Petrobras (PETR4), Vibra Energia (VBBR3) e Ultrapar (UGPA3) encerraram o segundo trimestre de 2026 com geração de caixa elevada e redução da alavancagem, apesar de um ambiente doméstico ainda marcado por juros altos. Em análise setorial publicada em 21 de agosto, o BB Investimentos apontou as três companhias como destaques financeiros entre as empresas de petróleo e distribuição de combustíveis acompanhadas pela instituição, com posições de balanço mais confortáveis depois dos resultados do período.
O desempenho ocorreu em um trimestre no qual a taxa Selic permaneceu em níveis restritivos. O Banco Central iniciou abril com a taxa básica em 14,75% ao ano, reduziu-a para 14,50% no fim daquele mês e para 14,25% em junho. Em agosto, já depois do encerramento do trimestre, o Comitê de Política Monetária (Copom) fez novo corte, para 14% ao ano. O custo do dinheiro continuou, portanto, elevado durante praticamente todo o período analisado, ampliando a importância da geração de caixa e da redução de dívida para companhias intensivas em capital.
Na leitura do BB Investimentos, a Petrobras se beneficiou da alta do petróleo e do avanço da produção no pré-sal, enquanto Vibra e Ultrapar capturaram um ambiente mais favorável na distribuição de combustíveis. As duas distribuidoras tiveram expansão das margens de comercialização e foram favorecidas por escala, capacidade logística e alterações nas condições competitivas do setor. Ao mesmo tempo, a instituição ressalta que parte das margens observadas refletiu circunstâncias excepcionais e pode não se repetir no mesmo nível.
Petrobras combina recordes operacionais e forte geração de caixa
A Petrobras registrou lucro líquido de R$ 52,4 bilhões no segundo trimestre, alta de 97% sobre igual período de 2025. O EBITDA ajustado reportado foi de R$ 93,8 bilhões. Excluindo eventos exclusivos, o EBITDA ajustado alcançou R$ 100,6 bilhões, enquanto o lucro líquido sem esses efeitos ficou em R$ 55,8 bilhões.
A melhora foi sustentada principalmente pela operação. A produção própria de petróleo no Brasil chegou a 2,7 milhões de barris por dia, avanço de 15% na comparação anual, e o fator de utilização do parque de refino atingiu 101,2%, recorde trimestral. A produção de derivados ficou em 1,918 milhão de barris por dia, 5,6% acima do primeiro trimestre, com recordes na produção de diesel S10 e querosene de aviação.
O fluxo de caixa operacional atingiu R$ 61,8 bilhões. Na avaliação do BB Investimentos, o fluxo de caixa livre chegou a R$ 38,6 bilhões, avanço de 92,3% sobre o primeiro trimestre. A instituição também destacou a redução da dívida líquida para US$ 60,4 bilhões e a queda da relação de alavancagem para 1,14 vez, ante 1,43 vez três meses antes.
Mesmo com a forte geração de caixa, a companhia manteve um nível elevado de investimentos. Os desembolsos somaram R$ 26,7 bilhões entre abril e junho, dos quais 82% foram destinados à exploração e produção. Entre os projetos em execução estão as unidades P-80, P-82 e P-83, destinadas ao campo de Búzios e com entrada em operação prevista para 2027. A dívida bruta terminou junho em US$ 70,8 bilhões, abaixo do limite de US$ 75 bilhões estabelecido no Plano de Negócios 2026-2030.
Vibra reduz dívida líquida em R$ 2,6 bilhões
Na Vibra Energia, o segundo trimestre foi marcado pela combinação entre crescimento de volumes, expansão de margens e desalavancagem. Segundo o BB Investimentos, a receita líquida ajustada alcançou R$ 57,4 bilhões, crescimento de 26% em um ano, enquanto o EBITDA ajustado subiu 206%, para R$ 4,5 bilhões. O lucro líquido ajustado atingiu R$ 2,3 bilhões, avanço de 365%.
A geração de caixa foi o principal elemento para a melhora do balanço. O fluxo de caixa operacional somou R$ 3,8 bilhões e o fluxo de caixa livre chegou a R$ 3,7 bilhões. A dívida líquida caiu R$ 2,6 bilhões no trimestre, levando a relação entre dívida líquida e EBITDA para 1,3 vez, contra 2 vezes no primeiro trimestre e 2,4 vezes no encerramento de 2025.
A operação de distribuição teve papel central. A margem EBITDA ajustada recorrente alcançou R$ 436 por metro cúbico, crescimento de 40% na comparação trimestral e de 300% na anual. Na rede de postos, os volumes avançaram 6% em um ano, com altas de 8% tanto para gasolina quanto para etanol. A companhia registrou ainda 230 novos embandeiramentos e mais de 100 novos contratos no segmento empresarial durante o trimestre.
O resultado, contudo, veio acompanhado de pontos de atenção. O BB Investimentos destacou crescimento de 17% nas despesas operacionais consolidadas, resultado financeiro ainda negativo e dificuldades no negócio de renováveis, atingido por curtailment de 27,9%. Para a instituição, as margens do trimestre permaneceram acima de níveis normalizados e foram influenciadas pelo desequilíbrio temporário entre oferta e demanda de combustíveis.
Ultrapar leva alavancagem ao menor nível desde 2008
A Ultrapar também encerrou o período com forte expansão dos resultados. A receita líquida avançou 22% em relação ao segundo trimestre de 2025, para R$ 41,5 bilhões, enquanto o lucro líquido chegou a R$ 1,7 bilhão, crescimento de 46%. O EBITDA ajustado aumentou 149% na comparação anual.
A geração de caixa operacional atingiu R$ 4,8 bilhões, recorde para a companhia, favorecida pelo crescimento das margens e pela liberação de capital de giro na Ipiranga. Com isso, a relação dívida líquida sobre EBITDA caiu para 0,9 vez, ante 1,5 vez no primeiro trimestre e 1,9 vez um ano antes. Segundo o BB Investimentos, trata-se do menor nível de alavancagem da Ultrapar desde 2008.
A Ipiranga concentrou a maior parte do avanço. Os volumes vendidos cresceram 8% em um ano, com alta de 10% no diesel e de 6% no ciclo Otto. A receita da operação subiu 24%, para R$ 37,5 bilhões, e o EBITDA ajustado avançou 131%, para R$ 2,7 bilhões. A margem chegou a R$ 449 por metro cúbico, 63% acima dos R$ 275 registrados no primeiro trimestre.
Nem todos os negócios avançaram no mesmo ritmo. A Ultragaz teve queda de 3% nos volumes, embora o EBITDA ajustado tenha crescido 6%, para R$ 468 milhões. Na Ultracargo, o volume faturado aumentou 19% em um ano e o EBITDA ajustado subiu 13%, para R$ 159 milhões. A Hidrovias do Brasil, por sua vez, registrou redução de 14% no volume total movimentado e queda de 8% no EBITDA ajustado recorrente, para R$ 322 milhões.
Caixa também abre espaço para remuneração aos acionistas
A melhora operacional e financeira teve reflexos sobre a distribuição de recursos aos investidores. O conselho de administração da Petrobras aprovou R$ 17,4 bilhões em remuneração aos acionistas, equivalentes a R$ 1,34814262 por ação ordinária ou preferencial em circulação. O pagamento será realizado em duas parcelas, em novembro e dezembro de 2026, combinando juros sobre capital próprio e dividendos.
Na Vibra, foram aprovados R$ 499,4 milhões em juros sobre capital próprio, equivalentes a R$ 0,4174 por ação. Com a nova distribuição, os proventos anunciados pela companhia relativos ao primeiro semestre chegaram a R$ 952 milhões. O movimento ocorreu simultaneamente à redução do endividamento, o que preservou maior flexibilidade financeira mesmo com a remuneração aos acionistas.
A Ultrapar anunciou R$ 1,1 bilhão em dividendos referentes ao primeiro semestre, equivalentes a R$ 1 por ação, além de um programa de recompra de até 18 milhões de papéis. Para o BB Investimentos, a combinação entre remuneração aos acionistas, recompra e queda da alavancagem refletiu a forte geração de caixa registrada no período.
Juros ainda altos tornam desalavancagem mais relevante
A melhora financeira das três companhias ganha peso adicional diante do nível da Selic. Durante o segundo trimestre, a taxa básica permaneceu entre 14,75% e 14,25% ao ano, patamar que encarece novas captações e aumenta o custo de passivos vinculados às taxas domésticas. Mesmo após o corte de agosto, para 14%, o Banco Central manteve a política monetária em terreno restritivo.
Nesse ambiente, a redução da dívida líquida aumenta a capacidade das empresas de absorver oscilações operacionais e financiar investimentos. Petrobras, Vibra e Ultrapar chegaram ao fim do trimestre com indicadores de alavancagem menores, mas por razões distintas: a Petrobras combinou produção recorde e preços mais elevados do petróleo; as distribuidoras capturaram margens excepcionalmente fortes e condições competitivas mais favoráveis.
O principal risco apontado pelo BB Investimentos está na duração dessas condições. No caso de Vibra e Ultrapar, a instituição avalia que a volatilidade internacional dos derivados e as restrições de oferta favoreceram companhias de maior escala e capacidade logística, mas considera que as margens observadas ficaram acima de níveis normalizados. Uma estabilização do mercado pode retirar parte desse benefício nos próximos trimestres.
Ainda assim, os números do segundo trimestre deixaram as três companhias em posição financeira mais sólida para enfrentar uma eventual normalização das margens. A Petrobras terminou junho com dívida bruta abaixo do teto previsto em seu plano de negócios; a Vibra reduziu a alavancagem em 0,7 ponto no trimestre; e a Ultrapar alcançou sua menor relação entre dívida líquida e EBITDA desde 2008. A próxima rodada de resultados mostrará quanto desse avanço operacional e financeiro poderá ser preservado com a acomodação do mercado de combustíveis e a continuidade do ciclo de redução dos juros.









