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Acordo Mercosul União Europeia: Ursula vê apoio para aprovação apesar do adiamento

por Henrique Valverde - Repórter de Política e Economia
19/12/2025 às 09h29 - Atualizado em 15/05/2026 às 16h58
em Política, Destaque, Notícias
Acordo Mercosul União Europeia: Ursula Vê Apoio Para Aprovação Apesar Do Adiamento - Gazeta Mercsantil

Após adiamento, Ursula von der Leyen afirma que maioria dos países votará pela aprovação do acordo Mercosul União Europeia

O acordo Mercosul União Europeia voltou ao centro do debate político e econômico internacional após a confirmação de que sua assinatura foi adiada para 2025. Mesmo diante das resistências internas e das pressões de setores estratégicos, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou haver apoio suficiente entre os Estados-membros para que o tratado seja aprovado. A declaração reacende expectativas em torno de um dos pactos comerciais mais ambiciosos já negociados no cenário global, fruto de mais de duas décadas de tratativas entre os dois blocos.

A sinalização positiva da liderança europeia ocorre em um momento de forte tensão política dentro da União Europeia, especialmente por conta das críticas do setor agrícola e do avanço de protestos em capitais do continente. Ainda assim, a Comissão Europeia sustenta que o acordo Mercosul União Europeia permanece estratégico para o futuro econômico do bloco, sobretudo em um contexto de reconfiguração das cadeias globais de produção, disputas comerciais com os Estados Unidos e redução da dependência em relação à China.

Um adiamento que muda o calendário, mas não o rumo

Inicialmente prevista para ser formalizada ainda em dezembro, a assinatura do acordo Mercosul União Europeia foi adiada após a Itália se alinhar à França na exigência de mais tempo para avaliar impactos sobre seus agricultores. A decisão levou autoridades e agentes econômicos a recalibrar expectativas, projetando a conclusão do processo apenas para janeiro.

Apesar do adiamento, Ursula von der Leyen deixou claro, em reuniões reservadas, que a maioria qualificada necessária para a aprovação do tratado está ao alcance. No Conselho Europeu, órgão responsável por autorizar a ratificação, são exigidos pelo menos 15 dos 27 países da União Europeia, representando 65% da população do bloco. Segundo a presidente da Comissão, esse patamar de apoio já estaria praticamente consolidado.

O reposicionamento do calendário, portanto, não representa um recuo estratégico, mas sim uma tentativa de acomodar resistências políticas internas sem comprometer o avanço do acordo Mercosul União Europeia, considerado essencial para a competitividade europeia no médio e longo prazo.

O peso histórico de um acordo negociado por 25 anos

As negociações entre Mercosul e União Europeia se arrastam há cerca de 25 anos, atravessando diferentes ciclos políticos, crises econômicas e mudanças de orientação estratégica em ambos os blocos. O texto final prevê a criação da maior zona de livre comércio do mundo, envolvendo cerca de 780 milhões de pessoas e uma parcela significativa do Produto Interno Bruto global.

O acordo Mercosul União Europeia estabelece a redução ou eliminação gradual de tarifas de importação e exportação, além da harmonização de regras para comércio de bens industriais e agrícolas, investimentos, serviços, propriedade intelectual e padrões regulatórios. Trata-se de um pacto que vai muito além do agronegócio, embora este seja o foco principal das controvérsias políticas na Europa.

A dimensão do acordo explica tanto o entusiasmo de setores industriais e financeiros quanto a resistência de segmentos mais sensíveis à concorrência internacional, como agricultores e produtores rurais europeus.

A oposição francesa e o temor no campo europeu

A França se consolidou como o principal polo de resistência ao acordo Mercosul União Europeia dentro do bloco europeu. O presidente Emmanuel Macron tem reiterado que o país não apoiará o tratado sem a inclusão de novas salvaguardas para proteger os agricultores franceses.

O argumento central do governo francês é que os produtores europeus estariam sujeitos a uma concorrência desigual, diante da entrada de produtos agrícolas sul-americanos com custos mais baixos e padrões ambientais considerados menos rigorosos. Esse temor é amplamente compartilhado por sindicatos rurais e associações agrícolas, que veem no acordo uma ameaça direta à renda e à sustentabilidade do setor.

A pressão do campo francês tem sido determinante para endurecer o debate político em Bruxelas e influenciar outros países a adotarem uma postura mais cautelosa em relação ao acordo Mercosul União Europeia.

Alemanha, Espanha e países nórdicos puxam o apoio

Em contrapartida à resistência francesa, Alemanha, Espanha e países nórdicos se posicionaram de forma clara a favor do tratado. Para esses governos, o acordo Mercosul União Europeia é uma resposta estratégica às mudanças no cenário global, especialmente às tarifas impostas pelos Estados Unidos e ao avanço da influência chinesa em mercados estratégicos.

A ampliação do acesso a matérias-primas, minerais críticos e novos mercados consumidores na América do Sul é vista como fundamental para a indústria europeia. Além disso, o tratado fortalece a posição da União Europeia como defensora do livre comércio em um mundo cada vez mais marcado por barreiras protecionistas.

Autoridades alemãs destacam que a credibilidade da política comercial europeia está em jogo e que decisões precisam ser tomadas para evitar o isolamento econômico do bloco.

A posição ambígua da Itália

A Itália ocupa uma posição intermediária no debate sobre o acordo Mercosul União Europeia. A primeira-ministra Giorgia Meloni afirmou que o país pode apoiar o tratado, desde que as preocupações levantadas pelos agricultores italianos sejam atendidas.

Segundo o governo italiano, as demandas do setor agrícola poderiam ser resolvidas com ajustes pontuais e garantias adicionais por parte da Comissão Europeia. Essa postura mantém o país como um ator-chave no equilíbrio de forças dentro do Conselho Europeu, já que seu apoio pode ser decisivo para a formação da maioria qualificada necessária à aprovação.

A sinalização de abertura italiana foi recebida com otimismo por líderes do Mercosul, especialmente pelo Brasil.

Brasil aposta na aprovação e vê janela histórica

Do lado sul-americano, o Brasil mantém uma postura declaradamente otimista em relação ao acordo Mercosul União Europeia. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem atuado diretamente na articulação diplomática, dialogando com líderes europeus para destravar resistências políticas.

Em conversa recente com Giorgia Meloni, Lula ouviu que a Itália não é contrária ao tratado, mas enfrenta um constrangimento político interno decorrente da pressão de agricultores. Para o governo brasileiro, trata-se de uma questão de tempo até que o consenso seja construído.

O Brasil vê no acordo uma oportunidade histórica de ampliar exportações, atrair investimentos, diversificar mercados e elevar o padrão tecnológico da indústria nacional, especialmente em setores como manufatura, energia e economia verde.

Protestos em Bruxelas expõem o custo político

Enquanto líderes discutiam o futuro do acordo Mercosul União Europeia dentro do Conselho Europeu, milhares de agricultores de diferentes países se mobilizaram em Bruxelas contra a política agrícola da União Europeia e, em especial, contra o tratado com o Mercosul.

As manifestações reuniram centenas de tratores, bloqueios de vias e confrontos com a polícia. Houve registros de depredação, lançamento de objetos e feridos. O protesto escancarou o alto custo político do acordo e a dificuldade dos governos em conciliar interesses econômicos globais com demandas locais.

Essas mobilizações reforçam o caráter sensível do debate e explicam, em parte, a cautela adotada por alguns países diante da votação do acordo Mercosul União Europeia.

O processo de aprovação e os riscos no Conselho

A aprovação do tratado depende exclusivamente do Conselho Europeu, onde se exige maioria qualificada. Diferentemente do Parlamento Europeu, não basta maioria simples. Esse desenho institucional concentra o risco político da negociação em poucos países estratégicos.

Embora o agronegócio seja o foco do debate público, o acordo Mercosul União Europeia tem impactos amplos sobre cadeias industriais, serviços, investimentos e propriedade intelectual. Esse alcance ajuda a explicar o apoio de setores econômicos que veem no tratado uma alavanca para crescimento e inovação.

A expectativa inicial era de que, com a aprovação no Conselho, Ursula von der Leyen viajasse ao Brasil para ratificar o acordo ainda este ano. Com o adiamento, essa agenda foi postergada, mas não cancelada.

Um acordo que redefine o papel da União Europeia

Mais do que um tratado comercial, o acordo Mercosul União Europeia representa uma redefinição do papel geopolítico da União Europeia em um mundo multipolar. Ao fortalecer laços com a América do Sul, o bloco europeu amplia sua margem de manobra estratégica e sinaliza compromisso com o multilateralismo.

Para o Mercosul, o acordo simboliza a integração definitiva a cadeias globais de maior valor agregado, com potencial de transformar padrões produtivos e regulatórios. Para a União Europeia, é uma aposta em diversificação econômica e influência global.

Apesar dos obstáculos, a avaliação predominante entre autoridades é de que o custo de não avançar com o acordo Mercosul União Europeia pode ser maior do que o de enfrentar resistências internas.

Tags: acordo Mercosul União Europeia 2025acordo Mercosul-UE.Brasil e União Europeia comércioConselho Europeu MercosulFrança contra acordo MercosulPolíticaUrsula von der Leyen Mercosul

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