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Livro Bege mostra preços pressionados e emprego quase parado nos EUA antes de decisão do Fed

Relatório aponta alta de preços nos 12 distritos, dificuldades de contratação e crescimento econômico modesto antes da reunião do Fomc

por Eduardo Toscano
03/09/2026 às 03h25
em Economia
Livro Bege Do Fed: Eua Crescem Pouco E Incerteza Aumenta - Gazeta Mercantil

A economia dos Estados Unidos continuou crescendo de forma modesta durante julho e agosto, mas as empresas seguem convivendo com pressões relevantes de custos enquanto o mercado de trabalho perdeu velocidade, segundo o Livro Bege divulgado nesta quarta-feira, 2 de setembro, pelo Federal Reserve. O diagnóstico chega a menos de duas semanas da próxima reunião do banco central americano e adiciona novas informações ao debate sobre até quando os juros precisarão permanecer elevados para conter a inflação sem provocar uma deterioração mais forte do emprego.

O levantamento mostra uma economia distante de uma contração generalizada, mas também sem sinais de aceleração significativa. Dez dos 12 distritos do Federal Reserve relataram crescimento entre leve e moderado, enquanto dois apontaram estabilidade. O consumo avançou apenas ligeiramente no conjunto do país, com consumidores mais sensíveis aos preços, enquanto setores ligados à manufatura, construção de data centers e defesa exibiram desempenho mais forte. Leia também: Motim do grupo Wagner mostra que uma longa guerra na Ucrânia prejudica Putin | Mundo.

A principal tensão está na combinação entre atividade ainda positiva e custos persistentemente elevados. Os preços subiram em todos os distritos. Oito classificaram o avanço como moderado, dois como modesto, um como leve e outro registrou aumento robusto. Em relação ao levantamento anterior, a velocidade da inflação permaneceu praticamente igual em oito regiões, diminuiu em três e acelerou em apenas uma.

No mercado de trabalho, o movimento foi muito mais fraco. O emprego avançou apenas marginalmente no agregado: três distritos relataram crescimento moderado, quatro registraram pequenas altas e cinco não observaram mudanças relevantes. Ao mesmo tempo, empresas continuaram relatando dificuldade para encontrar profissionais técnicos e trabalhadores qualificados, especialmente na manufatura e na construção. Leia também: Pesquisa mostra que 96% dos brasileiros estão abertos a novas ofertas de emprego | Carreira.

Pressão de preços continua espalhada pela economia americana

O Livro Bege mostra que o problema de custos não está concentrado em um único setor. Empresas de diferentes regiões relataram aumentos nos preços de energia, transporte e matérias-primas, com destaque para metais e produtos petroquímicos. Manufatura e construção aparecem entre os setores mais expostos à pressão sobre insumos.

O Federal Reserve também registrou impactos relacionados às tarifas comerciais sobre empresas industriais e varejistas em diversos distritos. Custos de saúde e seguros foram outra fonte recorrente de pressão mencionada pelos contatos consultados pelos bancos regionais. Leia também: Quatro em cada dez imóveis são anunciados acima do preço, mostra estudo | Empresas.

A dispersão desses aumentos importa para a política monetária porque indica que a inflação enfrentada pelas empresas não depende exclusivamente do consumo doméstico. Parte do movimento está relacionada a choques de oferta, energia, comércio internacional e custos empresariais.

Isso torna o trabalho do Fed mais complexo. Elevar ou manter os juros elevados pode reduzir demanda e crédito, mas não produz diretamente mais petróleo, reduz tarifas ou aumenta a oferta de metais e outros insumos. Leia também: Devo voltar para um antigo emprego?.

Há, entretanto, um limite cada vez mais visível para o repasse desses custos ao consumidor. Empresas voltadas ao público em alguns distritos disseram que clientes mais preocupados com preços dificultam novos reajustes. Na prática, companhias enfrentam custos maiores ao mesmo tempo em que encontram resistência para transferi-los integralmente para as vendas.

Esse ambiente pode comprimir margens empresariais se as pressões persistirem.

Consumidor compra, mas começa a selecionar mais

O consumo avançou apenas ligeiramente no período analisado. O Livro Bege identifica uma divisão entre consumidores mais sensíveis aos preços e compras ainda sólidas nos segmentos de renda mais elevada.

As vendas de automóveis ficaram, em geral, enfraquecidas. Confiança mais baixa, combustível caro e aumento dos custos de financiamento limitaram a procura por veículos em diferentes regiões.

O turismo, por outro lado, avançou. Companhias aéreas relataram demanda forte mesmo com tarifas mais altas, indicando que algumas categorias de serviços seguem encontrando consumidores dispostos a absorver reajustes.

Esse contraste ajuda a explicar por que a atividade americana continua crescendo apesar da política monetária restritiva. Não existe uma retração uniforme do consumo. Há setores resistentes e outros nos quais o preço e o crédito passaram a pesar mais sobre as decisões das famílias.

O setor residencial também mostra consequências do custo do dinheiro. A construção de moradias caiu no agregado, enquanto a construção não residencial avançou. Parte importante desse crescimento veio de projetos ligados a data centers.

O avanço da infraestrutura associada à inteligência artificial tornou-se um componente relevante do investimento americano e aparece repetidamente nos relatos regionais do Fed.

Data centers e defesa sustentam parte da indústria

A manufatura melhorou na maior parte dos distritos, com demanda particularmente forte relacionada a data centers e à indústria de defesa.

Em Cleveland, por exemplo, o Fed identificou expansão robusta da demanda industrial impulsionada por esses dois segmentos. Em St. Louis, a atividade manufatureira também avançou com contribuição de projetos de data centers e defesa.

Esse comportamento cria uma economia de velocidades diferentes. Enquanto empresas voltadas ao consumidor enfrentam maior sensibilidade a preços, partes da indústria são beneficiadas por grandes projetos de investimento, infraestrutura tecnológica e encomendas públicas.

A construção não residencial apresenta característica semelhante. O Livro Bege registra concentração crescente de projetos associados à infraestrutura de data centers, enquanto o mercado residencial perde força.

A expansão da inteligência artificial, portanto, aparece no relatório não apenas como fenômeno tecnológico, mas como fator macroeconômico capaz de movimentar investimento, construção, eletricidade, equipamentos e contratação de profissionais especializados.

Essa demanda também ajuda a explicar outra característica detectada pelo Fed: a dificuldade de encontrar determinados trabalhadores continua existindo mesmo com crescimento muito fraco do emprego total.

Emprego cresce pouco, mas falta trabalhador especializado

Os dados regionais não mostram uma paralisação completa do mercado de trabalho. Mostram, porém, desaceleração.

Dos 12 distritos, cinco não registraram mudança relevante no emprego. Quatro observaram apenas pequenos avanços e três relataram crescimento moderado.

A procura por trabalhadores apareceu de maneira mais consistente na manufatura, construção e em algumas atividades de serviços. Varejo e hospitalidade seguiram direção oposta, com redução da demanda por mão de obra.

Ao mesmo tempo, empresas continuaram relatando dificuldade para encontrar profissionais técnicos e trabalhadores especializados. Os maiores aumentos salariais também apareceram justamente em atividades nas quais esse tipo de profissional permanece escasso, especialmente construção e indústria.

O comportamento sugere que o mercado de trabalho americano não pode ser descrito apenas por um número agregado de vagas. Há uma diferença relevante entre setores e qualificações.

Uma economia pode apresentar crescimento lento do emprego total e, simultaneamente, escassez de trabalhadores em determinadas ocupações. Essa combinação dificulta uma desaceleração rápida dos salários nos setores mais pressionados.

O crescimento salarial variou de modesto a moderado na maioria dos distritos.

Inteligência artificial começa a aparecer no mercado de trabalho

O Livro Bege traz ainda um sinal que deverá ganhar importância nos próximos levantamentos: empresas já relatam tanto efeitos positivos quanto negativos da inteligência artificial sobre a demanda por trabalhadores.

O Fed não apresenta uma conclusão nacional indicando se a tecnologia está criando ou eliminando mais vagas no conjunto da economia. Os relatos regionais mostram as duas direções.

Em algumas atividades, investimentos relacionados à IA sustentam construção, fabricação de equipamentos, infraestrutura energética e demanda por profissionais especializados. Em outras, ferramentas de automação começam a modificar processos e reduzir a necessidade de determinados serviços.

O distrito de Richmond, por exemplo, registrou empresas reorganizando operações diante da adoção de ferramentas de inteligência artificial. Em outras regiões, investimentos em data centers foram apontados como importantes motores de crescimento.

O resultado é uma transformação que atua simultaneamente sobre capital e trabalho. A IA cria demanda por infraestrutura física enquanto modifica a quantidade e o perfil dos trabalhadores necessários em outras atividades.

Ainda é cedo para transformar esses relatos em uma estimativa quantitativa de empregos criados ou eliminados, mas a presença do tema no resumo nacional do Livro Bege mostra que o Federal Reserve já considera a tecnologia uma variável relevante para acompanhar o mercado de trabalho.

Economia cresce modestamente em dez dos 12 distritos

Apesar das pressões inflacionárias e da desaceleração do emprego, o Livro Bege não descreve uma economia americana em recessão.

Dez distritos registraram aumento da atividade entre leve e moderado desde o início de julho. Apenas dois relataram estabilidade.

O sistema financeiro também apresentou melhora discreta, com volume de empréstimos estável ou crescente na maior parte das regiões. Serviços avançaram entre levemente e moderadamente.

A agricultura permaneceu pressionada, embora tenha apresentado alguma melhora. O setor pecuário mostrou maior força, enquanto produtores agrícolas continuaram enfrentando condições adversas em diferentes regiões, incluindo problemas climáticos.

As perspectivas para os próximos meses foram predominantemente positivas, mas acompanhadas por maior incerteza relacionada ao preço da energia, política econômica e conflitos internacionais.

Essa descrição é importante porque oferece ao Fed uma combinação pouco confortável: atividade econômica ainda crescente, inflação acima do objetivo e mercado de trabalho desacelerando apenas gradualmente.

Livro Bege chega a duas semanas da reunião do Fed

O momento da divulgação aumenta a relevância do relatório. O Comitê Federal de Mercado Aberto, o Fomc, se reúne nos dias 15 e 16 de setembro para definir novamente a política monetária americana.

A taxa dos fundos federais permanece atualmente no intervalo de 3,50% a 3,75% ao ano. Na reunião de julho, o Fed decidiu manter esse nível por nove votos a três.

A divisão dentro do próprio comitê chama atenção. Os três votos dissidentes defendiam um aumento de 0,25 ponto percentual, não um corte. A posição refletia preocupação com uma inflação que permanece acima da meta de 2% e com os efeitos de choques de oferta, incluindo energia.

O Livro Bege não determina qual será a decisão de setembro e tampouco representa a opinião dos membros do Fomc. O documento reúne informações obtidas pelos 12 bancos regionais junto a empresas, economistas, especialistas e outros contatos.

As informações desta edição foram coletadas até 24 de agosto, e o resumo nacional foi preparado pelo Federal Reserve Bank de Minneapolis.

Ainda assim, o relatório oferece informações qualitativas que os dirigentes podem incorporar à avaliação sobre a economia.

Preços e emprego enviam sinais em direções diferentes

O ponto mais relevante para setembro está justamente na divergência entre as duas partes do mandato do Federal Reserve.

No lado da estabilidade de preços, o relatório mostra que custos continuam aumentando em todo o país. Oito distritos registraram inflação moderada, e apenas três observaram desaceleração no ritmo das altas em comparação com a edição anterior.

No lado do emprego, a expansão tornou-se muito pequena. Cinco distritos não registraram crescimento e outros quatro apontaram apenas pequenas altas.

Se a atividade e o emprego enfraquecerem mais rapidamente, aumenta a preocupação com a outra metade do mandato do Fed: o máximo emprego. Se as pressões de preços persistirem, reduzir os juros cedo demais pode dificultar a convergência da inflação à meta.

O Livro Bege de setembro não resolve essa disputa. Ele a torna mais clara.

A economia americana continua avançando, sustentada por setores como manufatura, construção de data centers, defesa e determinados serviços. Ao mesmo tempo, consumidores estão mais atentos aos preços, o mercado residencial perdeu força e o emprego praticamente parou de crescer em parte do país.

Até a reunião de 15 e 16 de setembro, o Fed ainda receberá outros indicadores capazes de alterar a avaliação. O Livro Bege, porém, deixa uma fotografia do final de agosto: uma economia que continua crescendo, mas com inflação empresarial resistente e um mercado de trabalho que oferece cada vez menos espaço para uma política monetária baseada em um único risco.

Fontes:

Federal Reserve – Livro Bege divulgado em 2 de setembro de 2026 e resumo nacional das condições econômicas nos 12 distritos

Federal Reserve – informações dos bancos regionais sobre atividade, preços, emprego, salários e condições setoriais

Federal Open Market Committee – comunicado da reunião de 28 e 29 de julho de 2026 e decisão sobre a taxa dos fundos federais

Federal Reserve – calendário oficial das reuniões do Fomc em 2026

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