A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) da Câmara dos Deputados volta a analisar nesta terça-feira (9) a admissibilidade da PEC 32/15, proposta que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos no Brasil. A votação foi interrompida na semana passada após um pedido de vista coletivo, mecanismo regimental usado por parlamentares para adiar a deliberação. O tema retorna à pauta sob forte pressão política, em meio à resistência de partidos da base do governo e à mobilização de parlamentares ligados à segurança pública, que defendem a mudança como resposta ao envolvimento de adolescentes em crimes graves.
O parecer em discussão foi apresentado pelo deputado Coronel Assis (PL-MT), relator da proposta na CCJC. No relatório, o parlamentar conclui pela constitucionalidade da PEC 32/15 e de textos apensados que tratam da responsabilização criminal de adolescentes. A etapa em análise não discute ainda o mérito definitivo da proposta, mas verifica se o texto respeita os limites formais e materiais da Constituição.
A redução da maioridade penal é um dos temas mais sensíveis do debate legislativo brasileiro. A proposta atinge diretamente o artigo 228 da Constituição, que estabelece que menores de 18 anos são penalmente inimputáveis e ficam sujeitos à legislação especial. Na prática, adolescentes que cometem atos infracionais hoje respondem com base no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que prevê medidas socioeducativas, incluindo internação em casos considerados graves.
Se a admissibilidade for aprovada pela CCJC, a PEC 32/15 seguirá para uma comissão especial, que ficará encarregada de analisar o conteúdo da proposta. Somente depois dessa etapa o texto poderá avançar ao Plenário da Câmara, onde uma emenda constitucional precisa ser aprovada em dois turnos, por ao menos três quintos dos deputados.
Parecer defende constitucionalidade da redução da maioridade penal
O ponto central do relatório de Coronel Assis é a tese de que a redução da maioridade penal não afronta cláusulas pétreas da Constituição nem tratados internacionais ratificados pelo Brasil. O deputado argumenta que acordos como a Convenção sobre os Direitos da Criança, da Organização das Nações Unidas (ONU), não impedem a responsabilização penal de adolescentes a partir dos 16 anos, desde que sejam preservadas garantias fundamentais.
Segundo o parecer, a alteração constitucional não autorizaria tratamentos cruéis, degradantes, pena de morte ou prisão perpétua. O relator sustenta que a responsabilização criminal de adolescentes de 16 e 17 anos poderia ser compatibilizada com a proteção integral prevista no ordenamento jurídico, desde que o processo respeite garantias processuais e direitos fundamentais.
A tese é contestada por parlamentares contrários à proposta. O argumento da oposição é que a inimputabilidade penal de menores de 18 anos integra o núcleo de proteção constitucional da infância e da adolescência. Para esse grupo, a redução da maioridade penal abriria caminho para a inserção precoce de jovens no sistema penitenciário comum, considerado incapaz de cumprir função ressocializadora.
A disputa jurídica deve ganhar força caso a PEC avance. Embora a CCJC avalie apenas a admissibilidade, o debate já antecipa pontos que poderão ser questionados nas fases seguintes da tramitação, inclusive quanto aos limites materiais de alteração da Constituição.
Emendas tentam limitar efeitos civis da mudança
Para reduzir controvérsias, Coronel Assis apresentou emendas ao texto. A principal delas busca desvincular a redução da maioridade penal de eventuais efeitos automáticos em outras áreas da legislação civil e eleitoral. Pelo desenho defendido pelo relator, adolescentes de 16 e 17 anos poderiam responder criminalmente, mas não passariam, por consequência, a ter autorização para dirigir, casar ou assumir obrigações eleitorais.
A preocupação do relator é evitar interpretações de que a mudança no campo penal produziria uma ampliação geral da capacidade civil. Hoje, a legislação brasileira trata a idade de forma distinta conforme a área jurídica. O voto aos 16 anos, por exemplo, é facultativo. A habilitação para dirigir depende de idade mínima de 18 anos. Já obrigações civis e contratuais seguem regras próprias.
Essa separação é relevante para a tentativa de tornar a proposta mais restrita. Ao delimitar os efeitos da PEC, o relator busca concentrar a alteração na esfera penal, afastando leituras que poderiam provocar mudanças indiretas em outros campos da vida civil de adolescentes.
Mesmo assim, críticos afirmam que a redução da maioridade penal não pode ser tratada isoladamente. Para parlamentares contrários à medida, o ingresso de adolescentes no sistema penal mudaria a lógica de proteção prevista no ECA e teria efeitos sociais mais amplos, especialmente sobre jovens pobres e moradores de periferias.
Textos apensados ampliam disputa sobre alcance da PEC
Além da PEC 32/15, a CCJC analisa propostas apensadas que tratam do mesmo tema. Entre elas, há textos que restringem a responsabilização criminal de adolescentes de 16 e 17 anos a crimes hediondos ou de extrema gravidade, mediante avaliação técnica. Essa alternativa tenta construir uma solução intermediária, concentrada em casos de maior repercussão penal.
Outra proposta amplia de forma mais dura o alcance da mudança ao prever responsabilização a partir dos 12 anos em crimes cometidos com violência ou grave ameaça. Esse tipo de texto tende a enfrentar maior resistência jurídica e política, por atingir uma faixa etária ainda mais próxima da infância e por tensionar de forma mais direta o modelo socioeducativo brasileiro.
A existência de diferentes propostas apensadas torna o debate mais complexo. A CCJC pode aprovar a admissibilidade do conjunto ou estabelecer parâmetros para a tramitação posterior. Em uma comissão especial, parlamentares poderão construir um substitutivo, combinar trechos de diferentes textos ou restringir o alcance da mudança.
Nos bastidores, a tendência é que a discussão avance com forte polarização. Parlamentares ligados à área de segurança pública defendem que adolescentes envolvidos em crimes graves devem responder de forma proporcional à gravidade dos atos praticados. Já opositores argumentam que o endurecimento penal não reduz a violência e pode ampliar a reincidência ao aproximar jovens de facções e redes criminosas dentro do sistema penitenciário.
Base do governo tenta barrar avanço da proposta
A retomada da votação ocorre após tentativa de parlamentares da base do governo de retirar o tema da pauta. O requerimento foi rejeitado por 42 votos a 7, placar que mostrou força dos defensores da redução da maioridade penal dentro da comissão.
A derrota da base governista na CCJC não significa aprovação automática da PEC, mas indica que o tema tem ambiente favorável para avançar na primeira etapa de tramitação. A composição da comissão, tradicionalmente sensível a pautas de segurança pública e justiça criminal, pode facilitar a aprovação da admissibilidade.
A resistência do governo e de partidos de esquerda se concentra em dois eixos. O primeiro é jurídico, baseado na interpretação de que a proteção especial a menores de 18 anos não poderia ser reduzida por emenda constitucional. O segundo é de política pública, sustentado na avaliação de que o sistema prisional brasileiro não oferece condições adequadas para receber adolescentes.
A deputada Talíria Petrone (Psol-RJ) tem defendido a manutenção do modelo previsto no ECA. Em suas manifestações, a parlamentar cita dados segundo os quais a reincidência no sistema prisional brasileiro se aproxima de 50%, enquanto no sistema socioeducativo gira em torno de 13%. Para opositores da proposta, esses números indicariam que o encarceramento comum tende a ampliar a criminalidade, em vez de reduzi-la.
Sistema socioeducativo fica no centro da discussão
Pela legislação atual, adolescentes que cometem atos infracionais estão sujeitos a advertência, obrigação de reparar o dano, prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, semiliberdade e internação. A internação pode chegar a três anos nos casos mais graves, com reavaliação periódica da situação do adolescente.
Defensores da redução da maioridade penal afirmam que esse limite é insuficiente para atos infracionais equiparados a crimes graves, como homicídio, latrocínio, estupro e outros delitos de alta violência. Para esse grupo, o modelo atual geraria sensação de impunidade e permitiria que adolescentes fossem usados por organizações criminosas justamente por estarem sujeitos a punições mais brandas.
Críticos rebatem que o problema não estaria na idade penal, mas na baixa efetividade das políticas públicas de prevenção, educação, assistência social e reinserção. Também apontam a precariedade de unidades socioeducativas em diversos Estados, o déficit de acompanhamento técnico e a falta de programas capazes de reduzir a reincidência.
A discussão envolve ainda o impacto federativo da mudança. Caso adolescentes de 16 e 17 anos passem a responder criminalmente, Estados poderão enfrentar aumento de demanda por vagas no sistema prisional ou por estruturas separadas, caso o Congresso opte por um regime diferenciado. Esse ponto tende a ser explorado na comissão especial, caso a PEC seja admitida.
Avanço da PEC pode reabrir debate nacional sobre segurança pública
A redução da maioridade penal tem apelo recorrente no Congresso, especialmente em períodos de aumento da preocupação pública com crimes violentos. O tema mobiliza bancadas ligadas à segurança, entidades de direitos humanos, especialistas em infância e juventude, governadores, secretários estaduais e representantes do sistema de Justiça.
Do ponto de vista institucional, a eventual aprovação da admissibilidade pela CCJC seria apenas o primeiro passo de uma tramitação longa. Uma PEC precisa passar por comissão especial e depois pelo Plenário da Câmara em dois turnos. Se aprovada pelos deputados, segue para o Senado, onde também precisa de aprovação em dois turnos por maioria qualificada.
Ainda assim, a votação na CCJC tem peso político. O avanço da PEC 32/15 indicaria disposição da Câmara de reabrir uma das discussões mais controversas da agenda penal brasileira. Também poderia pressionar o governo a se posicionar de forma mais ativa sobre segurança pública, sistema penitenciário e políticas voltadas a adolescentes em conflito com a lei.
Para o mercado político em Brasília, a pauta tem potencial de reorganizar alianças pontuais. Parlamentares governistas de perfil mais conservador podem ser pressionados em suas bases eleitorais, enquanto a oposição tende a usar o tema para reforçar uma agenda de endurecimento penal. A votação também deve produzir embates com partidos de esquerda, entidades da sociedade civil e organizações que atuam na defesa de direitos de crianças e adolescentes.
Decisão da CCJ pode abrir nova fase da disputa sobre maioridade penal
A sessão desta terça-feira deve definir se a redução da maioridade penal terá condições de avançar dentro da Câmara. Caso o parecer de Coronel Assis seja aprovado, a discussão deixará a fase de admissibilidade e passará ao mérito, etapa em que o conteúdo da proposta poderá ser alterado, ampliado ou restringido.
Se a votação for novamente adiada, a PEC 32/15 continuará no centro da disputa política da CCJC. O pedido de vista já demonstrou que a oposição tentará usar os instrumentos regimentais disponíveis para retardar a tramitação. Do outro lado, defensores da proposta devem insistir na votação como sinal de resposta do Congresso à pressão por mudanças na legislação penal.
A decisão da comissão não encerra o debate, mas pode alterar o ritmo da pauta. Ao recolocar a redução da maioridade penal na agenda formal da Câmara, a CCJC transforma uma discussão antiga em novo teste de força entre segurança pública, direitos fundamentais e política criminal no país.








