A redução da Selic para 14% ao ano começou a retirar o Banco Central de um dos ciclos monetários mais restritivos dos últimos anos, mas está longe de significar dinheiro barato para empresas e consumidores. Os dados mais recentes disponíveis mostram que o Brasil entrou no segundo semestre de 2026 com uma combinação particularmente difícil: famílias altamente endividadas, crédito ao consumidor acima de 60% ao ano, inadimplência elevada e empresas pagando mais para financiar estoques, investimentos e capital de giro.
Essa combinação aparece com força no varejo, setor especialmente dependente de crédito nas duas extremidades da operação. De um lado, empresas precisam financiar estoques e manter caixa até a venda das mercadorias. Do outro, consumidores frequentemente dependem de cartão, crediário e financiamento para comprar móveis, eletrodomésticos e outros bens duráveis.
O pedido de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia (BHIA3) tornou-se o exemplo mais recente desse ambiente, embora os problemas da companhia não possam ser atribuídos exclusivamente à política monetária. No fato relevante em que anunciou o pedido, em 16 de agosto, a própria varejista citou entre os fatores que deterioraram suas condições econômico-financeiras os juros elevados, a restrição de crédito, o aumento do custo financeiro e a pressão sobre consumo e capital de giro. A empresa também mencionou a não concretização de alternativas de liquidez que estavam sendo estruturadas.
O caso expõe uma engrenagem que vai muito além de uma única companhia.
Segundo o Banco Central, a taxa média cobrada no crédito livre às famílias chegou a 64% ao ano em junho. Para empresas, ficou em 24,4% ao ano. A inadimplência do crédito livre atingiu 7,6% entre pessoas físicas e 4% entre empresas.
A diferença entre a Selic de 14% e as taxas efetivamente pagas pelo consumidor ajuda a explicar por que um primeiro corte do juro básico não produz alívio imediato na economia real.
Selic caiu, mas o crédito continua perto de 50% ao ano
O Comitê de Política Monetária reduziu a Selic de 14,25% para 14% ao ano em 5 de agosto. Foi mais uma etapa da flexibilização iniciada após a taxa ter permanecido em 15% durante parte de 2025 e no começo deste ano.
Ainda assim, o Copom classificou a política monetária como restritiva e sinalizou cautela com os próximos movimentos. O Banco Central afirmou que os indicadores apontam para uma moderação gradual da atividade econômica, embora o mercado de trabalho permaneça aquecido, e observou que as expectativas de inflação continuam acima da meta.
No sistema financeiro, a distância entre a Selic e o custo final para quem toma dinheiro permanece enorme.
Em junho, antes da redução mais recente da taxa básica, o juro médio das novas concessões de crédito era de 33,4% ao ano. Considerando apenas operações com recursos livres, a média subia para 49,8%.
Para pessoas físicas, chegava a 64%.
O número é particularmente importante para compreender o comportamento do varejo. O consumidor não compra uma geladeira parcelada à Selic. A taxa básica influencia o custo de captação dos bancos e toda a estrutura de juros da economia, mas o preço final do crédito incorpora também risco de inadimplência, custos administrativos, impostos, margem financeira e características de cada modalidade.
Por isso, mesmo que o Banco Central continue reduzindo a Selic, existe uma defasagem até que o movimento chegue integralmente às prestações pagas por consumidores e empresas.
Famílias nunca estiveram tão endividadas na pesquisa da CNC
Do outro lado do balcão, o quadro também é apertado.
A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, mostrou que 82% das famílias brasileiras possuíam algum tipo de dívida em julho.
Foi o maior percentual da série histórica pelo sexto mês consecutivo.
Em junho, eram 81,6%. Em julho de 2025, 78,5%.
O dado exige uma ressalva importante: família endividada não significa necessariamente família inadimplente. A pesquisa considera compromissos como cartão de crédito, cheque especial, empréstimos, carnês e financiamentos, mesmo que estejam sendo pagos normalmente.
A parcela de famílias com contas em atraso ficou em 29,8%, ligeiramente abaixo dos 29,9% de junho.
O problema está na quantidade de renda que já chega comprometida ao início do mês. Segundo a CNC, os consumidores endividados destinavam, em média, 29,5% do orçamento ao pagamento das dívidas. Entre famílias com renda de até três salários mínimos, 84,9% estavam endividadas e 38,5% tinham contas em atraso.
O cartão de crédito aparece com enorme vantagem como a principal modalidade de endividamento: estava presente em 85,3% das famílias endividadas.
Esse quadro limita a capacidade de assumir novas parcelas justamente quando o varejo depende do financiamento para sustentar a venda de produtos de maior valor.
Banco Central mostra outro retrato do endividamento
Os números do Banco Central parecem, à primeira vista, muito diferentes dos 82% registrados pela CNC, mas medem coisas distintas.
Pela metodologia do BC, o endividamento das famílias correspondia a 49,8% da renda acumulada em 12 meses em maio, enquanto o comprometimento mensal da renda com o serviço das dívidas estava em 28,5%.
Em ambos os casos houve deterioração na comparação anual: o endividamento cresceu 0,9 ponto percentual e o comprometimento da renda avançou 1,3 ponto.
A CNC mede quantas famílias declaram possuir dívidas. O Banco Central mede o tamanho das obrigações financeiras em relação à renda.
Lidos em conjunto, os dois indicadores mostram algo mais relevante do que qualquer um deles isoladamente: mais famílias estão recorrendo ao crédito ao mesmo tempo em que uma parcela maior de sua renda precisa ser direcionada ao pagamento de compromissos financeiros.
Esse é um dos principais canais pelos quais os juros altos atingem o consumo.
A pressão é ainda maior quando as operações antigas precisam ser refinanciadas. Uma família que contraiu dívida quando o custo financeiro era menor pode encontrar condições muito mais caras ao buscar uma renegociação.
Casas Bahia expõe o problema na outra ponta
A recuperação judicial da Casas Bahia não é consequência apenas dos juros.
A companhia atravessa há anos uma reestruturação de seu modelo de negócios e de sua estrutura financeira e já havia realizado operações destinadas a alongar seu passivo. Em janeiro, por exemplo, anunciou a conclusão de uma emissão de debêntures de aproximadamente R$ 2,4 bilhões dentro do plano de transformação de sua estrutura de capital.
O próprio fato relevante da recuperação judicial, entretanto, demonstra que o ambiente macroeconômico passou a fazer parte formal da explicação apresentada pela administração.
A companhia declarou que a deterioração financeira ocorreu em um ambiente de “patamares elevados de taxas de juros, restrição de crédito, aumento do custo financeiro e pressão sobre o consumo e o capital de giro”.
O ponto é importante porque mostra como juros afetam um varejista em diferentes frentes.
Uma companhia pode ter de pagar mais para rolar suas próprias dívidas, enfrentar aumento do custo de capital de giro e, simultaneamente, vender para consumidores com menor capacidade de assumir prestações.
Quanto maior a percepção de risco do tomador, mais caro tende a ficar o crédito, o que pode alimentar um ciclo de deterioração financeira.
Inadimplência empresarial também aumentou
Os números do Banco Central reforçam que o problema não está limitado ao consumidor.
A inadimplência das operações de crédito do Sistema Financeiro Nacional estava em 4,7% em junho, alta de 1 ponto percentual em 12 meses.
Entre pessoas jurídicas, o índice atingiu 3,2% considerando a carteira total. No crédito livre, modalidade mais sensível às condições de mercado, chegou a 4%.
Um ano antes, a inadimplência do crédito livre empresarial estava 0,5 ponto percentual abaixo desse patamar.
Ao mesmo tempo, a taxa média para empresas no crédito livre era de 24,4% ao ano.
Isso significa que uma empresa que já enfrenta redução de margens ou menor geração de caixa encontra uma segunda dificuldade ao buscar financiamento para atravessar o período: o dinheiro necessário para reorganizar o negócio também está caro.
Bets retiram dinheiro que poderia chegar ao consumo
Além dos juros e das dívidas tradicionais, o orçamento das famílias passou a sofrer uma nova disputa.
Estudo da CNC divulgado em abril estima que a expansão das apostas on-line tenha retirado aproximadamente R$ 143 bilhões do varejo entre janeiro de 2023 e março de 2026.
A entidade calcula ainda que cerca de 268 mil famílias tenham sido levadas a uma situação de inadimplência severa associada às apostas.
Os números são estimativas econométricas da própria CNC, e não significam que apostas expliquem sozinhas o recorde de endividamento brasileiro. Eles mostram, porém, uma competição adicional pela renda disponível.
Para setores de bens discricionários, o efeito é direto: dinheiro direcionado a apostas deixa de estar disponível para roupas, celulares, móveis, eletrodomésticos ou para o pagamento das próprias dívidas.
Juros altos também chegam às contas do governo
O problema fecha um círculo quando se observa o setor público.
Em junho, a dívida bruta do governo geral chegou a 81,9% do PIB, ou R$ 10,8 trilhões, segundo o Banco Central. Apenas no primeiro semestre, a relação dívida/PIB aumentou 3,3 pontos percentuais.
O BC calcula que a incorporação dos juros respondeu por 4,9 pontos percentuais de aumento da dívida bruta no ano, parcialmente compensados pelo crescimento nominal da economia e por outros fatores.
Os juros nominais apropriados pelo setor público atingiram R$ 110,7 bilhões apenas em junho. No acumulado de 12 meses, chegaram a R$ 1,160 trilhão, equivalentes a 8,8% do PIB.
Ao mesmo tempo, o setor público consolidado acumulava déficit primário de R$ 157,2 bilhões em 12 meses.
Isso ajuda a explicar por que a discussão fiscal e a monetária estão conectadas.
O próprio Copom afirma acompanhar os efeitos da política fiscal sobre a política monetária e sobre os preços dos ativos.
O Governo Central, pela metodologia do Tesouro Nacional, apresentou déficit primário de R$ 48,2 bilhões em junho, contra R$ 44,2 bilhões no mesmo mês de 2025. No primeiro semestre, o déficit atingiu R$ 92,2 bilhões.
Redução da Selic não resolve o problema de uma vez
O início da queda da Selic abre uma possibilidade de alívio, mas não desfaz rapidamente as condições financeiras construídas durante o ciclo de aperto monetário.
O estoque de dívidas continua existindo. Contratos antigos continuam cobrando juros. Bancos continuam precificando o risco de inadimplência. Empresas ainda precisam refinanciar passivos e consumidores continuam destinando parte relevante da renda às prestações assumidas anteriormente.
Há também uma diferença entre o efeito sobre novas operações e sobre dívidas já contratadas.
Uma sequência de reduções da Selic pode tornar novos empréstimos gradualmente mais baratos e melhorar condições de renegociação. Mas a velocidade desse processo dependerá da inflação, das expectativas, do risco de crédito, das contas públicas e das decisões futuras do Banco Central.
É por isso que uma Selic de 14% pode coexistir com crédito de 64% para famílias.
E é também por isso que o caso Casas Bahia ganha dimensão que ultrapassa a situação particular da varejista.
A companhia possui problemas próprios de estrutura financeira e estratégia empresarial, mas o ambiente em que tenta reorganizar suas dívidas é compartilhado por milhares de empresas e milhões de consumidores: o dinheiro continua caro, o orçamento das famílias está ocupado e o espaço para absorver novos choques diminuiu.
A primeira redução dos juros já ocorreu. O desafio agora é saber quanto tempo será necessário para que ela chegue efetivamente às prestações, ao capital de giro e ao caixa das empresas — e se esse alívio virá antes que a combinação de dívida elevada e inadimplência provoque novos casos de estresse financeiro.









