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PEC que amplia autonomia financeira do Banco Central avança na CCJ do Senado

Texto aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça amplia independência administrativa, orçamentária e financeira da autoridade monetária, blinda o Pix contra transferência à iniciativa privada e segue agora para votação no plenário do Senado

por Júlia Campos
11/06/2026 às 14h04
em Política
Banco Central - Gazeta Mercantil

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou, na quarta-feira (10), a proposta de emenda à Constituição que amplia a autonomia financeira do Banco Central. O texto, que já havia sido adiado em reunião anterior por falta de consenso entre os parlamentares, foi aprovado na comissão e agora seguirá para análise do plenário da Casa. O governo ainda tentará negociar mudanças na redação final, especialmente em pontos ligados ao uso de receitas próprias da autoridade monetária e ao financiamento de sistemas de pagamento, como o Pix.

A proposta representa uma nova etapa no processo de ampliação da independência institucional do Banco Central. Desde 2021, a autarquia já conta com autonomia operacional, o que garante mandatos fixos para o presidente e os diretores da instituição, reduzindo a interferência direta do governo de turno sobre a condução da política monetária. Agora, a PEC busca avançar sobre outra frente: a autonomia administrativa, orçamentária e financeira.

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Na prática, o texto aprovado na CCJ retira o Banco Central da vinculação direta a ministérios e cria um regime jurídico próprio para a instituição. A autoridade monetária passaria a ser definida como uma entidade pública de natureza especial, com maior liberdade de gestão e estrutura própria para exercer suas funções de regulação, supervisão e fiscalização do sistema financeiro nacional.

Banco Central teria regime jurídico próprio

O principal ponto da PEC é a transformação do Banco Central em uma instituição com autonomia mais ampla em relação à estrutura tradicional da administração pública federal. A mudança busca dar maior previsibilidade à atuação da autoridade monetária e reduzir a dependência do Orçamento da União para despesas administrativas e investimentos tecnológicos.

Hoje, embora o Banco Central tenha autonomia operacional, a instituição ainda está submetida a limites orçamentários e administrativos típicos da administração federal. Defensores da proposta argumentam que esse modelo restringe a capacidade do BC de investir em tecnologia, contratar pessoal e modernizar sistemas essenciais para o funcionamento do mercado financeiro.

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Com a aprovação da PEC, a autoridade monetária passaria a ter maior controle sobre sua própria estrutura financeira. Isso incluiria a possibilidade de organizar despesas, planejar investimentos e administrar recursos de forma mais independente, sempre dentro das regras constitucionais e legais aplicáveis ao setor público.

O relator da proposta, senador Plínio Valério (PSDB-AM), apresentou parecer favorável ao texto. A votação já havia sido discutida anteriormente na comissão, mas acabou suspensa após pedidos de vista e divergências entre parlamentares. Com a aprovação na CCJ, a matéria entra em uma fase decisiva, já que uma PEC precisa do apoio de três quintos dos senadores em dois turnos de votação no plenário.

Pix entra no centro da discussão

Um dos pontos de maior repercussão da proposta é a chamada blindagem do Pix. O texto aprovado estabelece que o Banco Central terá competência exclusiva para regular e operar o sistema de pagamentos instantâneos. Também prevê que o Pix não poderá ser transferido para entidades privadas.

A medida foi incluída como forma de reforçar o caráter público do sistema, que se tornou uma das principais infraestruturas financeiras do país. Desde sua criação, o Pix passou a ser usado de forma massiva por consumidores, empresas, bancos, fintechs e órgãos públicos, consolidando-se como ferramenta central para pagamentos e transferências no Brasil.

O texto também mantém a gratuidade do Pix para pessoas físicas. Esse ponto é considerado politicamente sensível, uma vez que qualquer discussão sobre eventual cobrança pelo uso do sistema costuma gerar forte reação pública.

A inclusão do Pix na PEC amplia o alcance político da proposta. Embora o tema central seja a autonomia financeira do Banco Central, a proteção constitucional ao sistema de pagamentos instantâneos tende a ser um dos principais eixos do debate no plenário.

Governo tentou alterar texto aprovado

O governo apresentou ao Senado uma proposta alternativa ao parecer aprovado pela CCJ. A sugestão buscava permitir que o Banco Central utilizasse receitas financeiras próprias para bancar investimentos em sistemas de pagamento, incluindo o Pix, além de despesas operacionais, como reforço de pessoal.

Entre as receitas mencionadas está a chamada senhoriagem, termo usado para designar ganhos relacionados à emissão de moeda e à atuação da autoridade monetária. A equipe econômica defendia que parte desses recursos pudesse ser usada para financiar a modernização da infraestrutura do Banco Central sem ampliar a pressão sobre o Orçamento federal.

As alterações, porém, não foram incorporadas ao texto aprovado na comissão. Com isso, a tendência é que o governo tente retomar a negociação durante a análise da PEC no plenário do Senado.

A resistência a mudanças no texto reflete a complexidade política do tema. De um lado, há parlamentares e integrantes do Banco Central que defendem uma autonomia mais robusta, com menor dependência orçamentária. De outro, setores do governo buscam preservar mecanismos de controle fiscal e evitar a criação de uma estrutura considerada excessivamente independente dentro do Estado brasileiro.

Apoio dentro do Banco Central

A proposta aprovada na CCJ recebeu apoio de parte relevante da estrutura técnica do Banco Central. Um grupo de 43 chefes de departamento da instituição divulgou carta em defesa do texto em tramitação no Senado.

O apoio interno é interpretado por defensores da PEC como sinal de que a autonomia administrativa e financeira é considerada necessária por áreas técnicas da autoridade monetária. Para esses setores, a estrutura atual limita a capacidade do BC de responder rapidamente a mudanças no sistema financeiro, especialmente diante da digitalização dos meios de pagamento, do avanço das fintechs e da sofisticação dos instrumentos de supervisão.

O projeto também foi construído em acordo com a direção do Banco Central e recebeu apoio da Advocacia-Geral da União (AGU), segundo informações apresentadas durante a tramitação.

A defesa da proposta se apoia no argumento de que bancos centrais modernos precisam de autonomia institucional suficiente para atuar com independência técnica, estabilidade regulatória e capacidade de investimento em infraestrutura crítica.

Auditores criticam proposta alternativa

Apesar do apoio de setores internos, a proposta alternativa apresentada pelo governo foi criticada pela Associação Nacional dos Auditores do Banco Central (ANBCB). A entidade avaliou que as mudanças sugeridas poderiam gerar insegurança jurídica para a atuação da autoridade monetária.

A preocupação envolve principalmente a forma como receitas próprias poderiam ser utilizadas e quais seriam os limites institucionais da nova estrutura. Para críticos de determinadas alterações, a autonomia financeira precisa vir acompanhada de regras claras de governança, prestação de contas e controle público.

A discussão evidencia que o debate sobre a autonomia financeira do Banco Central não se limita à independência da política monetária. O tema envolve também gestão de recursos, desenho institucional, controle administrativo, fiscalização do sistema financeiro e preservação de serviços públicos digitais de grande alcance, como o Pix.

Próxima etapa será no plenário

Com a aprovação na CCJ, a PEC segue agora para o plenário do Senado, onde precisará ser votada em dois turnos. Por se tratar de uma proposta de emenda à Constituição, o texto exige apoio de pelo menos 49 dos 81 senadores em cada rodada de votação.

A análise em plenário deve reabrir a disputa em torno das mudanças defendidas pelo governo. A equipe econômica tentará ajustar pontos do texto, especialmente no trecho que trata do uso de receitas próprias do Banco Central para investimentos e despesas operacionais.

Caso seja aprovada pelo Senado, a proposta ainda precisará passar pela Câmara dos Deputados, também em dois turnos de votação. Somente depois disso poderá ser promulgada pelo Congresso Nacional.

A tramitação tende a atrair atenção do mercado financeiro, de bancos, fintechs, auditores, servidores públicos e integrantes do governo. A autonomia do Banco Central é um tema sensível porque afeta diretamente a condução da política monetária, a regulação do sistema financeiro e a relação institucional entre a autoridade monetária e o Poder Executivo.

Independência do BC volta ao centro do debate

A autonomia do Banco Central foi formalmente ampliada em 2021, quando a instituição passou a contar com mandatos fixos para sua diretoria. Desde então, o tema permanece no centro das discussões econômicas e políticas, especialmente em momentos de tensão entre governo, mercado e autoridade monetária.

A nova PEC aprofunda esse debate ao tratar da autonomia financeira e administrativa da instituição. Para os defensores, a medida fortalece a credibilidade do Banco Central e reduz riscos de interferência política sobre decisões técnicas. Para críticos, a ampliação da autonomia exige cautela para não diminuir os instrumentos de controle democrático sobre uma instituição com papel central na economia.

O avanço da proposta ocorre em um momento em que o Banco Central ocupa posição estratégica não apenas na definição da taxa básica de juros, mas também na regulação dos meios de pagamento, na supervisão de bancos e fintechs, na inovação financeira e na segurança de sistemas digitais usados por milhões de brasileiros.

Com a votação na CCJ, o Senado dá um passo importante para alterar a arquitetura institucional da autoridade monetária. A decisão final, porém, dependerá da articulação política no plenário e da capacidade do governo de negociar ajustes no texto sem descaracterizar o núcleo da proposta aprovada pela comissão.

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