de opinião pública
Quaest – análises e levantamentos sobre a disputa presidencial e a distribuição do eleitorado nas Eleições 2026









