Impasse em Roma: Justiça italiana adia novamente julgamento sobre a extradição de Carla Zambelli e prolonga crise jurídica
A novela jurídica que envolve o retorno forçado da ex-deputada federal ao Brasil ganhou mais um capítulo de incerteza nesta terça-feira (20/1). A Corte de Apelação de Roma, responsável por analisar o caso, decidiu adiar mais uma vez a audiência que definiria o futuro da extradição de Carla Zambelli. O impasse mantém a ex-parlamentar sob a tutela do judiciário italiano e adia o desfecho de um dos casos mais emblemáticos envolvendo figuras do círculo bolsonarista foragidas no exterior.
A sessão desta terça-feira terminou sem uma conclusão definitiva por parte dos magistrados italianos, frustrando as expectativas das autoridades brasileiras que aguardavam um veredito célere. Este é o quarto adiamento consecutivo no processo de extradição de Carla Zambelli, evidenciando a complexidade dos trâmites internacionais e a estratégia da defesa em prolongar a estadia da ex-deputada em solo europeu. Enquanto o Ministério Público da Itália já manifestou parecer favorável ao envio da ré para o Brasil, as manobras defensivas e a burocracia processual continuam a travar a execução da medida.
O Xadrez Jurídico na Corte de Apelação de Roma
O processo de extradição de Carla Zambelli transformou-se em um verdadeiro campo de batalha técnico e diplomático. Os adiamentos sucessivos não são meros acasos burocráticos, mas reflexos de uma disputa intensa sobre garantias fundamentais e soberania judicial. O primeiro adiamento, recorde-se, foi motivado pela adesão da defesa a uma greve de advogados em Roma. Já os dois seguintes, incluindo o desfecho inconclusivo desta terça-feira, derivam da apresentação de novos documentos e da necessidade de análise aprofundada das provas.
A Corte de Apelação de Roma adota uma postura de cautela extrema. A justiça italiana é historicamente rigorosa em processos de extradição, especialmente quando envolvem cidadãos com dupla nacionalidade — Zambelli possui cidadania italiana — e alegações de perseguição política. Para deferir a extradição de Carla Zambelli, os juízes precisam estar absolutamente convencidos de que os direitos humanos da requerida serão preservados no Brasil e de que o processo original não possui vícios de motivação ideológica.
A defesa da ex-parlamentar explora justamente essas brechas. Ao protocolar novas documentações e questionamentos a cada sessão, os advogados buscam criar uma “dúvida razoável” sobre a segurança de Zambelli no sistema carcerário brasileiro e sobre a imparcialidade do Supremo Tribunal Federal (STF). A estratégia é clara: transformar o julgamento técnico da extradição de Carla Zambelli em um julgamento político sobre a democracia brasileira.
A Atuação do STF e as Garantias de Alexandre de Moraes
Um ponto central neste imbróglio é a comunicação entre o STF e a justiça italiana. A Corte de Roma solicitou, e recebeu, documentos detalhados enviados pelo ministro Alexandre de Moraes, relator dos inquéritos que condenaram a ex-deputada. O objetivo desses documentos é desmontar a tese da defesa e viabilizar a extradição de Carla Zambelli.
Moraes forneceu garantias explícitas sobre as condições de encarceramento. Segundo os autos enviados à Itália, caso a extradição de Carla Zambelli seja confirmada, ela será detida na Penitenciária Feminina do Distrito Federal, conhecida como “Colmeia. O ministro detalhou que a unidade oferece condições de salubridade adequadas, assistência integral às detentas, segurança reforçada, atendimento médico regular e até cursos técnicos. Um dado relevante apresentado pelo magistrado brasileiro é o histórico de estabilidade da unidade: nunca houve registro de rebelião na Colmeia.
Essas informações são cruciais. Na jurisprudência europeia, o risco de tratamento desumano ou degradante é um dos poucos motivos que podem bloquear uma extradição, mesmo quando os crimes são comprovados. Ao assegurar que a Colmeia atende aos padrões internacionais de direitos humanos, o STF tenta remover o principal obstáculo técnico para a extradição de Carla Zambelli. A análise desses documentos enviados por Moraes foi um dos motivos para a Corte italiana estender o prazo de deliberação, visando confrontá-los com as alegações da defesa.
A Estratégia da Defesa: Perseguição e Sistema Carcerário
Do outro lado do balcão, a defesa da ex-deputada joga todas as suas fichas na desqualificação das instituições brasileiras. Para evitar a extradição de Carla Zambelli, seus advogados sustentam duas teses principais: a falência do sistema carcerário brasileiro e a existência de uma perseguição judicial e política (lawfare).
O argumento sobre as prisões brasileiras é recorrente em cortes internacionais. A defesa tenta pintar um cenário de caos e insalubridade generalizada, ignorando as especificidades da Penitenciária Feminina do DF apresentadas por Moraes. No entanto, o ponto mais sensível é a alegação política. Ao afirmar que Zambelli, filiada ao PL e aliada de primeira hora de Jair Bolsonaro, é vítima de uma caçada ideológica, a defesa tenta enquadrar o caso nas exceções previstas nos tratados de extradição, que proíbem a entrega de pessoas perseguidas por suas opiniões políticas.
Contudo, essa narrativa enfrenta a resistência dos fatos jurídicos. O Ministério Público italiano, ao se posicionar a favor da extradição de Carla Zambelli, sinaliza que não vê indícios de crime político, mas sim crimes comuns devidamente tipificados e julgados pela suprema corte de um país democrático. A decisão final dos magistrados romanos dependerá do peso que darão a essa narrativa versus a legalidade estrita dos crimes cometidos.
Os Crimes e a Fuga: O Contexto da Condenação
Para compreender a urgência do pedido de extradição de Carla Zambelli, é necessário revisitar os motivos de sua condenação. A ex-deputada não é procurada por discursos parlamentares, mas por atos concretos contra a fé pública e a segurança. O STF a condenou em dois processos distintos.
O primeiro envolve a invasão aos sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Zambelli foi condenada por atuar em conjunto com o hacker Walter Delgatti Neto para inserir dados falsos no sistema judiciário, incluindo um mandado de prisão falso contra o próprio ministro Alexandre de Moraes. Este crime atenta contra a credibilidade das instituições e a segurança cibernética do Poder Judiciário.
O segundo processo refere-se ao episódio de porte ilegal de arma de fogo e constrangimento ilegal, ocorrido às vésperas das eleições de 2022, quando a então deputada perseguiu um homem armado pelas ruas de São Paulo. A soma dessas condenações resultou na ordem de prisão que motivou sua fuga.
Zambelli deixou o Brasil em junho, utilizando-se de sua dupla cidadania para entrar na Itália. Ela permaneceu foragida por um mês até ser localizada e presa pelas autoridades italianas. A fuga, longe de ajudar, complicou sua situação jurídica, pois demonstra a intenção deliberada de se subtrair à aplicação da lei penal, um fator que pesa a favor da extradição de Carla Zambelli na visão dos promotores.
Cidadania Italiana: Escudo ou Atenuante?
A cidadania italiana de Carla Zambelli é um fator que adiciona complexidade ao caso, mas não garante impunidade automática. Embora a Constituição italiana proíba a extradição de seus cidadãos em muitos casos, existem exceções baseadas em tratados bilaterais e na natureza dos crimes. O Tratado de Extradição entre Brasil e Itália possui cláusulas específicas.
No caso da extradição de Carla Zambelli, o fato de os crimes terem sido cometidos no Brasil, contra instituições brasileiras, enquanto ela exercia função pública no Brasil, fortalece o pedido da PGR e do STF. A justiça italiana tende a colaborar quando não há risco de pena de morte ou tratamento desumano. O precedente do caso de Henrique Pizzolato, que também tinha cidadania e foi extraditado após longa batalha, paira sobre o julgamento. A diferença, e o desafio, é que a defesa de Zambelli tenta politizar o caso de uma maneira que Pizzolato (condenado por corrupção no Mensalão) não conseguiu com a mesma eficácia retórica junto à direita europeia.
Repercussão Política no Brasil
O adiamento da decisão sobre a extradição de Carla Zambelli reverbera fortemente em Brasília. Para o governo e para o Judiciário, o retorno da ex-deputada é uma questão de honra e de afirmação da soberania das decisões do STF. A impunidade de uma figura pública condenada, vivendo livremente na Europa, seria um sinal de fraqueza institucional.
Para o bolsonarismo, o caso é tratado com um misto de solidariedade e distanciamento estratégico. Enquanto a base mais radical adota a narrativa de perseguição, lideranças partidárias do PL observam com cautela, cientes de que os crimes cometidos por Zambelli (especialmente o episódio da arma e o hacker) são difíceis de defender publicamente. A extradição de Carla Zambelli, se concretizada, trará a ex-parlamentar de volta ao noticiário policial, reacendendo debates sobre os atos antidemocráticos e o comportamento da direita radical.
As Condições da Colmeia e o Debate Penitenciário
A discussão sobre a extradição de Carla Zambelli trouxe luz, indiretamente, ao sistema prisional do Distrito Federal. A Penitenciária Feminina (Colmeia) foi apresentada por Moraes como um modelo de segurança e dignidade. A defesa, ao atacar essa instituição, tenta generalizar as falhas do sistema carcerário nacional para um presídio específico.
Este debate é técnico. A justiça italiana não julgará o sistema brasileiro como um todo, mas as condições específicas onde a extraditada ficará. As garantias diplomáticas oferecidas pelo Brasil (de que ela ficará na Colmeia e terá acompanhamento médico) são compromissos de Estado. Se a Itália negar a extradição de Carla Zambelli baseada na desconfiança dessas garantias, isso geraria um incidente diplomático grave, sugerindo que a palavra do Supremo Tribunal Federal brasileiro não tem valor perante a corte romana.
O Papel do Ministério Público Italiano
É fundamental destacar a posição do Ministério Público da Itália. O órgão, que atua como fiscal da lei naquele país, já emitiu parecer favorável à extradição de Carla Zambelli. Isso significa que, para os procuradores italianos, os requisitos legais do tratado foram cumpridos e não há evidências suficientes de perseguição política que justifiquem a recusa.
O fato de os juízes da Corte de Apelação adiarem a decisão não significa necessariamente que discordam do Ministério Público, mas que desejam blindar sua sentença final de quaisquer recursos futuros. Ao analisar exaustivamente cada documento da defesa e do STF, a Corte busca proferir uma decisão inatacável. No entanto, cada dia de atraso é uma vitória tática para a defesa, que ganha tempo para articular apoio político na Europa contra a extradição de Carla Zambelli.
O Que Esperar dos Próximos Passos?
O novo adiamento mantém o caso em suspenso, mas o cerco parece se fechar. A extradição de Carla Zambelli depende agora da análise final dos documentos de Alexandre de Moraes e da capacidade da defesa de provar riscos concretos à integridade da ex-deputada, algo que até o momento se baseia mais em retórica política do que em provas factuais.
A próxima audiência será decisiva. Se a Corte de Apelação de Roma autorizar a entrega, a defesa ainda poderá recorrer à Corte de Cassação (instância suprema italiana), o que pode arrastar o processo por mais alguns meses. Contudo, a análise de mérito feita agora é a mais importante.
O Brasil aguarda. A extradição de Carla Zambelli não é apenas sobre o destino de uma pessoa, mas sobre a capacidade do Estado brasileiro de fazer valer suas leis além-fronteiras e sobre a cooperação internacional no combate a crimes que atentam contra a democracia e a fé pública. Até que os magistrados romanos batam o martelo, a ex-deputada permanece na Itália, entre a cidadania europeia e a condição de foragida da justiça brasileira.









