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Reag aparece ligada a fundo usado por fintech investigada por PCC e empresa de filme sobre Bolsonaro

Relatórios do Coaf apontam transações do Gold Style, administrado pela Reag Trust, com BK Bank, Entre Investimentos, Aster Petróleo e debêntures privadas.

por Carlos Menezes
11/06/2026 às 09h48
em Política
Flavio Bolsonaro - Reag - Banco Do Pcc

A Reag aparece no centro de uma nova frente de apuração sobre movimentações financeiras envolvendo o fundo Gold Style Fundo de Investimento em Direito Creditório, que teria realizado transações com a BK Bank, fintech investigada por suspeita de atuar como “banco paralelo” do PCC, com a Entre Investimentos e Participações, empresa apontada como intermediária de repasses para a produção de “Dark Horse”, filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e com debêntures privadas e sigilosas que somam R$ 3,6 bilhões. As informações constam de relatórios de inteligência financeira do Coaf analisados pela Folha, com base em comunicações de instituições financeiras sobre operações consideradas atípicas.

O Gold Style é administrado pela Reag Trust Distribuidora de Títulos, gestora envolvida em investigações da Polícia Federal sobre a chamada ciranda financeira atribuída ao Banco Master. Segundo as apurações, estruturas financeiras ligadas ao Master teriam sido usadas para fraudar carteiras de crédito e inflar artificialmente ativos. O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em novembro, enquanto a Reag Trust foi liquidada em janeiro.

Dados públicos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) indicam que o Gold Style foi constituído em 1º de abril de 2020 com aporte inicial de R$ 480,1 milhões. Em maio de 2024, o patrimônio líquido do fundo havia saltado para R$ 1,84 bilhão. Apesar das suspeitas mencionadas nos relatórios de inteligência financeira, o fundo aparece nos registros da CVM como “em funcionamento normal”.

O caso chama atenção pela amplitude das conexões identificadas. O mesmo fundo administrado pela Reag aparece em movimentações com uma fintech investigada por suposta ligação com o crime organizado, com uma empresa relacionada a repasses para um filme político, com uma companhia do setor de combustíveis e com operações privadas de debêntures de caráter sigiloso. Os citados têm direito à defesa, e relatórios do Coaf não representam condenação judicial.

Reag administrava fundo citado em relatórios do Coaf

A Reag é uma das principais peças da apuração porque figura como administradora do Gold Style, fundo que aparece nos relatórios de inteligência financeira em operações consideradas suspeitas. Segundo os documentos, movimentações relacionadas ao fundo teriam servido para ocultar beneficiários, dificultar a identificação de pessoas envolvidas e criar obstáculos ao rastreamento dos recursos por meio de “camadas complexas”.

Os relatórios do Coaf são produzidos a partir de comunicações feitas por bancos, corretoras, fintechs, gestoras e outras instituições financeiras obrigadas a reportar movimentações de alto valor ou operações com indícios de irregularidade. Esses documentos não apontam, por si só, a prática de crime, mas funcionam como subsídio para investigações de órgãos como Polícia Federal, Ministério Público, Receita Federal, Banco Central e CVM.

No caso do Gold Style, a dificuldade em identificar os donos e beneficiários finais do fundo é um dos pontos de atenção. Fundos de investimento podem ter estruturas complexas de cotistas, classes, prestadores de serviço e ativos, o que exige fiscalização rigorosa para evitar que sejam usados como instrumentos de ocultação patrimonial ou lavagem de dinheiro.

A Reag, procurada pela reportagem original, informou que não comentaria o assunto. A defesa de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, também disse que não se manifestaria. Outras instituições citadas apresentaram respostas distintas ou não responderam aos questionamentos.

Gold Style saiu de R$ 480 milhões para R$ 1,84 bilhão

O crescimento do Gold Style é um dos elementos que reforçam a atenção sobre o fundo administrado pela Reag. Segundo dados da CVM, o fundo foi criado em abril de 2020 com um aporte inicial de R$ 480,1 milhões. Em maio de 2024, o patrimônio líquido havia chegado a R$ 1,84 bilhão.

O avanço patrimonial ocorreu no mesmo período em que o fundo teria participado de operações hoje analisadas em relatórios de inteligência financeira. A estrutura do Gold Style é a de um Fundo de Investimento em Direito Creditório, conhecido no mercado como FIDC. Esse tipo de veículo é usado para adquirir recebíveis e transformar fluxos futuros de pagamento em ativos financeiros.

FIDCs são instrumentos legítimos e amplamente usados no mercado de crédito. Empresas recorrem a esse tipo de fundo para antecipar receitas, enquanto investidores compram cotas vinculadas a direitos creditórios. O risco surge quando há suspeita de ausência de lastro adequado, superavaliação de ativos, beneficiários ocultos ou movimentações sem justificativa econômica clara.

É justamente nesse ponto que a Reag passa a ser observada com maior atenção. Como administradora do fundo, a instituição aparece associada a uma estrutura que, segundo os relatórios, teria transitado por operações com diferentes agentes investigados ou sob suspeita.

BK Bank movimentou ao menos R$ 146,5 milhões com fundo administrado pela Reag

Uma das conexões mais relevantes envolve a BK Bank. Segundo relatório do Coaf, a fintech realizou lançamentos de R$ 133,6 milhões para o Gold Style em 2023. Outras transações entre a BK Bank e o fundo, em 2024 e 2025, somaram R$ 12,9 milhões. No total, as movimentações identificadas chegam a R$ 146,5 milhões.

A BK Bank é uma das principais investigadas na Operação Carbono Oculto, que apura a infiltração do PCC no mercado financeiro e em atividades econômicas formais. Segundo Polícia Federal, Receita Federal e Ministério Público de São Paulo, a fintech teria funcionado como uma espécie de “banco paralelo” da facção criminosa, por meio de contas-bolsão em instituições financeiras.

Esse modelo, segundo as investigações, concentrava depósitos de clientes diversos em contas agregadas, dificultando o rastreamento individual das transações. A suspeita é que a estrutura tenha sido usada para movimentar recursos de empresas de fachada controladas por grupos criminosos.

A BK Bank foi procurada por email na terça-feira (2), mas não respondeu aos questionamentos da reportagem original. As suspeitas seguem em fase investigativa, e eventuais responsabilidades ainda dependem de apuração formal e decisão das autoridades competentes.

Aster Petróleo aparece em repasses de R$ 311,7 milhões

Além da BK Bank, o Gold Style também aparece em movimentações com a Aster Petróleo, empresa investigada na Operação Carbono Oculto por suspeitas de fraudes no setor de combustíveis. Segundo o Coaf, as transações entre a companhia e o fundo administrado pela Reag somaram R$ 311,7 milhões.

O setor de combustíveis tem sido uma das áreas mais visadas por operações de combate à lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e atuação de organizações criminosas. A cadeia envolve grande volume financeiro, alta carga tributária, múltiplos intermediários e estruturas empresariais que podem ser usadas para dar aparência regular a recursos de origem suspeita.

Na Operação Carbono Oculto, investigadores apontam que distribuidoras e empresas ligadas ao setor teriam sido utilizadas para movimentar dinheiro e ocultar beneficiários. A presença do Gold Style nessas transações amplia o alcance da apuração sobre o papel de fundos de investimento em operações associadas ao mercado de combustíveis.

Para reguladores e participantes do mercado, a associação entre fundos estruturados e empresas investigadas acende alerta sobre governança, controles internos e diligência de prestadores de serviço. A função de administradores, gestores, custodiantes e agentes fiduciários passa a ser analisada em detalhes quando há suspeita de uso irregular de instrumentos financeiros.

Entre Investimentos teve transações de R$ 20 milhões

Outro ponto citado nos relatórios envolve a Entre Investimentos e Participações. Segundo o Coaf, a empresa realizou transações de pelo menos R$ 20 milhões com o Gold Style. Os repasses teriam ocorrido de forma frequente, conforme a inteligência financeira.

A Entre foi apontada como empresa utilizada por Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para transferir dinheiro que seria destinado ao “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro. A produção conta com participação direta de dois filhos do ex-presidente: o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência.

Segundo reportagem do Intercept Brasil, Flávio teria buscado Vorcaro para garantir repasses do então banqueiro no valor de R$ 134 milhões. Teriam sido transferidos R$ 61 milhões, e parte da operação teria ocorrido da Entre Investimentos para o fundo Havengate. Os envolvidos negam irregularidades.

Em nota, o grupo Entre afirmou que suas operações estão em conformidade com as normas e regulamentações do setor financeiro. A empresa disse reforçar compromisso com integridade, transparência e cumprimento da legislação vigente, além de permanecer à disposição das autoridades competentes sempre que necessário.

A conexão com a Entre não demonstra, isoladamente, irregularidade na operação do Gold Style. No entanto, o fato de o fundo administrado pela Reag aparecer em uma rede de transações que envolve empresas, fundos e agentes já citados em diferentes apurações aumenta o escrutínio sobre a estrutura.

Debêntures sigilosas somam R$ 3,6 bilhões

O Gold Style também aparece em transações envolvendo debêntures privadas e sigilosas nas quais a Reag atuou como emissora, escrituradora ou agente fiduciário. Segundo comunicação da B3 ao Coaf, foram identificadas 11 debêntures com valor total de R$ 3,6 bilhões.

Debêntures são títulos de dívida emitidos por empresas para captar recursos. Em operações regulares, investidores compram esses papéis e passam a ter direito a receber remuneração conforme as condições pactuadas. O instrumento é comum no financiamento corporativo, especialmente em projetos de infraestrutura, expansão empresarial e reestruturação financeira.

No caso analisado, porém, as debêntures tinham caráter privado e sigiloso. Isso impede a identificação pública dos participantes envolvidos nas emissões e dificulta a análise externa sobre a origem dos recursos, os beneficiários finais e a justificativa econômica das operações.

De acordo com a comunicação, foram identificados padrões considerados atípicos nas emissões, com características semelhantes de valores, datas e remunerações. Também foram apontadas transações distintas entre fundos e bancos, contratos vencidos e liquidados com valor zero e discrepâncias de preços.

As operações envolveram 12 fundos, entre eles o Gold Style, e três bancos: Master, Pleno e Digimais. O Banco Pleno, ligado ao ex-sócio de Vorcaro Augusto Lima, foi liquidado pelo Banco Central em fevereiro. O Digimais, ligado ao bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, corre risco de liquidação.

B3 diz comunicar indícios de irregularidades ao Coaf

Em nota, a B3 afirmou que envia diariamente discrepâncias, inconsistências ou indícios de irregularidade à BSM, seu braço de autorregulação, e ao Coaf. A prática faz parte dos mecanismos de monitoramento do mercado e busca identificar operações que fujam de padrões esperados.

A comunicação de uma operação ao Coaf não significa, automaticamente, que houve crime. Ela indica que determinada movimentação apresentou características que justificam análise por autoridades competentes. A partir daí, o dado pode ser usado em investigações mais amplas.

No caso das debêntures, a presença da Reag como participante de estruturas privadas e sigilosas aumenta a relevância da apuração. O mercado de capitais depende de confiança, transparência e integridade na prestação de serviços financeiros. Quando surgem suspeitas sobre ativos, preços ou beneficiários, o risco reputacional se espalha por toda a cadeia.

A CVM, o Banco Central, o Coaf e entidades de autorregulação têm papel central na verificação desses casos. A depender do avanço das apurações, podem ser adotadas medidas administrativas, cautelares ou sancionatórias contra instituições e pessoas envolvidas.

Super Empreendimentos e fundo Máxima também aparecem na apuração

Os relatórios do Coaf mostram ainda transações entre fundos usados nas emissões de debêntures, como o Gold Style e o Máxima Fundo de Investimento Multimercado. O Máxima tinha o Banco Master como responsável.

Há também registro de transação de R$ 180 milhões entre o Gold Style e a Super Empreendimentos. Segundo a apuração, a Super funcionava como uma espécie de braço financeiro de Daniel Vorcaro, com bens da família vinculados ao empreendimento.

essa rede de movimentações reforça a suspeita de que fundos, empresas e instituições financeiras tenham sido usados em operações cruzadas, com circulação de recursos entre diferentes estruturas. Para investigadores, esse tipo de desenho pode dificultar a identificação do fluxo real do dinheiro e dos beneficiários finais.

O Banco Master já estava sob investigação por suspeitas envolvendo carteiras de crédito, ativos inflados e operações que teriam mascarado a real situação financeira da instituição. A liquidação pelo Banco Central marcou uma das etapas mais relevantes da crise envolvendo o banco.

A Reag passou a ocupar posição central nesse ambiente porque sua atuação aparece associada a fundos e operações sob análise. A investigação busca apurar se os instrumentos de mercado foram usados de forma regular ou se serviram para sustentar movimentações incompatíveis com a natureza dos ativos.

Caso pressiona fiscalização sobre fundos e fintechs

A presença da Reag em estruturas citadas nos relatórios amplia a pressão sobre a fiscalização de fundos de investimento, fintechs e operações privadas no mercado de capitais. O caso reúne elementos de alto impacto regulatório: suspeita de uso de fintech por facção criminosa, movimentações em FIDCs, debêntures sigilosas e conexão com instituições financeiras liquidadas.

Nos últimos anos, o avanço de fintechs e fundos estruturados ampliou o acesso a crédito e diversificou as fontes de financiamento no país. Ao mesmo tempo, aumentou a complexidade da supervisão sobre fluxos financeiros, beneficiários finais e qualidade dos ativos.

A Operação Carbono Oculto já havia exposto o risco de organizações criminosas usarem empresas formais e estruturas financeiras para lavar dinheiro e ocultar patrimônio. A ligação dessas movimentações com fundos administrados por instituições sob investigação amplia o alcance do problema.

Para investidores, o caso reforça a importância de governança, transparência e controles de risco em fundos de crédito privado. Instrumentos como FIDCs e debêntures podem oferecer alternativas legítimas de investimento e financiamento, mas exigem análise detalhada de lastro, partes relacionadas, concentração de risco e qualidade dos prestadores de serviço.

Reag fica no centro de nova frente de pressão regulatória

A apuração sobre o Gold Style coloca a Reag no centro de uma nova frente de pressão regulatória e investigativa. O fundo administrado pela instituição aparece em transações com a BK Bank, investigada por suspeita de operar para o PCC, com a Aster Petróleo, alvo da Operação Carbono Oculto, com a Entre Investimentos, citada em repasses ligados ao filme “Dark Horse”, e com debêntures privadas e sigilosas que somam R$ 3,6 bilhões.

O caso ainda depende de aprofundamento pelas autoridades. Relatórios do Coaf são instrumentos de inteligência financeira e não substituem denúncia, processo judicial ou condenação. Ainda assim, os dados revelados indicam uma rede de movimentações relevante para o mercado financeiro, para os órgãos de controle e para o debate sobre a supervisão de fundos estruturados.

A amplitude das conexões tende a manter a Reag, o Gold Style e os demais participantes sob escrutínio. A evolução das investigações poderá esclarecer se as operações tinham justificativa econômica regular ou se foram usadas para ocultar beneficiários, mascarar ativos e dificultar o rastreamento de recursos em uma das apurações mais sensíveis envolvendo mercado financeiro, política e crime organizado.

Tags: Aster PetróleoB3Banco MasterBK BankCoafCVMDaniel VorcaroDark HorsedebênturesEntre InvestimentosFlávio BolsonaroGold StyleJair BolsonaroMercado FinanceiroOperação Carbono OcultoPCCPolíticaReagReag Trust

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