Os bancos brasileiros esperam que a inadimplência continue se deteriorando no terceiro trimestre de 2026, embora em intensidade menor do que a observada entre abril e junho. A avaliação aparece na Pesquisa Trimestral de Condições de Crédito, sondagem realizada pelo Banco Central com instituições que atuam nos principais segmentos do mercado bancário, e coincide com um período em que o Novo Desenrola Brasil tenta ampliar a renegociação de dívidas das famílias.
A leitura prospectiva não representa uma previsão do Banco Central. A autoridade monetária coleta e consolida as respostas das instituições financeiras, que avaliam oferta e demanda por crédito, tolerância ao risco, inadimplência e outros fatores que influenciam concessões. O levantamento funciona, portanto, como um indicador da percepção dos próprios credores sobre os meses seguintes.
Os dados efetivos mais recentes reforçam a razão para a cautela. Em junho, a inadimplência da carteira total do Sistema Financeiro Nacional permaneceu em 4,7%, segundo o Banco Central, mas estava 1 ponto percentual acima do nível registrado 12 meses antes. Entre as pessoas físicas, o percentual chegou a 5,6%, avanço de 1,2 ponto em um ano. Nas empresas, ficou em 3,2%, alta de 0,5 ponto na mesma comparação.
O cenário combina juros ainda elevados, comprometimento de renda das famílias e maior seletividade das instituições na concessão de novos empréstimos. Mesmo após o início da redução da Selic, a taxa básica está em 14% ao ano, patamar que mantém a política monetária em terreno restritivo e continua influenciando o custo das operações oferecidas a consumidores e empresas.
Crédito para consumo enfrenta maior restrição
A maior preocupação aparece no crédito destinado ao consumo das famílias. As instituições financeiras apontaram condições mais restritivas de oferta durante o segundo trimestre e indicaram continuidade dessa postura entre julho e setembro.
Entre os fatores que limitam a concessão estão a evolução da inadimplência e a menor tolerância ao risco. Em termos práticos, uma instituição mais cautelosa pode reduzir limites, exigir melhores garantias, elevar taxas para determinados perfis ou simplesmente negar uma parcela maior das solicitações.
O Banco Central já havia identificado essa tendência na sondagem anterior. No Relatório de Política Monetária de junho, a autoridade registrou que as instituições esperavam condições mais restritivas no segundo trimestre em razão do aumento da inadimplência, da redução da tolerância ao risco e do elevado comprometimento da renda das famílias.
A deterioração do risco ocorreu mesmo com um mercado de trabalho relativamente resistente. Essa combinação é relevante porque emprego e renda normalmente funcionam como amortecedores da inadimplência: famílias empregadas tendem a possuir maior capacidade de continuar pagando suas obrigações.
Dados do IBGE mostraram taxa de desocupação de 5,6% no trimestre encerrado em maio de 2026, abaixo dos 6,2% registrados um ano antes. O rendimento real habitual foi estimado em R$ 3.726, avanço de 4% na comparação anual.
A sustentação do emprego, portanto, reduz parte da pressão, mas não elimina os efeitos acumulados do endividamento e dos juros elevados sobre os orçamentos domésticos.
Juros do crédito livre chegam a 64% ao ano
O custo das novas operações ajuda a explicar essa situação. A taxa média de juros do crédito livre destinado às pessoas físicas alcançou 64% ao ano em junho, segundo o Banco Central.
O percentual aumentou 1,2 ponto no mês e 4,6 pontos em 12 meses. Entre as modalidades que contribuíram para a elevação esteve o crédito pessoal não consignado, cuja taxa média avançou 7 pontos percentuais no período.
O crédito livre reúne operações em que as taxas são definidas pelas próprias instituições a partir do custo de captação, risco do cliente, concorrência, prazo, garantias e outros componentes.
Essas taxas não significam que todos os consumidores paguem 64% ao ano. O número é uma média que combina modalidades e perfis diferentes. Ainda assim, sua evolução fornece uma medida da pressão financeira enfrentada por quem precisa contratar recursos fora das linhas com condições reguladas ou subsidiadas.
O Banco Central também informou que o comprometimento de renda das famílias chegou a 28,5% em maio, aumento de 1,3 ponto percentual em 12 meses. O indicador estima a parcela da renda destinada ao serviço das dívidas bancárias.
Quando o comprometimento sobe, uma parte maior do orçamento precisa ser direcionada ao pagamento das obrigações já assumidas, reduzindo a margem para absorver novas parcelas.
Inadimplência subiu um ponto em 12 meses
O quadro de junho mostra que o problema não está restrito a um único tipo de tomador.
A inadimplência de 4,7% no conjunto do crédito do Sistema Financeiro Nacional ficou estável em relação a maio, mas o aumento de um ponto percentual em 12 meses indica deterioração relevante em horizonte mais longo.
Entre as pessoas físicas, os atrasos acima do limite considerado pelo Banco Central representaram 5,6% da carteira. Nas empresas, 3,2%.
A metodologia da autoridade monetária considera inadimplentes, para esse indicador, as operações com atrasos superiores a 90 dias que ainda não foram baixadas para prejuízo. Quando uma operação parcelada entra nessa condição, o saldo a vencer também passa a integrar o cálculo até que a situação seja regularizada.
O aumento anual ocorre ao mesmo tempo em que o estoque de crédito continua crescendo. Em junho, as operações do SFN somaram R$ 7,4 trilhões, expansão de 0,7% no mês e de 9,7% em 12 meses.
A carteira das pessoas físicas atingiu cerca de R$ 4,6 trilhões, enquanto as operações com empresas chegaram a aproximadamente R$ 2,7 trilhões. Isso mostra que o crédito continua disponível em volume elevado, apesar da deterioração dos indicadores de risco.
As concessões ajustadas sazonalmente, entretanto, diminuíram 0,2% para pessoas físicas em junho, enquanto cresceram 1,4% no segmento empresarial.
Novo Desenrola tenta reorganizar dívidas das famílias
É nesse ambiente que o governo implementou o Novo Desenrola Brasil, instituído pela Medida Provisória nº 1.355, de 4 de maio.
O programa tem como objetivo declarado recompor a capacidade financeira das famílias por meio da renegociação e regularização de dívidas em atraso junto ao sistema financeiro.
Podem participar pessoas com renda mensal de até cinco salários mínimos e operações de crédito contratadas até 31 de janeiro de 2026, desde que os atrasos observem os critérios estabelecidos pelo programa.
Entre as modalidades contempladas estão dívidas relacionadas a cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal.
A renegociação pode envolver descontos sobre o débito original, dependendo do tempo de atraso. Para a nova operação de crédito utilizada na reestruturação, a legislação estabelece juros máximos de 1,99% ao mês, prazo entre 12 e 48 meses e parcela mínima de R$ 50.
O valor da nova operação pode chegar a R$ 15 mil por beneficiário e por instituição financeira. A primeira parcela pode vencer em até 35 dias.
O programa também permite, dentro das regras estabelecidas, utilização de recursos do FGTS para auxiliar na regularização das dívidas.
Prazo de renegociação foi estendido até 31 de agosto
O Ministério da Fazenda prorrogou até 31 de agosto de 2026 o período para oferta e celebração de determinados acordos de reestruturação no Novo Desenrola.
A extensão foi estabelecida pela Portaria MF nº 2.302, publicada em 1º de agosto.
A regra de prorrogação não é irrestrita. Ela se aplica às instituições financeiras que, até 30 de julho, já tivessem realizado pelo menos mil operações de crédito garantidas pelo Fundo de Garantia de Operações no âmbito do programa.
A existência do Desenrola não implica redução imediata dos indicadores agregados de inadimplência. Dívidas precisam ser efetivamente renegociadas e regularizadas para que seus efeitos apareçam nas estatísticas, e a carteira total de crédito permanece sujeita à entrada de novos atrasos.
Além disso, a sondagem das instituições financeiras busca medir expectativas para todo o conjunto do mercado, não apenas para clientes elegíveis ao programa federal.
A própria abrangência do Desenrola possui limites de renda, modalidade, data de contratação e tempo de atraso. Há, portanto, devedores e operações que permanecem fora do universo das renegociações apoiadas pelo programa.
Bancos também veem crédito mais apertado para empresas
A cautela dos bancos não está concentrada apenas nas famílias. As instituições também apontam condições restritivas para o crédito empresarial, especialmente em um ambiente de política monetária ainda apertada.
O custo médio do crédito livre às empresas ficou em 24,4% ao ano em junho, segundo o Banco Central. Embora tenha recuado 0,5 ponto percentual no mês, o nível segue elevado em termos nominais.
Empresas menores tendem a ser mais sensíveis a essa situação porque dependem com maior frequência do sistema bancário para financiar capital de giro, estoques e investimentos.
Para os bancos, uma combinação de custo financeiro alto e menor capacidade de pagamento pode elevar a probabilidade de novos atrasos, o que incentiva critérios mais conservadores na aprovação de empréstimos.
Nas grandes empresas, o acesso ao mercado de capitais pode reduzir parcialmente essa dependência. Companhias com capacidade para emitir debêntures e outros títulos têm fontes adicionais de financiamento, enquanto negócios menores permanecem mais vinculados aos canais tradicionais de crédito.
Selic de 14% mantém pressão sobre o mercado
A política monetária começou a oferecer algum alívio, mas de forma gradual. O Copom reduziu a Selic para 14% ao ano em 5 de agosto, após cortes sucessivos desde o nível de 15% vigente no início de 2026.
O efeito dessas decisões sobre o crédito não ocorre de maneira instantânea. Contratos existentes continuam submetidos às condições originalmente pactuadas, e as novas taxas dependem também dos spreads, riscos de inadimplência, custos operacionais e perfil de cada cliente.
Por isso, uma redução da Selic não se traduz automaticamente em queda equivalente nas taxas pagas pelo consumidor.
O desafio do terceiro trimestre será verificar se a combinação de renegociações, mercado de trabalho ainda resistente e redução gradual dos juros consegue interromper a deterioração do risco de crédito. A primeira fotografia estatística completa desse período virá com os dados de julho do Banco Central, previstos para divulgação em 28 de agosto, enquanto o prazo ampliado para determinados acordos do Novo Desenrola termina três dias depois, em 31 de agosto.
Fontes:
- Banco Central do Brasil — Pesquisa Trimestral de Condições de Crédito — 2026
- Banco Central do Brasil — Estatísticas Monetárias e de Crédito, referência junho de 2026
- Banco Central do Brasil — Taxas de juros básicas: histórico — 5 de agosto de 2026
- Presidência da República — Medida Provisória nº 1.355, que institui o Novo Desenrola Brasil
- Ministério da Fazenda — Legislação do Novo Desenrola Brasil e Portaria MF nº 2.302
- IBGE — PNAD Contínua: taxa de desocupação no trimestre encerrado em maio de 2026










