Flávio Bolsonaro intensifica articulação com mercado financeiro visando 2026
No complexo xadrez que antecede o ciclo eleitoral de 2026, os movimentos nos bastidores de São Paulo indicam uma clara reconfiguração das forças de oposição. O senador e pré-candidato à presidência, Flávio Bolsonaro (PL), iniciou uma ofensiva estratégica para consolidar sua interlocução com a elite do mercado financeiro nacional e internacional. Em um movimento calculado para reduzir arestas e apresentar viabilidade política, Flávio Bolsonaro tem intensificado sua agenda na capital paulista, buscando desfazer resistências e apresentar uma plataforma econômica alinhada ao liberalismo clássico.
A recente agenda de Flávio Bolsonaro em São Paulo não foi um evento isolado, mas parte de um esforço coordenado para testar a temperatura do setor produtivo e bancário em relação ao seu nome. Com a ajuda de aliados estratégicos, o senador busca preencher o vácuo de liderança na direita, posicionando-se como a alternativa natural e, sobretudo, viável, para enfrentar o atual governo nas próximas urnas. A estratégia passa, inevitavelmente, pela Faria Lima.
A Estratégia de Aproximação com o PIB
Nesta terça-feira (20), um encontro discreto, porém significativo, marcou essa nova fase da pré-campanha de Flávio Bolsonaro. O ex-secretário municipal de Desenvolvimento Social de São Paulo, Filipe Sabará, atuou como o principal articulador de uma reunião que congregou representantes de cerca de 20 instituições financeiras de peso. O objetivo foi claro: apresentar as diretrizes e propostas que norteariam um eventual governo liderado pelo filho do ex-presidente.
Segundo apurações de bastidores, a lista de presentes incluiu nomes de alto calibre do sistema financeiro, com executivos de instituições como BTG Pactual, C6 Bank, Itaú BBA e o gigante norte-americano JP Morgan. O local escolhido para o encontro, um restaurante no Itaim Bibi — coração financeiro da Zona Oeste de São Paulo —, serviu de cenário para um almoço que se estendeu por cerca de três horas. Esse tempo dilatado sugere que houve espaço para debates profundos e, possivelmente, questionamentos incisivos por parte dos banqueiros e gestores presentes sobre as reais intenções de Flávio Bolsonaro.
A presença de players globais como o JP Morgan indica que a curiosidade sobre a viabilidade de Flávio Bolsonaro transcende o cenário doméstico. O mercado, avesso a incertezas, busca antecipar cenários. A disposição desses executivos em ouvir o senador do PL demonstra que, apesar das desconfianças pretéritas, há uma porta aberta para o diálogo, desde que as garantias de responsabilidade fiscal e liberdade econômica sejam críveis.
O Legado de Paulo Guedes como Fiador Econômico
Durante o encontro no Itaim Bibi, um dos pontos centrais da inquirição feita pelos agentes financeiros a Filipe Sabará e à equipe de articulação girou em torno da linha econômica a ser adotada. A resposta, desenhada para acalmar os ânimos do mercado, foi a promessa de continuidade. A plataforma de Flávio Bolsonaro pretende emular a doutrina econômica do ex-ministro Paulo Guedes, figura que, apesar das turbulências políticas do governo anterior, mantém o respeito de grande parte do empresariado pela defesa intransigente das privatizações, do controle de gastos e da redução do tamanho do Estado.
Ao vincular seu projeto à “cartilha Guedes”, Flávio Bolsonaro envia um sinal de estabilidade. O mercado financeiro, que teme guinadas populistas ou heterodoxas na economia, vê na figura de Guedes um selo de garantia de que os fundamentos macroeconômicos seriam preservados. No entanto, os questionamentos não se limitaram à teoria. Segundo relatos de um participante, houve cobranças sobre os nomes que comporiam a equipe econômica de um eventual governo de Flávio Bolsonaro. A indefinição atual sobre esses quadros técnicos ainda gera cautela, uma vez que a execução da política econômica depende tanto dos operadores quanto das diretrizes.
Ainda assim, a insistência na manutenção da linha liberal serve para diferenciar Flávio Bolsonaro de outras opções no espectro político que flertam com o desenvolvimentismo estatal. Para o senador, a chave para conquistar o PIB paulista reside em provar que ele é o herdeiro legítimo não apenas do capital político do pai, mas da agenda de reformas econômicas que ficaram pendentes.
A Construção de uma Imagem Moderada
Um dos maiores desafios para a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro é a superação da rejeição e a construção de uma imagem que transite para além da base ideológica radical. Ciente disso, o senador tem trabalhado em um “rebranding” pessoal. Em dezembro, durante outra passagem por São Paulo para reuniões com investidores e empresários, Flávio Bolsonaro descreveu as conversas como “muito positivas.
Mais do que isso, a estratégia de comunicação adotada foi a de se apresentar como uma versão “mais moderada, equilibrada e centrada” de Jair Bolsonaro. Essa autodefinição não é acidental. O mercado financeiro e o eleitorado de centro, decisivos em qualquer pleito majoritário, tendem a rejeitar a retórica de confronto constante. Ao se vender como um “Bolsonaro moderado”, Flávio Bolsonaro tenta capturar o eleitor que aprova a pauta conservadora e liberal, mas reprova o estilo beligerante que marcou a gestão anterior.
Essa moderação, contudo, precisa ser validada por ações. A reunião desta semana foi a segunda agenda de Filipe Sabará com integrantes do mercado sem a presença física de Flávio Bolsonaro — a anterior ocorreu na segunda-feira (12). O uso de interlocutores polidos e com trânsito na elite paulistana, como Sabará, reforça essa tentativa de profissionalizar a articulação política e reduzir o ruído na comunicação com o setor produtivo.
O Fator Tarcísio e a Viabilidade Eleitoral
A análise da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro não pode ser feita sem considerar a figura do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Tarcísio, frequentemente citado como um nome forte para a sucessão presidencial, tem sinalizado um foco cada vez maior em seu projeto de reeleição ao governo estadual. Esse movimento de Tarcísio abre uma avenida para que Flávio Bolsonaro ocupe o espaço de protagonista na corrida ao Planalto pelo campo da direita.
Entretanto, as desconfianças do mercado persistem. Segundo relatos colhidos junto aos participantes do almoço, a dúvida central não é sobre a pauta econômica, mas sobre a “viabilidade eleitoral” de Flávio Bolsonaro. O pragmatismo da Faria Lima exige apostas em cavalos que tenham chances reais de vitória. Diante das declarações de que o senador pretende ir até o fim com sua candidatura, o mercado avalia se ele possui a musculatura necessária para enfrentar a máquina governista federal.
A percepção de viabilidade é influenciada diretamente pelas pesquisas. A primeira sondagem da Quaest para 2026, divulgada na última quarta-feira (14), trouxe dados que animaram o entorno de Flávio Bolsonaro. O senador aparece consolidado em segundo lugar nos cenários que incluem seu nome, firmando-se como o principal nome da oposição no momento. Embora o presidente Lula siga à frente com percentuais que oscilam entre 35% e 40% — dependendo dos adversários —, o desempenho de Flávio Bolsonaro sugere que há um piso sólido de eleitores conservadores fiéis ao sobrenome.
Agenda Internacional: Israel e a Sinalização Ideológica
Enquanto seus aliados costuram apoios na capital financeira do país, Flávio Bolsonaro busca estatura de estadista no exterior. O senador viajou para Israel, dando início oficial às agendas internacionais de sua pré-campanha. A escolha do destino é carregada de simbolismo. Israel representa um ponto de convergência para a base evangélica e conservadora brasileira, pilares de sustentação do bolsonarismo.
A participação de Flávio Bolsonaro em um evento internacional de combate ao antissemitismo serve a múltiplos propósitos. Primeiro, reforça os laços com aliados internacionais da direita global. Segundo, mantém a base ideológica mobilizada em torno de pautas de valores. Terceiro, tenta projetar a imagem de um líder com trânsito internacional, algo que foi ponto de crítica constante durante o governo de seu pai.
Essa dualidade de agenda — pragmatismo econômico em São Paulo e fidelidade ideológica em Israel — demonstra a complexidade da campanha que se desenha. Flávio Bolsonaro precisa caminhar sobre uma linha tênue: agradar ao mercado financeiro, que pede moderação e previsibilidade, sem alienar a base militante que exige posicionamentos firmes em temas culturais e geopolíticos.
O Cenário Competitivo e a Polarização
A consolidação de Flávio Bolsonaro como o nome do PL para a disputa coloca o Brasil novamente diante de um cenário de polarização intensa. Os dados da Quaest mostram que a transferência de votos do ex-presidente para o filho é efetiva, garantindo-lhe a segunda posição imediata. Contudo, o teto eleitoral é uma preocupação. Para vencer, Flávio Bolsonaro precisará furar a bolha.
É nesse contexto que a aproximação com o mercado financeiro se torna vital. O apoio do PIB não traz apenas recursos de campanha, mas confere legitimidade. Se bancos como BTG, Itaú e JP Morgan passarem a considerar Flávio Bolsonaro uma opção “palatável” ou até preferencial em relação ao atual governo, a narrativa de “risco à democracia” ou “instabilidade” perde força nos meios econômicos.
O trabalho de Filipe Sabará e outros aliados é, portanto, de tradução. Eles traduzem os anseios políticos de Flávio Bolsonaro para a linguagem das planilhas e dos dividendos. A promessa de um governo que respeite contratos, privatize estatais e mantenha a disciplina fiscal é a música que os ouvidos do Itaim Bibi querem escutar. Resta saber se o mercado comprará o “cantor” dessa melodia.
Desafios e Perspectivas
A estrada até 2026 é longa e repleta de obstáculos jurídicos e políticos. A “moderação” pregada por Flávio Bolsonaro será testada a cada declaração polêmica de seus aliados ou a cada nova investigação que possa surgir. Além disso, a dependência da decisão final de Tarcísio de Freitas mantém uma nuvem de incerteza. Se o governador de São Paulo mudar de ideia e decidir concorrer ao Planalto, o tabuleiro é zerado. Mas, por ora, com Tarcísio focado no Palácio dos Bandeirantes, o caminho está livre para o senador.
O mercado financeiro, pragmático por natureza, continuará recebendo emissários e participando de almoços. A presença de 20 instituições financeiras na reunião com Sabará prova que Flávio Bolsonaro não pode ser ignorado. Ele é um player real, com capital político herdado e uma estratégia clara de poder.
A transformação de Flávio Bolsonaro em um candidato “viável” aos olhos do capital passa pela manutenção dessa disciplina: menos ruído nas redes sociais, mais conversas a portas fechadas com quem detém o poder econômico. Se ele conseguir manter a imagem de um “Bolsonaro equilibrado” até o início oficial da campanha, a disputa de 2026 poderá ter contornos diferentes do que muitos analistas previam. A aposta do PL é alta, e a movimentação em São Paulo mostra que o jogo já começou.
A Aposta do Mercado
Ao fim e ao cabo, a aproximação de Flávio Bolsonaro com o setor financeiro é um teste de maturidade política. O senador tenta provar que aprendeu com os erros do passado e que possui a envergadura necessária para liderar uma nação dividida. Para o mercado, resta o cálculo de risco e retorno. A promessa de uma economia liberal ao estilo Guedes é tentadora, mas a estabilidade institucional é igualmente valiosa.
O diálogo aberto com instituições como C6 Bank, Itaú BBA e BTG Pactual é apenas o primeiro passo. A consistência dessa interlocução definirá se Flávio Bolsonaro será abraçado pelo establishment econômico ou se será visto apenas como uma ferramenta de pressão política. Com os números da Quaest a seu favor na oposição e uma agenda internacional ativa, Flávio Bolsonaro se coloca, inegavelmente, como a peça central da oposição para o próximo ciclo eleitoral.






