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Open Finance acelera portabilidade de crédito e amplia disputa entre bancos

Compartilhamento de dados reduz etapas da transferência de dívidas e aumenta a pressão sobre bancos para melhorar taxas, condições e estratégias de retenção.

por Bruno Assis
27/08/2026 às 14h11
em Economia
Open Finance - Gazeta Mercantil

O avanço do Open Finance começa a produzir efeitos mais concretos sobre um dos mercados mais sensíveis para bancos e consumidores: o crédito. A portabilidade, que já existia no sistema financeiro brasileiro, passa a contar com uma infraestrutura capaz de tornar a troca de informações entre instituições mais rápida e estruturada, reduzindo etapas operacionais e dando ao cliente melhores condições para comparar propostas. Para os bancos, o efeito é igualmente relevante. A instituição que concedeu o empréstimo deixa de competir apenas no momento da contratação e passa a disputar esse cliente durante praticamente toda a vida da dívida, especialmente quando outro banco ou fintech consegue enxergar, a partir dos dados autorizados, espaço para oferecer uma taxa menor ou uma condição mais adequada.

A mudança foi um dos temas discutidos na Febraban Tech 2026, realizada em São Paulo, durante o painel “Open Finance, crédito e portabilidade: inteligência compartilhada, risco redistribuído”. O debate reuniu representantes de instituições financeiras e empresas de consultoria para discutir como o compartilhamento de dados pode alterar a precificação, a análise de risco e a capacidade dos bancos de reter clientes. Entre os participantes esteve Jamile Leão, Head de Consultoria de Negócios em Serviços Financeiros e Open Finance da Capgemini Brasil, que destacou o crédito consignado como uma etapa importante para medir se a portabilidade via Open Finance conseguirá ganhar escala no país.

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“O crédito consignado representa uma prova de fogo, porque ele tem características bem diferentes, a começar pelo volume, que é muito maior do que o do crédito sem garantia”, afirmou Jamile. Segundo ela, a modalidade poderá funcionar como um indicador da capacidade de o novo modelo ganhar tração. “Ele será o termômetro para medir se haverá tração nas portabilidades e, se ganhar tração, será uma excelente referência para todas as outras modalidades de portabilidade.”

Portabilidade pode ficar mais rápida com o Open Finance

A portabilidade de crédito permite que uma pessoa transfira uma dívida de uma instituição para outra quando encontra condições consideradas mais vantajosas, como juros menores, prazo diferente ou custo total inferior. O mecanismo não é novo, mas o Open Finance muda a forma como as informações necessárias à operação podem circular entre as instituições. Com autorização expressa do cliente, dados do contrato podem ser compartilhados de maneira padronizada, reduzindo a dependência de processos manuais e permitindo que a instituição interessada em receber aquela dívida analise com mais precisão as características da operação existente antes de formular uma proposta.

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Uma das diferenças está no prazo concedido à instituição credora original para determinadas etapas da transferência. Pelo procedimento tradicional, esse prazo pode chegar a cinco dias úteis. Nas operações conduzidas dentro da estrutura do Open Finance, uma das etapas passa a ter prazo de até três dias úteis. A redução de dois dias representa uma diminuição de 40% nesse intervalo, embora isso não signifique que toda portabilidade esteja obrigatoriamente concluída nesse período. Ainda existem etapas posteriores, como confirmação de valores, liquidação da dívida e formalização da transferência entre as instituições envolvidas.

Mais do que a redução de prazo, o efeito estrutural está na forma como a informação passa a ser usada. A instituição que pretende conquistar o cliente pode receber, com consentimento, dados suficientemente detalhados para avaliar aquela operação sem depender exclusivamente das informações apresentadas pelo próprio consumidor. Isso tende a tornar a análise mais precisa e permite que uma proposta seja construída a partir das condições reais do contrato existente, e não apenas de estimativas ou informações cadastrais limitadas.

Banco passa a disputar o cliente depois de conceder o empréstimo

A principal consequência competitiva está na mudança do momento em que a disputa ocorre. No modelo tradicional, grande parte do esforço comercial dos bancos se concentra na concessão do crédito. Depois de contratado o empréstimo, o relacionamento tende a se tornar mais estável, principalmente quando a troca de instituição exige mais etapas ou quando o cliente encontra dificuldade para comparar as condições de sua dívida com alternativas disponíveis no mercado. Com o Open Finance, essa estabilidade tende a diminuir porque outros bancos passam a ter mais instrumentos para identificar clientes que podem ser atraídos com uma proposta melhor.

Para a instituição que já possui o contrato, isso significa que o preço definido no momento da concessão deixa de ser suficiente para garantir a permanência do cliente. Uma taxa que era competitiva há seis meses pode deixar de ser caso outro banco passe a enxergar aquele tomador como menos arriscado ou esteja disposto a trabalhar com uma margem menor. O banco de origem pode, então, ser pressionado a rever sua estratégia de retenção, apresentar uma contraproposta ou aceitar a transferência da dívida.

Esse movimento tende a aproximar o mercado de crédito de outros segmentos nos quais a mudança de fornecedor já faz parte da rotina do consumidor. A diferença é que, no crédito, a decisão envolve uma análise mais complexa porque cada instituição utiliza modelos próprios de risco, custo de captação, inadimplência esperada e retorno mínimo. Por isso, o Open Finance não garante automaticamente que todos os clientes receberão propostas mais baratas. O que ele faz é ampliar as condições para que instituições concorrentes avaliem se conseguem oferecer algo melhor.

Dados compartilhados já são usados para conceder crédito

O uso de informações do Open Finance na análise de crédito já vinha crescendo antes da expansão da portabilidade. Dados divulgados pelo Banco Central mostram que dezenas de bilhões de reais em operações foram originadas a partir da análise de informações compartilhadas pelo ecossistema. Parte desse volume foi concedida por fintechs, que encontraram no acesso autorizado a dados bancários uma forma de avaliar clientes que poderiam receber propostas diferentes daquelas disponíveis em seus bancos de relacionamento.

O efeito econômico dessa estrutura está justamente na possibilidade de reduzir parte da assimetria de informação. Uma instituição que conhece pouco determinado cliente tende a adotar uma postura mais conservadora ao precificar o risco. Quando passa a ter acesso, com autorização, a informações sobre movimentação financeira, histórico de relacionamento, pagamentos e outras características relevantes, pode formar uma leitura mais completa sobre a capacidade daquele consumidor de cumprir suas obrigações. Em alguns casos, isso pode resultar em uma taxa menor. Em outros, pode confirmar que o risco é elevado e impedir a apresentação de uma proposta mais agressiva.

Essa lógica também ajuda a explicar por que o Open Finance passou a ser visto pelas instituições não apenas como uma obrigação regulatória, mas como uma ferramenta comercial. O dado compartilhado deixa de ter valor apenas como informação e passa a ser usado para definir preço, limite, prazo e prioridade de relacionamento. Quanto maior a base de clientes que autoriza esse compartilhamento, maior tende a ser o número de situações em que bancos e fintechs conseguem disputar contratos já existentes em outras instituições.

Crédito consignado será teste importante para o novo modelo

A próxima etapa de expansão da portabilidade será particularmente relevante porque envolve o crédito consignado. A modalidade tem características diferentes do crédito pessoal sem garantia, principalmente pelo desconto direto das parcelas na remuneração ou no benefício do tomador. Esse mecanismo reduz o risco de inadimplência e permite, em muitos casos, taxas inferiores às cobradas em linhas de crédito sem garantia.

É justamente por isso que o consignado pode servir como um teste mais robusto para o Open Finance. Trata-se de um mercado de grande volume, com forte presença de bancos tradicionais, financeiras e instituições especializadas. Se o processo de portabilidade se tornar mais simples e ganhar adesão, os clientes poderão ter mais facilidade para comparar o custo de contratos antigos com propostas de concorrentes, aumentando a pressão sobre taxas e estratégias de retenção.

Na avaliação apresentada por Jamile Leão durante a Febraban Tech, o comportamento dessa modalidade poderá mostrar se a infraestrutura criada pelo Open Finance consegue transformar a portabilidade em um hábito mais frequente do consumidor. Se isso acontecer, a tendência é que outras linhas de crédito sejam incorporadas gradualmente e que as instituições passem a observar com mais atenção não apenas a concessão de novos empréstimos, mas também o risco de perder contratos que já estão em carteira.

Retenção e precificação passam a fazer parte da mesma estratégia

Para os bancos, o novo ambiente exige uma aproximação maior entre áreas que tradicionalmente trabalhavam com objetivos distintos. A equipe de risco precisa avaliar quanto custa assumir ou manter determinado cliente, enquanto as áreas comerciais e de relacionamento precisam decidir até onde vale reduzir preço ou melhorar condições para evitar uma portabilidade. Ao mesmo tempo, os sistemas de dados passam a ter papel central na identificação dos contratos com maior probabilidade de saída ou maior potencial de atração.

Essa mudança também pode alterar o comportamento da carteira de crédito. Um banco pode passar a aceitar margens menores em clientes considerados estratégicos se perceber que eles estão mais expostos a ofertas concorrentes. Em sentido oposto, pode optar por não cobrir uma proposta de outra instituição quando avaliar que a rentabilidade daquele contrato já é insuficiente. A portabilidade, portanto, não cria apenas uma disputa por taxa. Ela força uma revisão mais ampla da forma como cada cliente é classificado dentro da estratégia de rentabilidade do banco.

O desafio é que esse processo ocorre em um mercado no qual preço e risco são inseparáveis. Um empréstimo aparentemente caro pode refletir uma avaliação de maior probabilidade de inadimplência. Da mesma forma, uma taxa menor oferecida por outro banco pode resultar de uma visão diferente sobre o perfil do cliente ou de uma estratégia comercial temporariamente mais agressiva. O Open Finance amplia a transparência e a capacidade de comparação, mas não elimina essas diferenças de avaliação.

Cliente ganha mais poder para negociar a própria dívida

Para o consumidor, o principal efeito tende a ser o aumento do poder de negociação. Em vez de aceitar as condições do contrato até o vencimento ou enfrentar um processo mais burocrático para buscar outra instituição, o cliente passa a ter instrumentos que facilitam o compartilhamento de informações e a construção de propostas concorrentes. Isso pode tornar a portabilidade mais próxima de uma decisão financeira recorrente, especialmente entre consumidores que acompanham taxas e procuram reduzir o custo total de suas dívidas.

A mudança, porém, depende da adesão dos próprios clientes. O compartilhamento de informações no Open Finance não é automático e exige consentimento. Sem essa autorização, a instituição concorrente não recebe os dados necessários para avaliar a operação dentro do novo modelo. A velocidade de expansão da portabilidade dependerá, portanto, tanto da disposição dos bancos para competir quanto da confiança dos consumidores em utilizar essa infraestrutura.

Os próximos meses deverão mostrar se o crédito consignado conseguirá transformar esse potencial em volume efetivo de operações. Se a portabilidade crescer, a relação entre banco e cliente poderá mudar de forma mais profunda: uma carteira de crédito deixará de ser tratada apenas como um conjunto de contratos já conquistados e passará a ser vista também como uma base permanentemente exposta à concorrência. Nesse cenário, manter o cliente poderá exigir tanta eficiência quanto conquistá-lo pela primeira vez.


Fontes:

Banco Central do Brasil – regras, cronograma e procedimentos relacionados à portabilidade de crédito no Open Finance

Banco Central do Brasil – regulamentação do escopo dos serviços e do compartilhamento de dados no Open Finance

Banco Central do Brasil – dados sobre autorizações, contas conectadas e operações de crédito originadas a partir de informações compartilhadas

Conselho Monetário Nacional – normas aplicáveis aos procedimentos e prazos da portabilidade de crédito

Febraban Tech 2026 – programação e informações do painel sobre Open Finance, crédito e portabilidade

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