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Inteligência artificial pode acrescentar até US$ 1,7 trilhão por ano à economia da América Latina, aponta estudo

Fórum Econômico Mundial vê avanço da IA como motor de produtividade até 2030, mas alerta para desafios em qualificação profissional e infraestrutura energética.

por Daniel Soto
10/06/2026 às 14h27
em Tecnologia
Fórum Econômico Mundial Vê Avanço Da Ia Como Motor De Produtividade Até 2030, Mas Alerta Para Desafios Em Qualificação Profissional E Infraestrutura Energética.-Gazeta Mercantil

Poços maduros ganham controle automático de pressão e vazão com inteligência artificial. Os detalhes podem surpreender você.

A inteligência artificial (IA) tem potencial para transformar a dinâmica econômica da América Latina e elevar a produtividade regional entre 1,9% e 2,3% ao ano até 2030, segundo estudo divulgado nesta terça-feira (9) pelo Fórum Econômico Mundial durante evento realizado no Rio de Janeiro. Produzido em parceria com a consultoria McKinsey & Company, o relatório projeta que a adoção ampla da tecnologia poderá acrescentar entre US$ 1,1 trilhão e US$ 1,7 trilhão anuais à economia latino-americana, desde que governos e empresas avancem em investimentos estruturais voltados à digitalização, capacitação profissional e expansão da infraestrutura energética.

A projeção surge em um momento considerado decisivo para a região. Após décadas sustentando parte relevante do crescimento econômico por meio da expansão da população economicamente ativa, diversos países latino-americanos começam a enfrentar o enfraquecimento do chamado bônus demográfico, fenômeno que reduz a contribuição do crescimento da força de trabalho para a expansão da atividade econômica.

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Nesse cenário, a produtividade passa a ocupar papel central nas estratégias de desenvolvimento. Para os autores do estudo, a IA desponta como uma das principais ferramentas capazes de impulsionar ganhos de eficiência, modernizar setores tradicionais e aumentar a competitividade regional diante de economias mais avançadas.

Embora o potencial econômico seja expressivo, o relatório alerta que a concretização desse cenário dependerá da superação de gargalos históricos relacionados à formação de mão de obra especializada, disponibilidade energética e capacidade de processamento de dados.

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Inteligência artificial pode alterar padrão histórico de crescimento da região

Historicamente, a América Latina apresentou níveis de produtividade inferiores aos observados em economias desenvolvidas. Em muitos casos, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) esteve mais associado ao aumento da população ativa do que à incorporação de tecnologia e inovação nos processos produtivos.

Segundo o Fórum Econômico Mundial, a inteligência artificial representa uma oportunidade para alterar essa trajetória. O avanço da automação, da análise avançada de dados e dos sistemas inteligentes pode permitir que empresas produzam mais utilizando menos recursos, reduzam desperdícios e acelerem processos operacionais.

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O relatório destaca que o impacto potencial da IA não se restringe ao setor de tecnologia. A transformação poderá alcançar segmentos considerados estratégicos para a economia regional, incluindo indústria, logística, agricultura, mineração, serviços financeiros e infraestrutura.

Caso as condições necessárias sejam atendidas, a produtividade adicional gerada pela tecnologia poderá se transformar em uma das principais fontes de crescimento econômico da região na próxima década.

A expectativa é que os ganhos se reflitam não apenas no desempenho das empresas, mas também na capacidade de atração de investimentos, geração de empregos qualificados e ampliação da competitividade internacional.

Escassez de profissionais qualificados aparece como principal obstáculo

Entre os desafios apontados pelo estudo, a qualificação da força de trabalho surge como um dos mais relevantes.

A adoção da inteligência artificial exige profissionais capazes de desenvolver, implementar, integrar e supervisionar sistemas tecnológicos cada vez mais complexos. Entretanto, a oferta desses especialistas ainda é limitada em diversos mercados latino-americanos.

Os pesquisadores observam que a região vem consolidando sua posição como fornecedora de serviços tecnológicos para grandes empresas globais. esse movimento impulsiona a demanda por profissionais especializados, mas também provoca pressão salarial e aumenta a disputa por talentos.

Como consequência, empresas nacionais de médio e pequeno porte enfrentam dificuldades crescentes para contratar e reter trabalhadores qualificados.

O problema se torna ainda mais relevante diante da velocidade com que novas tecnologias são incorporadas ao ambiente corporativo. Em muitos casos, trabalhadores precisam atualizar competências constantemente para acompanhar as transformações dos modelos produtivos.

O relatório sustenta que programas de requalificação profissional deverão desempenhar papel decisivo para ampliar o alcance dos benefícios econômicos da IA.

Sem investimentos consistentes em educação tecnológica, capacitação e treinamento corporativo, os ganhos de produtividade tendem a se concentrar em um número reduzido de organizações, limitando o impacto econômico esperado.

Infraestrutura energética se torna peça-chave para expansão da IA

Outro ponto central destacado pelo Fórum Econômico Mundial envolve a capacidade energética da América Latina.

O desenvolvimento de aplicações avançadas de inteligência artificial depende de centros de processamento de dados com elevada capacidade computacional. Essas estruturas exigem fornecimento constante de energia elétrica e infraestrutura robusta para armazenamento e processamento de informações.

À medida que empresas ampliam o uso da IA, cresce também a demanda por data centers capazes de suportar cargas computacionais cada vez maiores.

Segundo o estudo, a expansão dessas instalações será essencial para sustentar a transformação digital da região.

O desafio, porém, não se resume à geração de energia. A capacidade de transmissão e distribuição também precisará acompanhar o crescimento da demanda.

Os pesquisadores observam que setores como mineração, agricultura industrial e manufatura avançada exigirão grande volume de processamento de dados para implementar sistemas inteligentes de monitoramento, automação e análise preditiva.

Sem investimentos adequados em infraestrutura energética, parte significativa dos projetos poderá enfrentar limitações operacionais, comprometendo os ganhos esperados de produtividade.

Risco de concentração dos benefícios preocupa especialistas

O relatório alerta ainda para um possível efeito colateral da transformação tecnológica.

Caso os gargalos estruturais persistam, os benefícios da inteligência artificial poderão se concentrar em grandes centros urbanos e multinacionais, ampliando desigualdades já existentes entre regiões, empresas e setores econômicos.

Na avaliação dos pesquisadores, existe o risco de surgimento de uma nova divisão produtiva dentro da própria América Latina, na qual organizações com acesso a capital, infraestrutura e profissionais qualificados avancem rapidamente, enquanto empresas menores permaneçam à margem da revolução tecnológica.

Esse cenário poderia ampliar diferenças de competitividade entre grandes corporações e pequenos negócios, além de aprofundar disparidades econômicas regionais.

Para evitar essa concentração, o estudo defende a adoção de estratégias coordenadas envolvendo governos, setor privado, universidades e instituições de pesquisa.

O objetivo seria ampliar o acesso às tecnologias, democratizar a capacitação profissional e garantir condições para que empresas de diferentes portes participem da transformação digital.

Apenas 23% das empresas geram valor econômico com IA atualmente

Apesar da crescente atenção recebida pela inteligência artificial nos últimos anos, o relatório mostra que a conversão desse interesse em resultados concretos ainda é limitada.

Segundo o levantamento, apenas 23% das organizações latino-americanas conseguem gerar valor econômico por meio da utilização da IA.

O número se torna ainda mais restrito quando se observa a geração de resultados considerados relevantes. Apenas 6% das empresas afirmam obter criação de valor significativa a partir da tecnologia.

Os dados indicam uma diferença expressiva entre o entusiasmo em torno da IA e sua aplicação efetiva nos modelos de negócios.

Na prática, muitas organizações ainda se encontram em estágios iniciais de adoção tecnológica.

Em vez de promover mudanças estruturais, grande parte das empresas utiliza soluções pontuais, concentradas em ferramentas específicas como assistentes virtuais, automação de tarefas administrativas, geração de textos ou desenvolvimento de códigos.

Para os autores do estudo, os maiores ganhos de produtividade tendem a surgir quando a inteligência artificial é incorporada de forma estratégica aos processos centrais das organizações.

Isso inclui mudanças em cadeias produtivas, gestão operacional, relacionamento com clientes, tomada de decisões e desenvolvimento de novos produtos e serviços.

Setor financeiro lidera adoção e geração de resultados

Entre os segmentos analisados, os serviços financeiros aparecem como a principal referência regional na utilização prática da inteligência artificial.

Instituições financeiras vêm empregando a tecnologia em processos de análise de crédito, identificação de padrões de risco e prevenção a fraudes.

A utilização de algoritmos avançados também tem permitido ampliar a inclusão financeira de segmentos tradicionalmente menos atendidos pelo sistema bancário convencional.

Segundo o relatório, a capacidade de analisar grandes volumes de informações em tempo real tem contribuído para melhorar decisões relacionadas à concessão de crédito e monitoramento de operações suspeitas.

A combinação entre digitalização, grande volume de dados e forte competição de mercado favoreceu a adoção mais acelerada da IA no setor financeiro em comparação com outras áreas da economia.

Esse avanço é visto pelos pesquisadores como um indicativo do potencial da tecnologia para transformar segmentos adicionais da atividade econômica.

Indústria e logística despontam como próximas fronteiras de crescimento

Além dos serviços financeiros, o estudo identifica oportunidades relevantes para a indústria manufatureira e o setor logístico.

Nessas atividades, a inteligência artificial pode ser utilizada para prever falhas em equipamentos, otimizar estoques, melhorar rotas de transporte e aumentar a eficiência operacional.

O relatório estima que aplicações preditivas em cadeias de suprimentos e manutenção industrial possam reduzir custos operacionais em até 15%.

Em um ambiente econômico marcado por margens cada vez mais pressionadas, ganhos dessa magnitude podem representar vantagens competitivas relevantes para empresas da região.

Na indústria, sensores conectados a sistemas de IA permitem monitorar máquinas em tempo real e antecipar necessidades de manutenção antes da ocorrência de falhas.

Na logística, algoritmos inteligentes podem otimizar rotas, reduzir consumo de combustível e aumentar a eficiência das operações de distribuição.

Os pesquisadores apontam que esses setores devem concentrar parte importante dos investimentos em transformação digital ao longo dos próximos anos.

Expansão dos data centers coloca América Latina na rota dos investimentos globais

Um dos pontos mais estratégicos destacados pelo relatório envolve a expansão da infraestrutura de data centers.

A América Latina possui uma vantagem competitiva relevante: uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, com participação significativa de fontes renováveis.

Entretanto, essa vantagem não garante automaticamente liderança na economia digital.

Segundo o estudo, a capacidade de conectar geração renovável à infraestrutura de processamento de dados será determinante para atrair investimentos globais relacionados à inteligência artificial.

Empresas internacionais buscam locais capazes de oferecer energia confiável, custos competitivos e condições favoráveis para instalação de grandes centros de processamento.

Nesse contexto, países que conseguirem acelerar investimentos em transmissão elétrica, conectividade digital e infraestrutura tecnológica poderão assumir posição de destaque na nova economia baseada em dados.

A avaliação do Fórum Econômico Mundial é que a corrida pela liderança em inteligência artificial já começou e deverá influenciar decisões de investimento, competitividade industrial e crescimento econômico ao longo das próximas décadas.

Para a América Latina, o desafio consiste em transformar seu potencial energético e demográfico em uma plataforma capaz de sustentar a expansão tecnológica, ampliar a produtividade e consolidar uma nova etapa de desenvolvimento econômico baseada em inovação, digitalização e eficiência produtiva.

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