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Moody’s eleva Argentina a B3 e reforça caminho de Milei de volta ao crédito global

Agência reduz avaliação de risco de Caa1 para B3 e adota perspectiva positiva; ajuste fiscal, inflação menor, reservas e exportações sustentam a decisão, mas o país continua em grau especulativo.

por Antônio Lima
22/07/2026 às 19h00
em Economia,Destaque,Notícias
Superávits Fiscais E Inflação Em Queda Tiram O País Do Alto Risco E Facilitam O Retorno Ao Mercado De Dívida.-Gazeta Mercantil

A Moody’s Ratings elevou, na terça-feira, 21 de julho, a classificação soberana de longo prazo da Argentina em moeda local e estrangeira de Caa1 para B3 e alterou a perspectiva de estável para positiva. A decisão reconhece a redução do risco de inadimplência após o avanço do programa de estabilização do presidente Javier Milei, sustentado por disciplina fiscal, desaceleração da inflação, crescimento das exportações e recomposição das reservas internacionais.

O movimento coloca a avaliação da Moody’s em linha com a faixa atribuída pelas duas outras grandes agências internacionais. A Fitch Ratings elevou a Argentina de CCC+ para B- em maio, enquanto a S&P Global Ratings subiu a nota soberana de CCC+ para B- em junho.

A convergência não devolve ao país o grau de investimento nem elimina sua vulnerabilidade a choques cambiais, políticos e financeiros. A classificação B3 permanece dentro do grau especulativo e indica que a capacidade de pagamento melhorou, mas continua exposta a condições econômicas adversas.

Ainda assim, a terceira elevação promovida por uma grande agência em menos de três meses representa uma mudança relevante na percepção de risco. A Argentina deixa a faixa associada pela Moody’s a riscos de crédito muito elevados e passa a ocupar um nível equivalente ao B- adotado por Fitch e S&P.

Moody’s vê estabilização além da fase inicial do ajuste

A justificativa central da Moody’s é que a estabilização macroeconômica argentina ultrapassou a etapa inicial do ajuste e começou a demonstrar maior durabilidade.

A agência apontou que os superávits fiscais, a queda da inflação e a continuidade das medidas de liberalização econômica fortaleceram a credibilidade da política econômica e reduziram a volatilidade. A avaliação também considera o desempenho das exportações, o investimento estrangeiro nos setores de energia e mineração e a melhora do acesso a fontes externas de financiamento.

O reconhecimento não significa que todas as metas tenham sido alcançadas. Em junho, o setor público nacional argentino apresentou déficit primário de 696,8 bilhões de pesos e resultado financeiro negativo de 1,025 trilhão de pesos.

O Ministério da Economia atribuiu o resultado mensal à postergação do pagamento do Imposto de Renda de pessoas físicas e ao aumento sazonal das despesas com aposentadorias e pensões.

Apesar do déficit de junho, o setor público acumulou no primeiro semestre superávit primário equivalente a aproximadamente 0,6% do Produto Interno Bruto e resultado financeiro positivo próximo de 0,1% do PIB. É esse desempenho acumulado, e não o dado isolado de um mês, que sustenta a leitura de preservação da âncora fiscal.

Para investidores em títulos soberanos, a consistência do resultado fiscal é decisiva. Quanto menor a necessidade de financiar déficits por emissão monetária ou endividamento de curto prazo, menor tende a ser a pressão sobre a inflação, o câmbio e a capacidade futura de pagamento da dívida.

Inflação de junho desacelera para 1,9%

A redução da inflação aparece como outro componente central da melhora da classificação argentina. O Índice de Preços ao Consumidor subiu 1,9% em junho, após avançar 2,1% em maio, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística e Censos.

A inflação ainda permanece elevada quando observada em períodos mais longos, mas a sequência de taxas mensais menores representa uma mudança em relação ao quadro de descontrole encontrado no início do governo Milei.

O ajuste fiscal contribuiu para interromper o financiamento monetário recorrente do Tesouro pelo Banco Central da República Argentina. A redução da emissão destinada a cobrir despesas públicas enfraqueceu um dos principais mecanismos de propagação da inflação no país.

Essa política teve custo econômico e social. Cortes de despesas, redução de subsídios, retração de investimentos públicos e perda inicial de renda real produziram forte pressão sobre famílias, províncias e setores dependentes do orçamento nacional.

A avaliação de crédito, entretanto, concentra-se na capacidade do governo de preservar o equilíbrio das contas, reduzir a inflação e manter recursos disponíveis para honrar compromissos financeiros.

A perspectiva positiva atribuída pela Moody’s indica que uma nova elevação poderá ocorrer caso a desinflação continue, as contas públicas permaneçam sob controle e a posição externa apresente melhora adicional.

Exportações geram superávit de US$ 13,9 bilhões

O setor externo também passou a oferecer maior sustentação à economia argentina. No primeiro semestre de 2026, as exportações somaram US$ 49,45 bilhões, aumento de 24,4% em relação ao mesmo período do ano anterior.

As importações totalizaram US$ 35,53 bilhões, com queda de 3,9%. Como resultado, a balança comercial acumulou superávit de US$ 13,92 bilhões entre janeiro e junho.

Somente em junho, a Argentina exportou US$ 9,06 bilhões e importou US$ 6,86 bilhões, produzindo saldo comercial positivo de US$ 2,19 bilhões.

O crescimento das vendas externas amplia a oferta de dólares e reduz parte da vulnerabilidade histórica do país, cuja economia frequentemente enfrenta escassez de moeda estrangeira para financiar importações, remessas de lucros e pagamentos de dívida.

A expansão da produção de petróleo e gás em Vaca Muerta acrescentou uma fonte estrutural de divisas à balança. Projetos de cobre, ouro, prata e lítio também passaram a ocupar posição mais relevante nas expectativas de investimento e exportação.

A S&P informou, em análise publicada em junho, que o governo argentino havia aprovado 16 projetos no Regime de Incentivo a Grandes Investimentos, com aportes estimados em US$ 25 bilhões. Aproximadamente três quartos dos projetos estavam ligados à energia, enquanto a maior parte dos demais se concentrava em mineração.

Outros projetos, avaliados em cerca de US$ 42 bilhões, permaneciam sob análise. O efeito sobre a classificação soberana dependerá da execução dos investimentos e de sua capacidade de gerar produção, exportações, arrecadação e entrada permanente de capital.

Reservas melhoram, mas continuam como principal fragilidade

A recomposição das reservas internacionais é uma das áreas mais acompanhadas pelas agências de classificação e pelo Fundo Monetário Internacional.

Segundo a Moody’s, o Banco Central argentino comprou mais de US$ 11 bilhões em moeda estrangeira até meados do ano sem produzir pressão cambial relevante. Relatório do FMI apontava compras de US$ 8,2 bilhões até meados de maio.

Os números utilizam períodos e metodologias diferentes, mas indicam a mesma direção: a autoridade monetária voltou a adquirir dólares no mercado depois de anos marcados por perda de reservas e intervenções defensivas.

As reservas internacionais brutas do Banco Central estavam em US$ 48,27 bilhões em 6 de julho. O estoque bruto, porém, não representa integralmente os recursos de livre disponibilidade, pois inclui depósitos, linhas de crédito, operações com organismos internacionais e outros passivos.

Em julho, o Banco Central refinanciou US$ 6 bilhões em operações de recompra com dez bancos internacionais. Os vencimentos foram estendidos até setembro de 2028, reduzindo pressões previstas para 2026 e 2027.

A operação melhorou o perfil de liquidez, mas também mostra que parte da posição externa argentina depende de financiamento e de instrumentos garantidos por títulos públicos.

A diferença entre reservas brutas e líquidas continuará no centro das próximas avaliações. Para avançar novamente na escala de rating, o país precisará demonstrar que consegue acumular divisas sem depender excessivamente de empréstimos, controles cambiais ou receitas extraordinárias.

FMI libera US$ 1 bilhão, mas mantém cobrança sobre reservas

O programa de US$ 20 bilhões firmado com o Fundo Monetário Internacional permanece como um dos pilares da estabilização.

Em maio, o conselho executivo do FMI concluiu a segunda revisão do acordo de 48 meses e autorizou um desembolso imediato de aproximadamente US$ 1 bilhão. Com a liberação, o total disponibilizado no programa alcançou cerca de US$ 15,8 bilhões.

O Fundo reconheceu o fortalecimento das reformas fiscais, comerciais, trabalhistas, monetárias e cambiais. Também afirmou que as mudanças ajudaram a iniciar a recomposição das reservas e elevaram a capacidade da Argentina de absorver choques.

A avaliação, contudo, não foi integralmente favorável. A meta de acumulação de reservas internacionais líquidas para o fim de dezembro de 2025 não foi cumprida.

O FMI concedeu a dispensa necessária para prosseguir com o programa, mas reiterou que a reconstrução dos ativos externos precisa avançar. A instituição considera a reserva líquida insuficiente um dos principais riscos para a estabilização.

A continuidade dos desembolsos está condicionada ao cumprimento de metas fiscais, monetárias e cambiais. Eventuais atrasos podem afetar a confiança dos investidores e ampliar novamente o custo de financiamento do país.

Fitch e S&P mantêm alertas sobre liquidez e eleições

A elevação da Moody’s completa uma sequência iniciada pela Fitch em 5 de maio. A agência subiu a nota argentina de CCC+ para B-, com perspectiva estável.

A Fitch reconheceu a melhora estrutural dos balanços fiscal e externo, o avanço das reformas econômicas e as perspectivas mais favoráveis para o acúmulo de reservas. Também avaliou que o governo teria condições de obter financiamento suficiente para cumprir as obrigações da dívida.

O relatório, porém, ressaltou que a posição de liquidez internacional ainda é fraca. A agência também mencionou a inflação elevada, o histórico de instabilidade macroeconômica e o aumento do serviço da dívida em moeda estrangeira antes das eleições de 2027.

Em 10 de junho, a S&P elevou as classificações soberanas de longo prazo em moeda local e estrangeira de CCC+ para B-. A agência citou a redução das vulnerabilidades econômicas e a melhora do acesso a financiamento.

A S&P manteve perspectiva estável ao equilibrar os avanços fiscais e financeiros com riscos externos e internos. Entre eles estão mudanças nas expectativas políticas, saída de capitais, pressão sobre o peso e insuficiência de reservas.

O alinhamento das três agências fortalece a sinalização de que a situação de crédito melhorou, mas também revela uma leitura comum: a estabilização ainda precisa atravessar um ciclo político completo para ser considerada consolidada.

Rating pode reduzir custo da dívida, mas retorno ao mercado não é automático

A melhora da nota tende a favorecer os títulos soberanos argentinos ao reduzir a percepção de risco de inadimplência. Quando os preços dos papéis sobem, os rendimentos exigidos pelos investidores caem, diminuindo o custo potencial de uma nova emissão.

A convergência entre Moody’s, Fitch e S&P também pode ampliar o universo de investidores autorizados a analisar ou comprar ativos argentinos. Alguns fundos utilizam classificações mínimas ou médias entre agências para definir limites de exposição.

O efeito, porém, não é automático. Muitos investidores institucionais continuam impedidos de comprar títulos classificados abaixo do grau de investimento. Outros exigem liquidez mínima, estabilidade cambial, reservas mais robustas ou um histórico mais longo de cumprimento das obrigações.

A Argentina permanece vários níveis abaixo do grau de investimento e ainda carrega o impacto de sucessivos episódios de inadimplência, reestruturações e trocas de dívida consideradas compulsórias pelas agências.

O retorno sustentável ao mercado internacional dependerá não apenas do rating, mas do rendimento exigido pelos compradores. Uma emissão com juros muito elevados poderia aliviar vencimentos imediatos e, ao mesmo tempo, criar nova pressão financeira no futuro.

Empresas argentinas de energia, mineração, infraestrutura e serviços financeiros podem sentir antes os efeitos da melhora. Companhias com receitas em dólares e acesso a ativos exportadores costumam conseguir financiamento externo em condições melhores do que o próprio governo.

Melhora argentina pode favorecer indústria brasileira

Para o Brasil, a estabilização argentina tem impacto direto sobre comércio, indústria e integração energética.

As exportações brasileiras para a Argentina cresceram 31,4% em 2025, impulsionadas principalmente pelo setor automotivo, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

Uma economia argentina com maior disponibilidade de dólares e menor volatilidade cambial tende a oferecer condições mais previsíveis para importações de veículos, autopeças, máquinas, produtos químicos e bens de capital brasileiros.

A melhora não significa expansão imediata da demanda. O consumo e a atividade econômica argentina ainda enfrentam os efeitos do ajuste, e uma parcela do superávit comercial decorre da contenção das importações.

O setor energético oferece outra frente de integração. Brasil e Argentina concluíram estudos técnicos sobre alternativas de infraestrutura e regulação para viabilizar o fornecimento de gás natural argentino ao mercado brasileiro.

A produção de Vaca Muerta pode complementar a oferta de gás no Brasil, reduzir custos para segmentos industriais e ampliar a segurança energética regional. Para isso, ainda serão necessários investimentos em gasodutos, capacidade de transporte e contratos de longo prazo.

Reservas e eleição de 2027 decidirão se B3 vira novo upgrade

A perspectiva positiva da Moody’s transfere o foco para a capacidade do governo Milei de preservar os resultados até a eleição presidencial de 2027.

O primeiro teste será fiscal. O governo precisará manter superávits sem depender de receitas extraordinárias e administrar pressões por recomposição de salários, aposentadorias, investimentos públicos e transferências às províncias.

O segundo será cambial. O Banco Central terá de continuar comprando dólares sem provocar uma valorização artificial do peso, perda de competitividade ou expansão monetária incompatível com a meta de desinflação.

O terceiro será político. A aprovação de reformas e do orçamento dependerá da sustentação da base parlamentar construída após as eleições legislativas de 2025.

A elevação para B3 mostra que as agências já reconhecem uma mudança concreta nos fundamentos. A passagem para níveis superiores exigirá comprovação de que o ajuste resiste ao crescimento das despesas, aos vencimentos externos e à disputa eleitoral.

Para a Argentina, a diferença entre permanecer em B3 ou avançar na escala será medida pelo custo da dívida, pela entrada de investimentos e pela capacidade de abandonar gradualmente a dependência do FMI.

Para o Brasil e o restante do Mercosul, o resultado definirá se a principal economia vizinha voltará a funcionar como fonte de demanda, integração produtiva e energia ou se continuará sujeita aos ciclos de escassez cambial que limitaram o comércio regional na última década.

Tags: ArgentinaEconomiaEMBIFitchFMIJavier Mileimercados emergentesMoodysrating Argentinareservas internacionais.risco-paísS&P Global

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