A inclusão do etanol na investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos contra o Brasil reacendeu uma disputa antiga sobre tarifas, acesso a mercado e competitividade entre os dois maiores produtores globais do biocombustível. O tema ganhou força depois que Washington passou a questionar a alíquota de 18% aplicada pelo Brasil ao etanol de milho norte-americano, enquanto o etanol de cana brasileiro entra no mercado dos EUA com tarifa de 2,5%, em um cenário que pode abrir espaço para uma nova rodada de negociação comercial entre os dois países.
A avaliação foi feita por Sérgio Araújo, presidente executivo da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis, a Abicom, ao Times Brasil. Segundo ele, a presença do etanol na investigação norte-americana está mais ligada à pressão política de produtores dos Estados Unidos do que a uma ameaça imediata ao setor sucroenergético brasileiro.
“Existe de fato um desequilíbrio nessa relação comercial”, afirmou Araújo. Para o executivo, o presidente norte-americano Donald Trump usa o tema para sinalizar apoio a produtores de etanol de milho, segmento com peso econômico e político relevante nos Estados Unidos.
A disputa ocorre em meio à investigação aberta por Washington contra práticas comerciais brasileiras, com base na Seção 301 da legislação dos EUA. O instrumento permite ao governo norte-americano adotar medidas de retaliação quando entende que políticas de outro país prejudicam empresas, exportadores ou interesses comerciais dos Estados Unidos.
Tarifa de 18% está no centro da pressão norte-americana
O ponto central da reclamação dos Estados Unidos é a diferença entre as tarifas aplicadas pelos dois países. Hoje, o etanol de milho produzido nos EUA enfrenta uma alíquota de importação de 18% para entrar no mercado brasileiro. Já o etanol de cana exportado pelo Brasil aos Estados Unidos paga 2,5%.
Na leitura de Washington, essa assimetria reduz a competitividade do produto norte-americano no Brasil e limita o acesso dos produtores dos EUA a um dos maiores mercados consumidores de combustíveis renováveis do mundo.
Para os produtores norte-americanos, o Brasil é um mercado estratégico por causa da mistura obrigatória de etanol anidro à gasolina. A demanda brasileira por biocombustíveis é estrutural e deriva de uma política energética consolidada ao longo de décadas.
O etanol americano, produzido majoritariamente a partir do milho, já teve participação mais relevante no abastecimento brasileiro. Esse fluxo ocorria principalmente em períodos de entressafra da cana-de-açúcar nas regiões Sul e Sudeste, quando a oferta doméstica ficava mais apertada e a importação podia complementar o mercado.
Segundo Araújo, esse produto chegava ao Brasil com custo competitivo em momentos de maior necessidade de oferta. O aumento tarifário, no entanto, reduziu a atratividade econômica do etanol norte-americano.
Disputa tem componente político nos Estados Unidos
A pressão sobre o etanol não pode ser analisada apenas pela ótica comercial. Nos Estados Unidos, o setor de etanol de milho tem forte influência política, especialmente em estados agrícolas relevantes para a base eleitoral republicana.
Produtores rurais, usinas de milho e entidades ligadas ao agronegócio norte-americano têm interesse em ampliar mercados externos para o biocombustível. O Brasil, por sua escala de consumo e por sua política de mistura obrigatória à gasolina, aparece como destino natural.
Na análise da Gazeta Mercantil, a inclusão do etanol na investigação contra o Brasil também funciona como sinal político interno nos Estados Unidos. Ao cobrar maior abertura do mercado brasileiro, Trump atende a uma pauta sensível para produtores agrícolas norte-americanos, ao mesmo tempo em que reforça sua agenda de defesa comercial.
A discussão ocorre em um ambiente mais amplo de tensão entre Brasília e Washington. A investigação norte-americana não se limita ao etanol. O relatório dos EUA também aborda temas como Pix, propriedade intelectual, plataformas digitais, patentes, combate à pirataria, meio ambiente e decisões judiciais.
Ainda assim, o etanol tem peso próprio porque envolve uma cadeia com forte presença nos dois países e uma relação comercial que combina competição, complementaridade e disputa por acesso a mercado.
Brasil ficou menos dependente da importação de etanol
Apesar da pressão dos EUA, o impacto direto sobre o setor brasileiro tende a ser limitado no curto prazo. Isso ocorre porque o Brasil ampliou sua capacidade interna de produção, especialmente com o avanço do etanol de milho.
Nos últimos anos, o país deixou de depender exclusivamente da cana-de-açúcar para expandir a oferta de etanol. A produção a partir do milho ganhou espaço no Centro-Oeste e começa a avançar para outras regiões, como Bahia e Maranhão.
Esse movimento altera a dinâmica do mercado. Se antes a importação do etanol norte-americano era importante para complementar a oferta em determinados períodos, a expansão da produção doméstica reduz a necessidade de compras externas.
Araújo destacou que novas unidades de produção de etanol de milho no Brasil diminuem gradualmente a dependência de importações. A tendência é que o país se torne mais autossuficiente nessa frente, com capacidade de atender parte maior da demanda interna mesmo fora dos picos de produção da cana.
Esse avanço também fortalece a posição brasileira em eventual negociação. Um país menos dependente da importação tem maior margem para discutir tarifas, cotas e condições comerciais sem pressionar imediatamente seu abastecimento.
Mercado interno absorve 95% da produção nacional
Outro fator que reduz a vulnerabilidade do setor brasileiro é o peso do mercado doméstico. Segundo Araújo, cerca de 95% da produção nacional de etanol é consumida internamente.
Esse dado é relevante porque mostra que o setor sucroenergético brasileiro não depende majoritariamente das exportações aos Estados Unidos para sustentar sua operação. O consumo interno é o principal destino da produção, impulsionado pela frota flex, pela mistura obrigatória à gasolina e pela demanda por combustíveis renováveis.
Em 2025, o Brasil importou aproximadamente 320 milhões de litros de etanol dos Estados Unidos e exportou cerca de 380 milhões de litros de etanol de cana para o mercado norte-americano. Em volume, os fluxos comerciais foram relativamente equilibrados.
Essa relação mostra que a disputa não envolve uma dependência unilateral. Brasil e Estados Unidos compram e vendem etanol entre si, ainda que com bases produtivas diferentes e regimes tarifários distintos.
O Brasil tem vantagem histórica no etanol de cana, enquanto os Estados Unidos lideram a produção de etanol de milho. As duas cadeias competem, mas também podem se complementar em momentos específicos de oferta, preço e demanda.
Etanol de milho dos EUA abastece mistura da gasolina
O etanol de milho importado dos Estados Unidos pode ser utilizado normalmente na cadeia de combustíveis brasileira. Segundo Araújo, o produto funciona de forma semelhante ao etanol anidro produzido a partir da cana-de-açúcar.
O etanol anidro é destinado à mistura obrigatória na gasolina vendida ao consumidor. Atualmente, a gasolina comercializada nos postos contém 70% de gasolina fóssil e 30% de etanol anidro.
Essa proporção pode ser atendida tanto por etanol de cana quanto por etanol de milho. O consumidor final não compra o etanol de milho norte-americano como combustível puro, mas ele pode entrar na composição da gasolina.
A distinção é importante para entender o impacto da tarifa. Quando o etanol importado perde competitividade, o efeito aparece na composição de custos da cadeia de combustíveis e na disponibilidade de oferta para mistura, e não necessariamente em um produto vendido isoladamente ao consumidor.
Em períodos de menor produção doméstica, a importação pode ajudar a equilibrar o mercado. Com a tarifa de 18%, porém, o produto norte-americano se torna menos competitivo frente à produção nacional.
Negociação pode envolver tarifas e acesso a mercado
A presença do etanol na investigação norte-americana pode abrir caminho para uma negociação comercial mais ampla entre Brasil e Estados Unidos. O tema pode ser tratado em conjunto com outras pautas de interesse bilateral, incluindo tarifas, biocombustíveis, sustentabilidade e cadeias agrícolas.
Araújo avalia que a situação também pode ser vista como oportunidade para colocar o problema na mesa e discutir soluções. A diferença tarifária é real, mas o impacto concreto depende da evolução da investigação, da posição do governo brasileiro e da disposição de Washington para negociar.
Uma eventual negociação poderia abordar redução de tarifas, criação de cotas, regras de reciprocidade ou acordos específicos para períodos de maior necessidade de abastecimento.
Para o Brasil, qualquer mudança precisaria levar em conta os interesses dos produtores nacionais de etanol, tanto de cana quanto de milho. A abertura maior ao produto norte-americano pode pressionar preços internos em alguns momentos, mas também pode ampliar a flexibilidade de abastecimento.
Para os Estados Unidos, o objetivo seria recuperar competitividade no mercado brasileiro e atender a uma demanda antiga dos produtores de etanol de milho.
Setor sucroenergético acompanha riscos com cautela
Embora o risco imediato pareça limitado, o setor brasileiro tende a acompanhar o tema com cautela. A investigação comercial dos EUA pode gerar desdobramentos tarifários mais amplos e afetar setores diferentes da economia brasileira.
No caso do etanol, o ponto de atenção é saber se a reclamação norte-americana resultará apenas em pressão diplomática ou se será usada como base para medidas concretas contra produtos brasileiros.
Até o momento, as propostas norte-americanas seguem em fase de consulta pública e dependem de decisões posteriores das autoridades dos Estados Unidos. Esse calendário dá tempo para manifestações de empresas, associações e representantes dos governos envolvidos.
Para o Brasil, será importante demonstrar que sua política tarifária tem fundamentos econômicos e setoriais, além de defender a relevância da cadeia nacional de biocombustíveis.
O setor sucroenergético também poderá argumentar que o mercado brasileiro é aberto a importações, embora sujeito a tarifas, e que o crescimento do etanol de milho doméstico reflete investimento produtivo local, não necessariamente restrição artificial ao produto norte-americano.
Avanço do etanol de milho muda equilíbrio no Brasil
A expansão do etanol de milho no Brasil é um dos fatores mais relevantes para entender a nova fase do mercado. O país, tradicionalmente associado ao etanol de cana, passou a desenvolver uma segunda base produtiva.
Esse avanço tem impacto estratégico. A produção de etanol de milho pode complementar a oferta durante a entressafra da cana, reduzir oscilações regionais e aumentar a segurança energética.
A interiorização de plantas industriais também movimenta economias regionais, amplia a demanda por milho e cria novas cadeias de valor ligadas a coprodutos, logística e geração de energia.
Com unidades avançando para novos estados, o Brasil reduz sua exposição à importação e fortalece sua capacidade de atender o consumo interno. Essa mudança tende a pesar nas negociações com os Estados Unidos, porque altera o argumento de necessidade de abastecimento externo.
Ao mesmo tempo, o crescimento do etanol de milho brasileiro coloca o país em competição mais direta com os produtores norte-americanos. A disputa deixa de ser apenas entre etanol de cana brasileiro e etanol de milho dos EUA, passando a envolver também produtores brasileiros de milho.
Biocombustível vira peça da disputa comercial Brasil-EUA
A discussão sobre etanol mostra como biocombustíveis passaram a ocupar espaço relevante nas disputas comerciais internacionais. O tema envolve energia, agricultura, clima, indústria, segurança de abastecimento e política tarifária.
Brasil e Estados Unidos têm interesses comuns na defesa dos biocombustíveis como alternativa de menor emissão em relação aos combustíveis fósseis. Mas também competem por mercados, tecnologia, padrões regulatórios e vantagens comerciais.
A investigação norte-americana coloca essa tensão em evidência. O etanol aparece como pauta setorial, mas também como parte de uma agenda maior de pressão dos EUA sobre políticas brasileiras.
Para o governo brasileiro, o desafio será evitar que a discussão tarifária comprometa a competitividade da cadeia nacional. Para Washington, a meta é ampliar espaço para seus produtores e reduzir o que considera uma assimetria no acesso ao mercado.
A disputa ainda está em fase inicial e os impactos concretos dependem das próximas decisões dos Estados Unidos. Por enquanto, a inclusão do etanol na investigação aumenta a pressão sobre Brasília, mas também abre uma janela de negociação entre os dois países.










