Brasil e EUA reabrem negociação sobre tarifa de 25%; data da reunião segue em aberto
Contato entre Lula e Donald Trump levou USTR a procurar o governo brasileiro para retomar as conversas; sobretaxas atingem 23,1% das exportações nacionais aos Estados Unidos e podem chegar a 37,5% em parte dos produtos.
Por Eduardo Toscano
Brasil e Estados Unidos vão retomar as negociações de alto nível sobre as tarifas impostas pelo governo de Donald Trump aos produtos brasileiros depois de um novo contato entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Trump. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços confirmou que o representante comercial norte-americano, Jamieson Greer, procurou Brasília para reabrir as conversas e que o ministro Márcio Elias Rosa participará do próximo encontro acompanhado de representantes do Ministério das Relações Exteriores.
A data exata da reunião, entretanto, ainda não foi confirmada oficialmente. A nota divulgada pelo MDIC em 21 de agosto informa que o encontro ocorreria na semana seguinte, mas registra expressamente que o dia seria definido pelas equipes dos dois países. Até esta terça-feira (25), a documentação oficial disponível não estabelecia 31 de agosto como data do encontro.
A retomada ocorre pouco mais de um mês depois de Washington efetivar uma tarifa adicional de 25% sobre uma parcela das importações brasileiras. A medida foi adotada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, ao final de uma investigação conduzida pela administração Trump com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana.
O governo brasileiro contesta as conclusões do processo e tenta negociar a redução ou eliminação das sobretaxas. A abertura de um novo canal político entre Lula e Trump representa, nesse cenário, a primeira oportunidade de negociação de alto nível desde que a tarifa de 25% entrou efetivamente em vigor.
Tarifa de 25% entrou em vigor em julho
O USTR anunciou em 15 de julho a aplicação da tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros. A medida passou a valer em 22 de julho, respeitadas regras de transição para mercadorias que já estavam em trânsito.
Washington justificou a decisão com seis conjuntos de questões analisadas durante a investigação: comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, tarifas consideradas preferenciais pelos Estados Unidos, combate à corrupção, proteção à propriedade intelectual, acesso do etanol norte-americano ao mercado brasileiro e desmatamento ilegal.
O USTR sustenta que determinadas políticas e práticas brasileiras nessas áreas seriam prejudiciais ou restritivas ao comércio dos Estados Unidos. O governo brasileiro rejeita essa avaliação e considera injustificada a aplicação das tarifas.
O processo norte-americano foi iniciado em julho de 2025. Segundo o USTR, houve consultas formais com Brasília em abril de 2026, além de audiências públicas e recebimento de mais de 360 manifestações escritas durante a investigação.
Mesmo ao anunciar a tarifa, Greer deixou aberta a possibilidade de continuidade das negociações com o Brasil.
As conversas entre os dois governos, portanto, nunca foram completamente interrompidas. Antes da imposição efetiva da sobretaxa, Márcio Elias Rosa e Greer haviam participado de uma sequência de reuniões de alto nível.
Em 14 de julho, na quinta reunião dessa natureza desde maio, o governo brasileiro voltou a sustentar que as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos não seriam suficientes para embasar as medidas comerciais.
A diferença agora é que a negociação ocorre depois da entrada em vigor das tarifas.
Sobretaxas atingem 23,1% das exportações brasileiras
O impacto não se limita à tarifa de 25%.
Em 23 de julho, os Estados Unidos adotaram outra medida com base na Seção 301, desta vez relacionada ao combate ao trabalho forçado nas cadeias globais. O Brasil ficou entre as economias submetidas a uma tarifa adicional de 12,5% sobre determinados produtos.
As duas medidas podem se acumular.
Levantamento do MDIC com base no comércio bilateral de 2024 mostra que aproximadamente 23,1% das exportações brasileiras para os Estados Unidos estão sujeitas às novas tarifas decorrentes das investigações da Seção 301.
Desse total, 1,9% das exportações enfrentam exclusivamente a sobretaxa de 25%. O açúcar aparece entre os produtos enquadrados nesse grupo.
Outros 4,7% estão submetidos apenas à tarifa adicional de 12,5%. A relação inclui determinados minérios, pescados, óleos essenciais e produtos feitos de pedra, gesso e materiais semelhantes.
A parcela mais sensível corresponde a 16,5% das exportações brasileiras. Esses produtos estão simultaneamente nas duas listas e, por isso, podem enfrentar uma tarifa adicional acumulada de 37,5%.
Máquinas e equipamentos, tipos de madeira, gorduras e óleos, calçados, móveis e artigos de vestuário aparecem entre os segmentos incluídos nessa situação, segundo o levantamento oficial.
As tarifas da Seção 301 se somam a um ambiente comercial já alterado por medidas setoriais adotadas pelos Estados Unidos com base em outros instrumentos legais.
Mais da metade das vendas ainda está fora das novas sobretaxas
Apesar do alcance das medidas, 52,7% das exportações brasileiras para os Estados Unidos permanecem fora tanto das novas tarifas da Seção 301 quanto das sobretaxas setoriais consideradas pelo levantamento do MDIC.
Essa parcela correspondeu a aproximadamente US$ 21,3 bilhões considerando os valores exportados em 2024.
Entre os produtos que permanecem submetidos apenas às tarifas ordinárias norte-americanas estão café, carnes, aeronaves, suco de laranja, frutas, parte dos produtos químicos, ferro fundido e grande parcela das vendas de celulose.
Outros 24,2% das exportações estão sujeitos a medidas específicas da Seção 232 da legislação dos Estados Unidos, voltadas para determinados setores e aplicadas, em regra, a diferentes fornecedores internacionais.
Essa distribuição torna a negociação mais complexa do que uma discussão sobre uma única alíquota.
Para Brasília, eventual acordo terá de tratar tanto da sobretaxa específica de 25% aplicada ao Brasil quanto das condições comerciais associadas aos temas investigados pelo USTR.
Para Washington, uma eventual redução das tarifas dependerá de respostas brasileiras às reclamações apresentadas no procedimento norte-americano.
Comércio bilateral perdeu força em 2026
A disputa já ocorre em um momento de redução das trocas comerciais entre os dois países.
As exportações brasileiras aos Estados Unidos atingiram US$ 40,4 bilhões em 2024, recorde da série considerada pelo MDIC. Em 2025, o valor recuou para US$ 37,7 bilhões.
A deterioração continuou em 2026.
No primeiro semestre deste ano, o Brasil exportou US$ 17,4 bilhões ao mercado norte-americano, queda de 13% em comparação com o mesmo período de 2025.
A retração foi influenciada, entre outros fatores, pela queda de 30,4% nos embarques de óleos brutos de petróleo e pela redução de 21,7% nas vendas de produtos semiacabados, lingotes e outras formas primárias de ferro ou aço.
A participação dos Estados Unidos no total das exportações brasileiras também diminuiu. No primeiro semestre de 2025, o mercado norte-americano representava 12,1% das vendas externas do Brasil. Um ano depois, essa participação caiu para 9,4%.
As importações brasileiras de produtos norte-americanos também recuaram, levando a corrente de comércio entre os dois países a apresentar redução de 12,8% no primeiro semestre.
As tarifas, portanto, passaram a afetar uma relação comercial que já apresentava perda de dinamismo.
Lula e Trump destravam novo canal político
A retomada das negociações ganhou impulso após a conversa entre Lula e Trump em 21 de agosto.
Depois do telefonema, o MDIC recebeu contato direto de Jamieson Greer propondo a retomada das tratativas. Márcio Elias Rosa e representantes do Itamaraty deverão participar da reunião com o USTR.
O governo brasileiro interpreta a movimentação como abertura de uma nova etapa de diálogo e mantém a posição de buscar uma solução negociada.
A conversa presidencial acrescenta um componente político a tratativas que vinham ocorrendo principalmente entre equipes comerciais e diplomáticas.
Nas reuniões anteriores, os dois lados já discutiam possíveis soluções para os seis temas que compõem a investigação norte-americana. Em julho, Brasil e Estados Unidos reconheceram que seria necessário mais tempo para detalhar propostas e aproximar as posições.
O governo brasileiro argumenta que as políticas questionadas pelos Estados Unidos não justificam a aplicação de sanções tarifárias. O USTR, por sua vez, afirma ter concluído que determinadas práticas brasileiras prejudicam o comércio norte-americano.
O espaço para um acordo dependerá, assim, de concessões capazes de ser apresentadas pelos dois governos sem que nenhum dos lados abandone completamente as posições adotadas durante a investigação.
Etanol e comércio digital estão entre os pontos da mesa
Parte das divergências envolve áreas sensíveis das políticas econômica e regulatória brasileiras.
No etanol, os Estados Unidos questionaram condições de acesso ao mercado brasileiro. O tema possui interesse direto para produtores agrícolas norte-americanos.
No comércio digital e nos serviços de pagamentos eletrônicos, a investigação abordou medidas que Washington considera potencialmente discriminatórias contra empresas dos Estados Unidos.
Propriedade intelectual e políticas de combate à corrupção também aparecem entre os elementos da investigação, assim como acusações relacionadas ao desmatamento ilegal.
O governo brasileiro contestou essas conclusões durante o processo e sustentou que as medidas tarifárias não seriam instrumento adequado para resolver as divergências.
A negociação poderá, portanto, produzir diferentes resultados. Uma solução pode envolver retirada integral de determinadas tarifas, redução das alíquotas, ampliação da lista de produtos excepcionados ou compromissos regulatórios específicos.
Até agora, porém, nenhum acordo desse tipo foi anunciado.
Próxima reunião terá de avançar além do diálogo técnico
O encontro entre Márcio Elias Rosa, representantes do Itamaraty e Jamieson Greer será relevante porque ocorre depois da conclusão formal da investigação e da entrada em vigor das penalidades.
Antes de julho, as reuniões tinham como objetivo evitar ou reduzir a aplicação das medidas que ainda estavam em análise. Agora, a negociação precisa tratar de tarifas já incidentes sobre mercadorias brasileiras.
Há também um custo crescente para empresas exportadoras caso o impasse se prolongue. Produtos submetidos à tarifa acumulada de 37,5% podem perder competitividade no mercado norte-americano ou exigir renegociação de preços entre fabricantes, exportadores, importadores e distribuidores.
O governo brasileiro possui ainda interesse em impedir que a divergência comercial se espalhe para outras áreas da relação bilateral.
Do lado norte-americano, a administração Trump já declarou que permanece aberta a negociações capazes de resolver as questões identificadas na investigação.
A próxima reunião mostrará se o contato presidencial foi suficiente apenas para restabelecer o canal político ou se haverá condições para iniciar a revisão concreta das tarifas. O primeiro ponto ainda pendente é operacional: até esta terça-feira, a data exata do encontro não havia sido formalizada nas comunicações oficiais disponíveis do MDIC e do USTR.









