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Focus eleva inflação para 5,04% em 2026 e mantém Selic em 13,25%

Mercado financeiro aumenta projeção para o IPCA pela 11ª semana seguida, reduz estimativa para o dólar e vê crescimento ligeiramente maior do PIB em 2026.

por Camila Braga - Repórter de Economia
25/05/2026 às 13h48
em Economia, Destaque, Notícias
Selic - Boletim Focus - Gazeta Mercantil

O mercado financeiro voltou a elevar a projeção para a inflação brasileira em 2026, reforçando a leitura de que a convergência dos preços para a meta segue mais lenta do que o esperado pelo Banco Central. Dados do Relatório Focus divulgados nesta segunda-feira mostram que a mediana das estimativas para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA, subiu de 4,92% para 5,04%, na 11ª alta consecutiva, enquanto a previsão para a taxa Selic foi mantida em 13,25% ao ano no fim do próximo ano.

O levantamento semanal do Banco Central, que reúne projeções de instituições financeiras, consultorias e agentes do mercado, também apontou queda na expectativa para o dólar em 2026, de R$ 5,20 para R$ 5,17. Já a estimativa para o crescimento do Produto Interno Bruto, o PIB, avançou levemente, de 1,85% para 1,89%.

A nova rodada do Relatório Focus reforça um ambiente de cautela para investidores, empresas e formuladores de política econômica. A inflação projetada para 2026 segue distante do centro da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional, atualmente em 3%, o que aumenta a pressão sobre o Banco Central para manter juros elevados por mais tempo.

IPCA se afasta da meta pelo Focus

A alta da projeção do IPCA para 5,04% em 2026 amplia a distância entre as expectativas do mercado e o objetivo perseguido pelo Banco Central. Há quatro semanas, a estimativa estava em 4,86%, o que evidencia deterioração contínua das projeções inflacionárias.

A sequência de revisões para cima no Relatório Focus sugere que analistas passaram a enxergar maior persistência nos preços, mesmo após um período prolongado de política monetária restritiva. O movimento é acompanhado de perto pelo Comitê de Política Monetária, o Copom, porque expectativas desancoradas podem dificultar a queda efetiva da inflação.

Quando empresas, consumidores e investidores passam a trabalhar com inflação mais alta por mais tempo, contratos, reajustes e decisões de investimento tendem a incorporar esse cenário. Isso torna o processo de convergência mais difícil e pode exigir juros elevados por período maior.

Para 2027, a mediana das projeções para o IPCA também subiu, de 4,00% para 4,01%. Para 2028, a estimativa permaneceu em 3,65%, enquanto a projeção para 2029 ficou estável em 3,50%. Ainda que os números de prazo mais longo estejam abaixo da estimativa de 2026, continuam acima do centro da meta.

Preços administrados reforçam pressão inflacionária

O Relatório Focus também mostrou piora nas projeções para preços administrados, grupo que inclui itens como combustíveis, energia elétrica, transporte público e tarifas com influência direta ou indireta do setor público.

A estimativa para preços administrados em 2026 passou de 4,93% para 4,99%. Para 2027, a projeção avançou de 3,80% para 3,81%. Esses itens têm peso relevante na inflação oficial e costumam influenciar a leitura do Banco Central sobre riscos futuros.

A pressão dos administrados é sensível porque pode se espalhar por diferentes cadeias de custos. Combustíveis mais caros afetam frete, transporte urbano, logística e preços de alimentos. Energia elétrica pressiona empresas, famílias e setores produtivos intensivos em consumo energético.

Outro indicador acompanhado pelo mercado também piorou. A projeção para o Índice Geral de Preços – Mercado, o IGP-M, subiu de 5,63% para 5,91% em 2026, na 12ª alta consecutiva. O índice é usado em contratos de aluguel, reajustes empresariais e acordos de prestação de serviços, o que amplia seu efeito sobre consumidores e companhias.

A combinação de IPCA mais alto, preços administrados pressionados e IGP-M em alta reforça a percepção de que o quadro inflacionário ainda exige cautela.

Selic permanece em 13,25% ao fim de 2026

Apesar da piora nas expectativas para a inflação, o mercado manteve a projeção para a taxa Selic em 13,25% ao ano no fim de 2026. A estabilidade da estimativa indica que os analistas ainda não incorporam novas altas expressivas da taxa básica, mas também não veem espaço para cortes relevantes no curto prazo.

Há quatro semanas, a previsão para a Selic ao fim de 2026 estava em 13% ao ano. A mudança recente para 13,25% mostra que o mercado passou a precificar um ambiente monetário mais restritivo diante da resistência da inflação.

Para 2027, a mediana das projeções permaneceu em 11,25% ao ano. Para 2028 e 2029, as estimativas seguiram em 10%. Mesmo no horizonte mais longo, o patamar projetado indica juros reais elevados no Brasil.

Juros altos afetam diretamente o custo do crédito, o consumo das famílias e o investimento das empresas. Setores como varejo, construção civil, mercado imobiliário, bens duráveis e indústria tendem a sentir de forma mais intensa os efeitos de uma Selic elevada.

Na Bolsa, a perspectiva de juros altos por mais tempo reduz o apetite por ações de crescimento e aumenta a atratividade da renda fixa. Empresas endividadas também ficam mais pressionadas por despesas financeiras, o que pode afetar margens e lucro líquido.

Dólar recua nas projeções do mercado

Na direção oposta da inflação, a projeção para o dólar caiu no Relatório Focus. A mediana das estimativas para 2026 passou de R$ 5,20 para R$ 5,17. Há quatro semanas, a expectativa estava em R$ 5,25.

Para 2027, a previsão recuou de R$ 5,27 para R$ 5,26. Em 2028, a estimativa caiu de R$ 5,34 para R$ 5,30. Para 2029, o mercado manteve a projeção em R$ 5,40.

A revisão para baixo pode refletir a combinação de juros domésticos elevados, diferencial favorável ao Brasil em relação a outras economias e fluxo estrangeiro para mercados emergentes. Juros mais altos tendem a sustentar operações de carregamento, nas quais investidores buscam retorno em moedas de países com taxas elevadas.

Um dólar menos pressionado ajuda a aliviar parte da inflação, especialmente em produtos importados, insumos industriais, combustíveis e componentes dolarizados da cadeia produtiva. Ainda assim, o câmbio segue sensível a fatores externos, como decisões do Federal Reserve, tensões geopolíticas e preços de commodities.

Para empresas listadas na B3, o efeito do câmbio é desigual. Exportadoras com receitas em dólar, como Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3), podem ter parte da receita afetada por um real mais forte. Companhias dependentes de importações ou insumos externos, por outro lado, tendem a se beneficiar de uma moeda americana mais comportada.

PIB melhora, mas crescimento segue limitado

O Relatório Focus também trouxe leve melhora na projeção para o PIB de 2026. A mediana passou de 1,85% para 1,89%, sinalizando avaliação marginalmente mais positiva sobre a atividade econômica.

Apesar da revisão, o crescimento esperado continua moderado. A economia brasileira ainda convive com crédito caro, juros elevados, inflação acima da meta e incertezas fiscais, fatores que limitam uma expansão mais forte.

Para 2027, a projeção do PIB recuou de 1,77% para 1,70%. Já as estimativas para 2028 e 2029 permaneceram em 2%. Os números indicam expectativa de crescimento contido no médio prazo, sem aceleração expressiva da atividade.

O consumo das famílias segue como um dos principais sustentadores da economia, apoiado por mercado de trabalho resiliente e renda em circulação. O agronegócio também continua relevante, embora dependa de clima, preços internacionais, câmbio e demanda global.

Ao mesmo tempo, o custo elevado do dinheiro dificulta investimentos produtivos e compras financiadas. Veículos, imóveis, máquinas, equipamentos e bens de maior valor tendem a sofrer mais em um ambiente de Selic alta.

Focus aumenta cautela na Bolsa e na renda fixa

Os dados do Relatório Focus têm impacto direto sobre decisões de investimento. Inflação mais alta e Selic elevada alteram o preço dos ativos, a curva futura de juros, a atratividade da renda fixa e o apetite por ações.

Com a projeção do IPCA acima da meta e a Selic estimada em 13,25% no fim de 2026, investidores tendem a exigir prêmios maiores para assumir risco. Títulos públicos e privados de renda fixa continuam competitivos, especialmente em um cenário de juros reais elevados.

Na renda variável, empresas sensíveis ao ciclo econômico podem enfrentar ambiente mais desafiador. Varejistas, construtoras, incorporadoras e companhias de consumo discricionário tendem a reagir negativamente à percepção de crédito caro por mais tempo.

Bancos e seguradoras podem ter desempenho mais resiliente em determinadas fases de juros elevados, mas também ficam expostos à inadimplência e à desaceleração da concessão de crédito. O efeito líquido depende da qualidade da carteira, do custo de captação e da capacidade de preservar margens.

A curva futura de juros também deve seguir sensível às próximas leituras de inflação, aos sinais fiscais do governo e às comunicações do Banco Central.

Banco Central segue pressionado por expectativas

A sequência de altas nas projeções inflacionárias coloca o Banco Central novamente no centro das atenções do mercado. A autoridade monetária tem reiterado que seguirá vigilante diante dos riscos para a convergência da inflação à meta.

A deterioração das expectativas aumenta a importância da comunicação do Copom. Mensagens consideradas firmes tendem a reforçar a percepção de compromisso com a meta. Sinais de tolerância maior com inflação acima do objetivo, por outro lado, podem pressionar juros futuros e câmbio.

O quadro fiscal continua entre os principais fatores de preocupação. Para o mercado, dúvidas sobre a sustentabilidade das contas públicas elevam prêmios de risco, afetam a curva de juros e dificultam o trabalho da política monetária.

Fatores externos também seguem no radar. Decisões do Federal Reserve, comportamento dos Treasuries, preços de petróleo e minério de ferro, tensões geopolíticas e fluxo global para emergentes podem alterar rapidamente as projeções para dólar, inflação e atividade.

Inflação resistente mantém política monetária no centro do mercado

A nova edição do Relatório Focus reforça a leitura de que o cenário macroeconômico brasileiro continua marcado por inflação acima da meta, juros elevados, crescimento moderado e câmbio menos pressionado.

A alta do IPCA projetado para 5,04% em 2026 amplia o desafio do Banco Central, enquanto a manutenção da Selic em 13,25% indica que o mercado ainda vê necessidade de política monetária restritiva por período prolongado.

Ao mesmo tempo, a queda na projeção do dólar oferece algum alívio para os preços, e a leve melhora do PIB mostra resiliência da atividade. O conjunto dos dados, porém, mantém o mercado financeiro em posição cautelosa, com atenção concentrada na inflação, na política fiscal e nas próximas decisões do Copom.

Tags: Banco CentralBolsaCopomDólarEconomiaeconomia brasileiraFocusIGP-MinflaçãoIPCAjurosMercado FinanceiroPIBpreços administradosRelatório Focusrenda fixaSelic

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