A corrida global pela inteligência artificial está produzindo vencedores além do grupo tradicional formado por gigantes de tecnologia, fabricantes de chips e operadores de data centers. Empresas industriais centenárias, ligadas à construção, mineração, siderurgia, energia e infraestrutura, passaram a ocupar posição estratégica na cadeia de expansão da IA e vêm registrando forte valorização nos mercados financeiros.
Levantamento citado pelo jornal Financial Times e analisado pela Gazeta Mercantil mostra que um conjunto de aproximadamente 200 companhias consideradas parte da chamada “velha economia” tem superado o desempenho do MSCI World Index nos últimos 12 meses, refletindo a crescente demanda por ativos físicos necessários para sustentar a nova geração de sistemas de inteligência artificial.
O movimento amplia a percepção de que a transformação tecnológica impulsionada pela IA não beneficia apenas empresas de software ou fabricantes de semicondutores. A expansão acelerada de data centers, redes elétricas, infraestrutura de transmissão de dados e produção de matérias-primas está criando oportunidades relevantes para setores tradicionalmente vistos como maduros.
Infraestrutura se torna peça central da revolução da IA
A nova fase da inteligência artificial exige investimentos bilionários em infraestrutura física.
Embora companhias como Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta e Oracle continuem liderando os aportes em tecnologia, a construção da base operacional necessária para sustentar aplicações de IA generativa tem ampliado a demanda por equipamentos industriais, aço, cobre, energia, fibra óptica e soluções de engenharia.
Estimativas apontam que os chamados hyperscalers deverão investir cerca de US$ 700 bilhões apenas em 2026 para expandir sua capacidade computacional.
Ao mesmo tempo, dados do governo dos Estados Unidos indicam que os gastos mensais com construção de data centers atingiram aproximadamente US$ 50 bilhões em abril, demonstrando a velocidade da expansão do setor.
Esse volume de investimentos criou um efeito indireto sobre empresas que até recentemente estavam fora do radar dos investidores interessados em inteligência artificial.
Caterpillar lidera valorização entre vencedoras inesperadas
Entre os destaques aparece a Caterpillar, tradicional fabricante americana de máquinas pesadas para construção e mineração.
Segundo os dados compilados pelo Financial Times, as ações da companhia acumularam valorização de 151% nos últimos 12 meses, acrescentando aproximadamente US$ 247,7 bilhões ao valor de mercado da empresa.
O desempenho reflete a expectativa de aumento da demanda por equipamentos utilizados na construção de data centers, instalações industriais, projetos de energia e infraestrutura logística vinculados à expansão da inteligência artificial.
A tese dos investidores é relativamente simples: sem infraestrutura física, a revolução digital não consegue avançar.
A construção de instalações capazes de abrigar milhares de servidores exige movimentação de terra, fundações robustas, sistemas elétricos complexos e uma extensa cadeia de suprimentos industrial.
Nesse contexto, fabricantes de equipamentos pesados passaram a ocupar posição estratégica no ciclo de investimentos.
Mineradoras e siderúrgicas entram no radar do mercado
Outro grupo beneficiado pela expansão da inteligência artificial é formado por empresas ligadas à produção de matérias-primas.
A mineradora BHP, fundada em 1885, viu suas ações acumularem valorização de 76,5% nos últimos 12 meses, impulsionadas principalmente pelas perspectivas de aumento da demanda global por cobre.
O metal é considerado fundamental para a expansão dos sistemas de transmissão elétrica, redes de comunicação e infraestrutura de processamento de dados.
A siderúrgica americana Nucor também aparece entre as empresas beneficiadas pelo novo ciclo de investimentos, uma vez que estruturas metálicas, galpões industriais e instalações de data centers exigem grandes volumes de aço.
Analistas observam que a inteligência artificial está criando uma nova dinâmica para commodities industriais, ampliando expectativas de consumo em segmentos tradicionalmente associados ao crescimento econômico convencional.
Para investidores, isso representa uma mudança relevante na composição dos beneficiários da revolução tecnológica.
Ford encontra nova narrativa ligada à inteligência artificial
Nem mesmo montadoras ficaram totalmente de fora do movimento.
A Ford, que enfrenta desafios operacionais e estratégicos nos últimos anos, registrou forte recuperação de suas ações após anunciar planos para redirecionar parte da tecnologia desenvolvida para veículos elétricos à fabricação de baterias destinadas a data centers.
Os papéis da companhia avançaram 25% apenas em maio após a divulgação da estratégia.
O caso é visto pelo mercado como um exemplo da capacidade de empresas tradicionais de adaptar tecnologias existentes para atender à crescente demanda da economia digital.
A busca por soluções de armazenamento de energia tornou-se uma das prioridades da indústria, especialmente diante do consumo crescente de eletricidade pelos sistemas avançados de inteligência artificial.
Corning transforma fibra óptica em motor de crescimento
Um dos casos mais emblemáticos da nova onda de valorização envolve a Corning.
Fundada há mais de 170 anos e conhecida mundialmente pela criação do vidro Pyrex, a companhia passou a ocupar papel estratégico na expansão dos data centers voltados à inteligência artificial.
Os sistemas de IA exigem volumes cada vez maiores de transferência de dados e interconexão entre servidores, elevando a necessidade de cabeamento de alta capacidade e soluções ópticas avançadas.
Após firmar acordos com Meta e Nvidia para fornecimento de infraestrutura de fibra óptica destinada a centros de processamento de dados, a Corning viu suas ações acumularem valorização superior a 270%.
O desempenho reforça a tese de que empresas com competências industriais específicas podem se tornar beneficiárias diretas da transformação tecnológica.
Siemens e Schneider apostam em crescimento estrutural
A expansão dos investimentos em inteligência artificial também impulsiona grupos industriais especializados em automação, energia e infraestrutura.
A alemã Siemens registrou valorização de 20,5% em suas ações nos últimos 12 meses, enquanto a francesa Schneider Electric avançou 17% no mesmo período.
Executivos das duas companhias têm defendido que o crescimento associado à inteligência artificial possui características estruturais e não representa apenas um ciclo temporário de investimentos.
Segundo a Siemens, o segmento de data centers cresceu cerca de 40% em 2025, reforçando a importância da área dentro das operações da companhia.
A Schneider Electric, por sua vez, mantém os centros de processamento de dados entre as principais prioridades estratégicas da empresa.
A demanda crescente por sistemas elétricos, eficiência energética e automação industrial tem contribuído para ampliar as perspectivas de receita do setor.
Debate sobre possível bolha continua no mercado
Apesar do forte desempenho das ações relacionadas à infraestrutura da inteligência artificial, investidores e analistas seguem monitorando riscos associados ao ritmo dos investimentos.
Uma das principais preocupações envolve a sustentabilidade financeira dos gastos bilionários realizados por grandes empresas de tecnologia.
Estimativas da Bain & Company indicam que a indústria precisaria gerar aproximadamente US$ 2 trilhões em receita anual proveniente de inteligência artificial para justificar os atuais níveis de investimento em data centers.
A questão permanece no centro das discussões do mercado financeiro.
Caso a monetização da tecnologia avance abaixo das expectativas, parte dos projetos atualmente em desenvolvimento poderá enfrentar revisões de escala ou cronograma.
Essa preocupação ganhou força no início de 2025, quando a chinesa DeepSeek anunciou um modelo de linguagem de grande porte que prometia custos significativamente menores para treinamento e operação.
O anúncio provocou volatilidade em diversos ativos ligados à infraestrutura tecnológica, uma vez que levantou dúvidas sobre a necessidade de investimentos tão elevados em capacidade computacional.
Corrida por data centers mantém indústria tradicional no centro dos investimentos
Mesmo diante das incertezas, a maior parte dos investidores continua apostando que a expansão da inteligência artificial seguirá exigindo grandes volumes de infraestrutura física ao longo dos próximos anos.
A avaliação predominante é que a demanda por processamento, armazenamento de dados, energia elétrica, conectividade e materiais industriais continuará crescendo à medida que empresas e governos ampliem o uso da tecnologia.
Nesse cenário, a inteligência artificial deixou de ser apenas uma oportunidade para desenvolvedores de software e fabricantes de chips.
A transformação digital está redesenhando cadeias produtivas inteiras e recolocando companhias centenárias no centro das estratégias de crescimento global.
Para o mercado financeiro, a ascensão desses vencedores improváveis sinaliza que a próxima etapa da revolução da inteligência artificial poderá gerar impactos muito além do Vale do Silício, alcançando setores tradicionais da economia mundial e ampliando o universo de empresas capazes de capturar valor na nova corrida tecnológica.







