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JPMorgan eleva Tupy e Iochpe para compra e corta Randoncorp para venda

Banco mantém visão cautelosa para o setor de autopeças, mas vê oportunidades seletivas em empresas com exposição externa, melhora operacional e menor pressão do mercado doméstico

por João Souza
12/06/2026 às 18h53
em Empresas
Jpmorgan - Gazeta Mercantil

JPMorgan / Foto: Divulgação

SÃO PAULO – O JPMorgan revisou suas recomendações para companhias brasileiras de autopeças e provocou forte reação nas ações do setor nesta sexta-feira, ao elevar Tupy (TUPY3) e Iochpe-Maxion (MYPK3) para compra, rebaixar Randoncorp (RAPT4) para venda e ajustar sua leitura sobre Mahle Metal Leve (LEVE3), em meio a um ambiente de juros altos, desaceleração doméstica e maior relevância das exportações para sustentar resultados. A mudança ocorre em um momento em que o setor acumula queda de 7% no ano, enquanto o Ibovespa avança 6%, refletindo a piora do custo de capital e a revisão para baixo das projeções de lucro.

A reação do mercado foi imediata. Tupy (TUPY3) avançou 8,23%, a R$ 14,33, após ter sua recomendação elevada de neutra para overweight, classificação equivalente a exposição acima da média do mercado. Iochpe-Maxion (MYPK3) subiu 4,21%, para R$ 9,15, também beneficiada pela elevação para overweight.

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Mahle Metal Leve (LEVE3), que teve a recomendação elevada de underweight para neutra, ganhou 1,32%, cotada a R$ 33,08. Na ponta negativa, Randoncorp (RAPT4) recuou 3,35%, a R$ 4,90, após ser rebaixada de overweight para underweight, movimento interpretado pelo mercado como sinal de maior cautela do banco em relação à companhia.

A revisão do JPMorgan reforça uma leitura seletiva sobre o setor de autopeças. Embora o banco mantenha uma visão cautelosa para o segmento no Brasil, a instituição identifica diferenças relevantes entre as companhias cobertas, especialmente em relação à exposição internacional, alavancagem, governança, ciclo de caminhões pesados e capacidade de proteger margens em um ambiente macroeconômico mais adverso.

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Juros altos pesam sobre demanda doméstica

O pano de fundo da revisão é a combinação entre juros elevados por mais tempo e crescimento mais limitado da economia brasileira. Segundo o JPMorgan, a receita doméstica deve continuar pressionando os resultados das empresas do setor, já que o custo do crédito segue alto e tende a restringir investimentos, consumo de bens duráveis e renovação de frotas.

Esse cenário é particularmente sensível para empresas ligadas à cadeia automotiva. O setor de autopeças depende de volumes de produção, vendas de veículos leves e pesados, reposição, exportações e capacidade de repasse de custos. Quando a economia desacelera, a demanda por componentes pode perder força, sobretudo em linhas mais expostas ao mercado interno.

O banco também destacou o aumento de 50 pontos-base no custo de capital próprio. Esse fator reduz o valor justo estimado das empresas, já que eleva a taxa usada para descontar fluxos de caixa futuros. Na prática, mesmo companhias com operação estável podem ter seus preços-alvo reduzidos quando o custo de capital aumenta.

Por outro lado, a depreciação de cerca de 5% do real frente ao dólar no último mês aparece como fator de compensação parcial. Empresas com receita relevante fora do Brasil ou exportações significativas tendem a se beneficiar da moeda americana mais forte, seja por melhora de competitividade, seja pela conversão de receitas externas em reais.

É nesse ponto que o JPMorgan diferencia as empresas do setor. As companhias mais internacionalizadas, menos dependentes do ciclo doméstico e com catalisadores operacionais mais claros passaram a receber uma avaliação mais favorável.

Tupy ganha recomendação de compra com governança e ciclo externo

A Tupy (TUPY3) foi uma das principais beneficiadas pela revisão. O JPMorgan elevou a recomendação da companhia de neutra para overweight e estabeleceu preço-alvo de R$ 18,00.

A mudança foi sustentada por três fatores centrais: avanços de governança corporativa, melhora esperada no ciclo de caminhões pesados na América do Norte e potencial de recuperação de margens ainda não totalmente incorporado pelo mercado.

O banco citou a nomeação de um novo CEO considerado favorável ao mercado e mudanças no conselho de administração como sinais positivos para a companhia. Em empresas industriais, a governança costuma ter peso relevante na percepção de risco, especialmente quando há necessidade de disciplina de capital, controle de custos e execução operacional consistente.

Além disso, o JPMorgan vê melhora no ciclo de caminhões pesados na América do Norte, mercado importante para a Tupy. Uma recuperação nesse segmento pode impulsionar volumes e margens, sobretudo em linhas ligadas a componentes industriais e estruturais.

As projeções do banco para o lucro por ação da Tupy (TUPY3) em 2027 e 2028 estão, respectivamente, 7% e 8% acima do consenso de mercado. Para o JPMorgan, essa diferença indica que a melhora esperada de rentabilidade ainda não está totalmente refletida no preço das ações.

A forte alta de TUPY3 no pregão mostrou que investidores reagiram não apenas à elevação da recomendação, mas também à percepção de que o papel pode ter ficado descontado após o desempenho fraco do setor no ano.

Iochpe-Maxion se apoia em receita externa e veículos pesados

A Iochpe-Maxion (MYPK3) também teve recomendação elevada de neutra para overweight, com preço-alvo de R$ 12,00. Segundo o JPMorgan, a companhia combina potencial de recuperação operacional com exposição internacional relevante, o que ajuda a reduzir parte dos riscos ligados ao mercado brasileiro.

O banco destacou que aproximadamente 66% da receita da Iochpe-Maxion é gerada fora do Brasil. Esse perfil torna a empresa menos dependente da atividade doméstica e mais exposta a mercados externos, especialmente em um momento em que a desvalorização do real pode favorecer receitas internacionais.

Outro ponto citado foi a recuperação do mercado de veículos pesados na América do Norte. Esse movimento deve beneficiar o negócio de componentes estruturais da Iochpe-Maxion, responsável por cerca de 15% da receita da companhia.

Na avaliação do JPMorgan, a ação apresenta potencial de valorização de 37% em relação aos níveis considerados no relatório. A reação positiva de MYPK3 no pregão refletiu essa percepção de assimetria favorável, com investidores reposicionando carteiras após a mudança de recomendação.

Ainda assim, o caso da Iochpe-Maxion segue condicionado à execução operacional. A companhia atua em um setor competitivo, intensivo em capital e sensível a volumes globais de produção. A recomendação positiva do banco sugere que parte relevante desses riscos já está refletida no preço, mas não elimina a necessidade de recuperação consistente de margens.

Randoncorp sofre rebaixamento com alavancagem no radar

A Randoncorp (RAPT4) foi o principal destaque negativo da revisão. O JPMorgan rebaixou a recomendação da companhia de overweight para underweight e reduziu o preço-alvo de R$ 8,00 para R$ 6,00.

O banco avalia que o cenário macroeconômico brasileiro, marcado por juros elevados por mais tempo, tende a pressionar os resultados financeiros da empresa. A preocupação é agravada pelo fato de a Randoncorp apresentar a maior alavancagem entre as companhias cobertas pelo JPMorgan no setor.

Em um ambiente de crédito caro, companhias mais endividadas ficam mais expostas à elevação das despesas financeiras. Isso pode reduzir lucro líquido, limitar capacidade de investimento e diminuir a flexibilidade para atravessar períodos de demanda mais fraca.

O JPMorgan também vê poucos catalisadores de curto prazo para as ações da Randoncorp (RAPT4). A instituição espera um segundo trimestre fraco e trabalha com estimativas de lucro abaixo do consenso do mercado.

O recuo de RAPT4 no pregão refletiu essa mudança de percepção. Para investidores, o rebaixamento sinaliza que o risco de execução e o peso da alavancagem podem limitar uma recuperação mais rápida das ações, mesmo que o setor tenha algum suporte vindo das exportações ou da melhora em mercados externos.

Marcopolo segue como principal escolha do banco

Apesar das mudanças em Tupy (TUPY3), Iochpe-Maxion (MYPK3) e Randoncorp (RAPT4), a Marcopolo (POMO4) permaneceu como a principal recomendação do JPMorgan no setor.

O banco reiterou recomendação overweight para Marcopolo (POMO4), com preço-alvo de R$ 9,00. A instituição vê potencial de valorização de cerca de 55%, além de dividend yield estimado em aproximadamente 9%. Esse retorno pode chegar a 13% caso o payout da companhia aumente para 75%.

A Marcopolo se diferencia pela exposição a mercados internacionais e por contratos relevantes no Brasil. Cerca de 45% da receita da empresa vem de fora do país, o que reduz a dependência do ciclo doméstico e oferece alguma proteção em um ambiente de juros altos.

O JPMorgan também destacou potenciais ganhos adicionais com o investimento na fabricante norte-americana NFI. A exposição ao mercado externo pode ser uma fonte de crescimento relevante, especialmente se a demanda por ônibus e soluções de transporte coletivo avançar em mercados desenvolvidos.

No Brasil, outro ponto citado foi o programa Caminhos da Escola. A Marcopolo conquistou mais de 95% do último leilão, equivalente a 7,5 mil ônibus e mais de R$ 2 bilhões em receitas. Esse contrato reforça a carteira da companhia e contribui para maior previsibilidade de resultados.

Mahle Metal Leve avança a neutra, mas dependência do Brasil limita tese

A Mahle Metal Leve (LEVE3) teve recomendação elevada de underweight para neutra, embora o preço-alvo tenha sido reduzido de R$ 45,00 para R$ 42,00.

O JPMorgan destacou o dividend yield estimado em 8% e o potencial de valorização próximo de 30%. Esses fatores tornam a ação mais equilibrada em termos de risco e retorno, justificando a retirada da recomendação negativa.

Ainda assim, o banco vê limitações importantes. Cerca de 70% da receita da Mahle Metal Leve depende do mercado brasileiro, o que deve restringir o crescimento neste ano. Em um cenário de juros altos e atividade mais fraca, essa exposição doméstica aumenta a sensibilidade da companhia à desaceleração econômica.

A alta moderada de LEVE3 no pregão refletiu essa avaliação intermediária. O mercado recebeu bem a elevação da recomendação para neutra, mas o corte no preço-alvo e a dependência do Brasil limitaram uma reação mais forte.

Para investidores, a tese de Mahle Metal Leve combina remuneração via dividendos com menor impulso de crescimento no curto prazo. Isso tende a atrair perfis mais defensivos, mas pode reduzir o apelo da ação em comparação com empresas mais expostas ao ciclo externo.

Frasle mantém recomendação neutra com proteção externa parcial

A Frasle Mobility (FRAS3) teve recomendação neutra mantida pelo JPMorgan. O preço-alvo foi reduzido de R$ 29,00 para R$ 28,00.

O banco reconhece que a companhia tem mais de 50% da receita proveniente do exterior, o que funciona como proteção diante da fraqueza da economia brasileira. Essa diversificação geográfica reduz a dependência do mercado interno e pode ajudar a preservar resultados em um ambiente doméstico mais desafiador.

Apesar disso, o JPMorgan vê potencial de valorização mais modesto para a ação. A instituição também avalia que há chances reduzidas de novas aquisições relevantes no curto prazo, em razão do elevado endividamento da controladora Randoncorp.

Esse ponto é relevante porque a expansão por aquisições foi um componente importante da estratégia de crescimento da Frasle Mobility nos últimos anos. Sem novos movimentos relevantes nessa frente, o mercado tende a concentrar a avaliação no desempenho orgânico, nas margens e na geração de caixa.

A manutenção da recomendação neutra indica uma visão equilibrada: a empresa tem fundamentos de proteção, mas não oferece, na leitura do banco, uma assimetria tão atrativa quanto Tupy (TUPY3), Iochpe-Maxion (MYPK3) ou Marcopolo (POMO4).

Setor de autopeças entra em fase de maior seletividade na Bolsa

A revisão do JPMorgan evidencia uma mudança importante na forma como o mercado avalia o setor de autopeças. Em vez de uma recomendação homogênea para o segmento, o banco passou a destacar diferenças específicas entre companhias, privilegiando empresas com exposição internacional, menor pressão financeira, governança em evolução e catalisadores operacionais mais claros.

Esse movimento ocorre após um desempenho fraco do setor no ano. Enquanto o Ibovespa acumula alta de 6%, as ações de autopeças recuam 7%, refletindo o impacto de juros elevados, revisões negativas de lucro e menor confiança no ritmo de crescimento do mercado doméstico.

Para investidores, a mensagem central é que o setor continua desafiador, mas não sem oportunidades. Tupy (TUPY3) e Iochpe-Maxion (MYPK3) ganharam força por combinarem exposição externa e expectativa de recuperação operacional. Marcopolo (POMO4) permanece como principal escolha do banco por reunir potencial de valorização, dividendos e contratos relevantes.

Na outra ponta, Randoncorp (RAPT4) passou a concentrar as maiores preocupações, diante da alavancagem elevada, do cenário de juros e da ausência de catalisadores imediatos. A reação das ações no pregão mostrou que o mercado passou a recalibrar rapidamente suas posições após o relatório.

Em um setor dependente de crédito, produção industrial, exportações e demanda por veículos, a diferença entre companhias tende a ganhar ainda mais peso. A Bolsa passou a olhar menos para o segmento como bloco único e mais para a capacidade de cada empresa atravessar um ciclo doméstico fraco sem comprometer margens, caixa e retorno ao acionista.

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