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Receita e PGFN dão 30 dias para empresas de combustíveis regularizarem débitos

Nova fase da fiscalização mira devedores contumazes no setor de combustíveis e prevê defesa administrativa antes de sanções mais severas.

por Maria Helena Costa
10/06/2026 às 22h47
em Economia
Receita E Pgfn Dão 30 Dias Para Empresas De Combustíveis Regularizarem Débitos - Gazeta Mercantil

A Receita Federal do Brasil (RFB) e a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) iniciaram o envio de notificações a empresas do setor de combustíveis potencialmente enquadradas como devedores contumazes, em nova fase da ofensiva federal contra a inadimplência tributária estruturada. As companhias notificadas terão 30 dias para regularizar débitos, adequar o patrimônio informado ou apresentar defesa administrativa. Caso não haja regularização ou a defesa não seja acolhida, poderão ser submetidas a restrições como inscrição no Cadin, vedação a contratos com o poder público, impedimento de benefícios fiscais, inaptidão do CNPJ e limitações à recuperação judicial. A medida está baseada na Lei Complementar nº 225/2026 e na Portaria Conjunta RFB/PGFN nº 6/2026.

A nova etapa amplia uma estratégia já iniciada pela administração tributária com o setor fumageiro e agora atinge um segmento considerado sensível para a economia por sua influência sobre transporte, logística, inflação e formação de preços ao consumidor. Para o governo, a ação busca reforçar a justiça fiscal e conter a concorrência desleal provocada por empresas que deixam de recolher tributos de forma recorrente e estruturada.

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No comunicado oficial, Receita e PGFN afirmam que empresas com dificuldades financeiras legítimas não são o alvo da medida. O foco recai sobre contribuintes cujo comportamento fiscal indique uso reiterado da inadimplência como modelo de negócio, com impacto sobre a arrecadação e desequilíbrio competitivo no mercado.

A ação ocorre em um momento em que o governo tenta aumentar a conformidade tributária e elevar a percepção de risco entre contribuintes inadimplentes, sobretudo em setores com grande circulação de mercadorias, elevado peso tributário e forte relevância econômica. No caso dos combustíveis, a fiscalização tem potencial para atingir distribuidoras, operadores e empresas com papel relevante na cadeia de abastecimento.

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Setor de combustíveis entra no centro da nova ofensiva fiscal

A entrada do setor de combustíveis nessa nova rodada de notificações não é casual. Trata-se de uma atividade historicamente monitorada de perto pelo Fisco, tanto pelo peso dos tributos incidentes quanto pelo impacto que irregularidades podem ter sobre a concorrência e os preços finais.

Quando uma empresa deixa de recolher tributos de forma sistemática, ela reduz artificialmente seus custos e pode operar em vantagem em relação a concorrentes que cumprem suas obrigações. No mercado de combustíveis, essa distorção é particularmente sensível porque qualquer desequilíbrio competitivo pode afetar a cadeia logística e influenciar o preço pago por transportadoras, empresas e consumidores.

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A Receita Federal e a PGFN sustentam que o combate aos devedores contumazes tem efeito não apenas arrecadatório, mas também regulatório. Ao apertar o cerco sobre companhias que usam a inadimplência estruturada para competir, o governo tenta reduzir distorções de mercado e criar um ambiente mais isonômico entre os agentes do setor.

Na prática, a nova fase representa uma mudança de patamar na fiscalização. Em vez de atuar apenas depois da consolidação da dívida, o poder público busca enquadrar preventivamente contribuintes com comportamento reiterado de irregularidade, dentro das novas ferramentas legais criadas em 2026.

Prazo de 30 dias abre espaço para regularização e defesa

Pelas regras anunciadas, as empresas notificadas terão 30 dias para adotar uma das três linhas de resposta previstas: regularizar os débitos tributários, adequar o patrimônio informado ou apresentar defesa administrativa formal, com documentos que demonstrem que não se enquadram como devedores contumazes.

Esse ponto é central para a estratégia do governo. A medida não é apresentada apenas como mecanismo punitivo, mas também como instrumento de indução à regularização. O prazo funciona como uma janela para que o contribuinte tente afastar sua qualificação, com base em justificativas objetivas e evidências sobre sua situação financeira.

Do ponto de vista jurídico, a previsão de defesa administrativa busca preservar o contraditório e a ampla defesa. Empresas que enfrentam crise de caixa, queda excepcional de receita, litígios tributários ou outras circunstâncias concretas poderão apresentar elementos para demonstrar que a inadimplência não configura prática reiterada e estruturada.

Ainda assim, o prazo é curto e deve exigir reação rápida das companhias alcançadas. A depender do volume de débitos, da estrutura patrimonial e do estágio das pendências, a preparação de defesa ou de plano de regularização pode demandar atuação imediata das áreas jurídica, contábil e tributária.

Lei fixa critérios objetivos para definir devedor contumaz

A base legal da ofensiva está na Lei Complementar nº 225/2026, que instituiu o Código de Defesa do Contribuinte e passou a prever critérios específicos para a caracterização do devedor contumaz. Segundo a PGFN, enquadram-se nessa condição os contribuintes com débitos em situação irregular iguais ou superiores a R$ 15 milhões e superiores a 100% do patrimônio; ou com débitos irregulares em ao menos quatro períodos consecutivos ou seis alternados dentro de 12 meses; ou ainda aqueles sem motivos objetivos que expliquem a falta de pagamento, segundo avaliação da Receita e da PGFN.

A Portaria Conjunta RFB/PGFN nº 6/2026, por sua vez, regulamenta o processo de qualificação e o tratamento desse contribuinte pelas duas instituições. A norma organiza o rito administrativo e dá base para a adoção das medidas posteriores, caso a empresa não regularize a situação ou não consiga afastar seu enquadramento.

Esses critérios ajudam a diferenciar a figura do devedor contumaz da empresa em crise. Nem todo inadimplente será automaticamente tratado como contumaz. A própria administração tributária afirma que o alvo são práticas de inadimplência estratégica, e não companhias que enfrentem dificuldades reais e temporárias.

Essa distinção é relevante porque reduz, em tese, o risco de penalização indevida de empresas que estejam em recuperação operacional, com passivos em negociação ou sob impacto de eventos excepcionais.

Restrições podem atingir contratos, benefícios e recuperação judicial

Se não houver regularização ou se a defesa administrativa for rejeitada, as empresas poderão ser submetidas a um conjunto amplo de restrições legais. Entre as medidas listadas oficialmente estão a inscrição no Cadastro Informativo de Créditos não Quitados do Setor Público Federal (Cadin), a proibição de contratar com o poder público, a vedação à celebração de transação tributária e o impedimento de usufruir de benefícios fiscais.

Além dessas limitações, a legislação também prevê consequências empresariais mais severas, como a declaração de inaptidão do CNPJ, a proibição de proposta de recuperação judicial e até a convolação desta em falência, conforme o caso.

Na prática, essas medidas podem comprometer a operação da empresa em diversas frentes. A inscrição no Cadin dificulta relações com o setor público e afeta a imagem de crédito. A perda de benefícios fiscais altera a estrutura de custos. A inaptidão do CNPJ ameaça a continuidade operacional. E as restrições ligadas à recuperação judicial elevam o risco para companhias que já estejam financeiramente fragilizadas.

Para o setor de combustíveis, o peso dessas sanções é ainda maior, porque a atividade depende de regularidade cadastral, fluxo financeiro contínuo, relações contratuais amplas e confiança de fornecedores, bancos e distribuidores.

Receita mira arrecadação, concorrência e conformidade tributária

O endurecimento da fiscalização atende a três objetivos centrais da política tributária atual. O primeiro é proteger a arrecadação pública, reduzindo a inadimplência recorrente em setores de alta relevância econômica. O segundo é combater a concorrência desleal, impedindo que empresas que não recolhem tributos disputem mercado em condições artificialmente vantajosas. O terceiro é aumentar a conformidade tributária, elevando o custo e o risco da inadimplência estratégica.

Ao tornar mais concreta a possibilidade de enquadramento como devedor contumaz, o governo tenta incentivar a regularização espontânea de passivos e desencorajar estruturas empresariais montadas com base no não pagamento de tributos.

No setor de combustíveis, isso pode ter efeitos mais amplos. A saída ou a regularização de empresas irregulares tende a alterar a dinâmica competitiva, reduzir distorções em preços e elevar o grau de formalização da cadeia. Ao mesmo tempo, uma ação mais intensa da Receita e da PGFN pode aumentar a judicialização, especialmente se contribuintes questionarem critérios de enquadramento, cálculos de dívida ou alcance das sanções.

A tendência apontada pelo próprio governo é de que esse tipo de fiscalização avance gradualmente para outros segmentos considerados estratégicos, à medida que o cruzamento de dados fiscais e patrimoniais permita identificar novos padrões de inadimplência estruturada.

Combustíveis sucedem cigarros e marcam nova fase do endurecimento fiscal

Para o mercado, o recado é claro: a Lei Complementar nº 225/2026 deixou de ser apenas um novo marco normativo e começou a produzir efeitos práticos em setores específicos. O prazo de 30 dias dado às empresas notificadas funciona como primeira resposta administrativa, mas o peso real da medida estará na capacidade de o governo sustentar o enquadramento e aplicar as sanções previstas em lei quando não houver regularização.

Se a estratégia avançar como planejado, a ofensiva sobre devedores contumazes pode inaugurar uma fase mais dura da política fiscal brasileira, com foco em cobrança seletiva, combate à inadimplência estratégica e reorganização competitiva em mercados fortemente tributados.

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