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BANEB: como o banco da Bahia foi vendido ao Bradesco por R$ 260 milhões em 1999

Privatizado em 22 de junho de 1999 por R$ 260 mi, banco estatal tinha 2.825 funcionários, R$ 2 bi em ativos e marcou o fim dos bancos estaduais na Bahia.

por Bruno Assis
19/08/2026 às 08h22
em Economia
Baneb: Como O Banco Do Estado Da Bahia Fundado Em 1952 Foi Vendido Ao Bradesco Por R$ 260 Milhões Em 1999-Gazeta Mercantil

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O pregão terminou praticamente antes de haver uma disputa. Em 22 de junho de 1999, na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, o Banco do Estado da Bahia, o BANEB, passou para o controle do Bradesco (BBDC3; BBDC4). O banco paulista era o único participante do leilão e pagou R$ 260 milhões pelo controle da instituição baiana, apenas 3,18% acima do preço mínimo estabelecido para a operação.

A privatização colocou fim à trajetória do BANEB como banco controlado pelo governo baiano e representou muito mais do que a venda de uma instituição financeira. Com o negócio, uma rede de 170 agências, 2.825 funcionários e uma estrutura com R$ 2,001 bilhões em ativos deixou a esfera estadual e passou para um dos maiores grupos bancários privados do país. Leia também: Lula tem 60 milhões de votos e será sempre escutado, diz Galípolo | Finanças.

Os números registrados pelo Banco Central ajudam a dimensionar a operação. O patrimônio líquido do BANEB em dezembro de 1998 era de R$ 145,38 milhões. O preço mínimo do leilão havia sido fixado em R$ 252 milhões e o lance vencedor chegou a R$ 260 milhões. Considerando apenas esses números, o Bradesco desembolsou o equivalente a aproximadamente 1,79 vez o patrimônio líquido informado e cerca de 13% do total de ativos da instituição.

O dado mais revelador, porém, talvez esteja no próprio comentário preservado nos arquivos do Banco Central. O órgão registrou que o preço mínimo, próximo de duas vezes o patrimônio líquido segundo os critérios utilizados na modelagem, dificultou significativamente a venda e exigiu esforço para que aparecesse um interessado. No fim, o banco acabou alienado quase pelo valor mínimo. Leia também: CVC precifica oferta de ações em R$ 3,30 e movimenta R$ 550 milhões | Finanças.

As origens do BANEB são anteriores ao próprio nome do banco

A história institucional do BANEB é mais antiga — e mais complexa — do que algumas cronologias resumidas sugerem. Registros da Biblioteca do IBGE apontam que suas raízes remontam a 1937, quando foi criado o Instituto Central de Fomento Econômico da Bahia, o ICFEB. Em 1955, a Lei estadual nº 730 autorizou a criação do Banco de Fomento do Estado da Bahia, o Banfeb, que sucedeu o instituto e deu continuidade às suas operações.

O nome Banco do Estado da Bahia surgiria posteriormente. Em abril de 1966, a reorganização administrativa promovida pela Lei estadual nº 2.321 alterou a denominação do Banco de Fomento para Banco do Estado da Bahia. Dois anos depois, outra lei estadual já identificava formalmente o BANEB como sucessor do Banfeb. Leia também: Onda de violência é menos intensa na França, mas 719 pessoas são detidas | Mundo.

Essa cronologia corrige a ideia de que o BANEB simplesmente teria “nascido em 1952”. O que existiu foi um processo institucional iniciado ainda na década de 1930, convertido em banco de fomento em 1955 e reorganizado sob a denominação BANEB em 1966.

A lógica econômica por trás da instituição, entretanto, permaneceu relativamente clara durante décadas: o governo estadual dispunha de um banco capaz de participar da interiorização do crédito, financiar atividades econômicas e operar em regiões onde a presença de instituições privadas era menor.

A rede que chegou ao leilão de 1999 ajuda a mostrar o alcance construído ao longo desse período. Eram 170 agências e uma média de 16,6 empregados por unidade. Para o comprador, adquirir o BANEB significava obter imediatamente uma infraestrutura bancária distribuída pela Bahia que levaria anos para ser reproduzida organicamente.

O Plano Real mudou a equação dos bancos estaduais

A privatização do BANEB não pode ser entendida isoladamente. Ela ocorreu dentro de uma transformação muito maior do sistema financeiro brasileiro iniciada após a estabilização monetária.

Os bancos estaduais tinham historicamente funcionado também como fontes de financiamento para seus próprios controladores. Estudo do Senado Federal sobre a renegociação das dívidas estaduais observa que essas instituições permitiam aos governos estaduais operar com uma restrição orçamentária mais flexível. Com o Plano Real, porém, a queda abrupta da inflação eliminou uma importante fonte de receita do sistema bancário e expôs fragilidades que antes podiam permanecer mascaradas pelo ambiente inflacionário.

Foi nesse contexto que o governo federal criou, em agosto de 1996, o Programa de Incentivo à Redução do Setor Público Estadual na Atividade Bancária, o PROES. O desenho permitia diferentes soluções para as instituições estaduais: privatização, extinção, federalização, transformação em agência de fomento ou, em alguns casos, saneamento com permanência do controle público.

Ao final de 1998, 40 das 43 instituições estaduais alcançadas pelo processo já haviam aderido ao programa. Apenas seis haviam escolhido a alternativa de saneamento; as demais caminhavam para privatização, extinção, federalização ou conversão em agência de fomento.

O BANEB estava no centro dessa reorganização.

R$ 1,711 bilhão em títulos no PROES para a operação da Bahia

A diferença entre o valor obtido no leilão e o tamanho da operação financeira associada ao PROES ajuda a explicar por que avaliar uma privatização apenas pelo preço pago pelo comprador produz uma fotografia incompleta.

Levantamento do Senado Federal, baseado em dados do Banco Central, registra que o contrato do PROES relacionado à Bahia foi assinado em 19 de março de 1998 e envolveu emissão de R$ 1,711 bilhão em títulos, tendo o BANEB como instituição destinada à privatização.

Isso não significa que R$ 1,711 bilhão possa ser tratado automaticamente como o “prejuízo da venda” ou simplesmente como dinheiro entregue ao Bradesco. O montante se inseria na engenharia de reorganização financeira do Estado e da instituição. A comparação, entretanto, dimensiona a diferença entre o esforço público associado ao processo e a receita obtida no leilão.

Os R$ 260 milhões pagos pelo controle equivaleram a cerca de 15,2% daqueles R$ 1,711 bilhão em títulos registrados para a operação baiana no PROES. Invertendo a conta, o valor dos títulos correspondia a aproximadamente 6,6 vezes o preço alcançado no leilão.

Esse é um dos elementos centrais para compreender a privatização: antes de o ativo ser transferido para a iniciativa privada, houve uma profunda reorganização financeira patrocinada dentro de um programa federal destinado justamente a resolver os desequilíbrios acumulados pelos bancos estaduais.

Itaú saiu e Bradesco ficou sozinho

Na véspera da privatização, havia expectativa de alguma concorrência. O Itaú havia analisado o BANEB, mas desistiu de disputar o banco um dia antes do leilão. O resultado foi uma operação com apenas um comprador habilitado a apresentar o lance: o Bradesco.

O preço mínimo oficialmente registrado pelo Banco Central foi de R$ 252 milhões. O Bradesco ofereceu R$ 260 milhões, diferença de R$ 8 milhões. O ágio matemático foi de 3,17%, arredondado na cobertura da época para 3,18%.

Além do valor pago no leilão, houve uma oferta de R$ 7,8 milhões destinada aos empregados, levando o preço total registrado pelo Banco Central a R$ 267,8 milhões. A participação alienada correspondia a 93,95% do capital social.

O baixo ágio contrasta com outras privatizações bancárias do mesmo período. Em 1998, por exemplo, o BEMGE teve preço mínimo de R$ 314 milhões e foi vendido ao Itaú por R$ 583 milhões. Já o Banestado, privatizado em 2000, sairia de um mínimo de R$ 403 milhões para um preço de R$ 1,625 bilhão. As instituições e circunstâncias não são diretamente comparáveis, mas os números deixam claro que o leilão baiano produziu uma disputa praticamente inexistente pelo preço.

Para o Bradesco, o principal ativo era a escala

O interesse do Bradesco não se resumia ao patrimônio líquido do BANEB. A aquisição entregava ao grupo uma rede pronta em um dos maiores estados do Nordeste.

Na época, a instituição incorporaria aproximadamente 400 mil clientes e 170 agências. O presidente do Conselho de Administração do Bradesco, Lázaro Brandão, afirmou após a operação que a aquisição ampliava a presença do banco no mercado e fortalecia o grupo.

A estratégia se encaixava em um movimento mais amplo de expansão por aquisições. A própria cronologia institucional do Bradesco registra o BANEB entre as compras realizadas em 1999. Nos anos seguintes, o grupo adicionaria outras instituições regionais, entre elas o Banco do Estado do Amazonas, em 2002, e o Banco do Estado do Maranhão, em 2004.

Em vez de construir uma rede agência por agência, o Bradesco conseguia adquirir de uma só vez estruturas, relacionamentos comerciais, clientes, funcionários e presença territorial.

O BANEB foi uma peça de uma transformação nacional

A Bahia não estava sozinha. O PROES remodelou a presença dos governos estaduais no sistema financeiro.

Segundo estudo do Senado, quando o programa foi criado havia 35 instituições financeiras controladas pelos estados, das quais 23 eram bancos comerciais ou múltiplos. Ao final de 2002, restavam apenas seis bancos estaduais comerciais ou múltiplos. No processo analisado, dez instituições foram extintas, 14 privatizadas e cinco saneadas.

O Banco Central também registrou a velocidade dessa retração. Em dezembro de 1996, os bancos estaduais respondiam por 20,2% dos depósitos do sistema bancário brasileiro. Um ano depois, a participação havia caído para 15,5%. Em novembro de 1998, estava em 11,6%.

O BANEB, portanto, não desapareceu por causa de uma decisão isolada tomada em Salvador. Sua privatização integrou uma política nacional que alterou profundamente a arquitetura bancária brasileira e reduziu drasticamente o papel dos estados como controladores de bancos comerciais.

O que continuou existindo depois do banco

Nem tudo desapareceu com a placa das agências.

A Caixa de Assistência dos Empregados do Baneb, a CASSEB, criada em 22 de setembro de 1967 pelos funcionários da instituição, continuou existindo como entidade civil sem fins lucrativos destinada à assistência médico-hospitalar de seus associados e dependentes. Sua própria história institucional mantém explicitamente a ligação com os antigos trabalhadores do BANEB.

Outra referência importante foi a Associação Atlética Baneb, no bairro do Costa Azul, em Salvador. O clube permaneceu durante anos como espaço de convivência ligado à memória dos antigos empregados. Em 2012, associados chegaram a realizar manifestações contra a venda da entidade, e as atividades no imóvel foram encerradas naquele período.

São vestígios de uma instituição que deixou de existir juridicamente como banco estatal, mas continuou presente na trajetória profissional e pessoal de milhares de famílias baianas.

Um leilão de R$ 260 milhões que ajuda a explicar o Brasil bancário atual

Visto isoladamente, o registro do Banco Central é quase burocrático: leilão em 22 de junho de 1999; 93,95% do capital social vendido; R$ 260 milhões; comprador, Bradesco; local, Bolsa de Valores do Rio de Janeiro.

Por trás dessa linha, porém, está uma mudança estrutural.

Uma instituição cujas origens públicas remontavam a 1937, transformada em banco de fomento em 1955 e rebatizada como Banco do Estado da Bahia em 1966, chegou ao fim do século com R$ 2 bilhões em ativos, 170 agências e 2.825 empregados. Depois de passar pelo processo nacional de reestruturação dos bancos estaduais, foi vendida por um lance apenas R$ 8 milhões superior ao preço mínimo.

O Bradesco levou a rede. O Estado deixou a atividade bancária comercial. E a Bahia passou a integrar uma transformação que reduziu dezenas de instituições financeiras estaduais a um pequeno grupo de bancos sobreviventes.

Mais de duas décadas depois, o BANEB permanece como um caso especialmente didático daquele processo: não apenas pela privatização em si, mas pela diferença entre o tamanho da estrutura financeira mobilizada para reorganizar o sistema e a simplicidade do desfecho.

No dia do leilão, bastou um único comprador e um único lance vencedor. O banco estatal desapareceu. A rede permaneceu.

Fontes: Banco Central do Brasil, Bancos Estaduais Privatizados e Relatório Anual de 1998; Senado Federal, estudo O Refinanciamento dos Governos Subnacionais e o Ajuste Fiscal; Biblioteca do IBGE; legislação do Estado da Bahia; Bradesco Relações com Investidores e Museu Histórico Bradesco; CASSEB.

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