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Inflação dos alimentos dispara em maio e registra maior alta para o mês em 18 anos

Batata, tomate, cebola e carnes puxaram avanço dos preços; guerra no Irã e risco de El Niño elevam preocupação com o custo de vida.

por Camila Braga
12/06/2026 às 19h03
em Economia
Inflação Dos Alimentos Dispara Em Maio E Registra Maior Alta Para O Mês Em 18 Anos-Gazeta Mercantil

A inflação dos alimentos consumidos dentro de casa acelerou de forma significativa em maio e alcançou o maior nível para o mês em 18 anos, ampliando a pressão sobre o custo de vida das famílias brasileiras e reforçando preocupações do mercado, do governo e dos consumidores com a trajetória dos preços ao longo de 2026.

Dados divulgados nesta sexta-feira (12) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a alimentação no domicílio subiu 1,65% em maio. Trata-se da maior variação para o período desde 2008, quando a alta havia sido de 2,27%.

Leia também: S&P 500 e Nasdaq batem recorde após cessar-fogo Irã e Wall Street reage com alta histórica.

O resultado integra o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial de inflação do país, e ajuda a explicar a aceleração observada nos índices de preços nos últimos meses.

A combinação entre menor oferta de produtos agrícolas, aumento dos custos logísticos e os efeitos indiretos da guerra no Irã contribuiu para elevar os preços de diversos alimentos essenciais da cesta de consumo dos brasileiros.

Leia também: Redução de voos no Brasil: Companhias suspendem 2 mil decolagens em maio por alta do QAV.

O movimento ocorre em um momento particularmente sensível para a economia, marcado por discussões sobre inflação, poder de compra das famílias e perspectivas para a atividade econômica nos próximos meses.

Guerra no Irã ampliou custos de transporte e pressionou cadeia alimentar

Embora fatores sazonais tradicionalmente influenciem os preços agrícolas no início do ano, economistas apontam que o cenário internacional agravou as pressões inflacionárias observadas em 2026.

Leia também: Bolsas europeias fecham em alta impulsionadas por perspectivas de relaxamento monetário após desaceleração da inflação na Alemanha.

O conflito entre Irã e seus adversários regionais, iniciado em fevereiro, provocou forte volatilidade nos mercados globais de energia. A elevação das cotações internacionais do petróleo elevou custos de combustíveis em diversos países, incluindo o Brasil.

Além disso, a instabilidade geopolítica afetou rotas marítimas estratégicas, aumentando despesas relacionadas ao transporte internacional de mercadorias.

No mercado doméstico, um dos reflexos mais relevantes foi o encarecimento do óleo diesel, principal combustível utilizado no transporte rodoviário de cargas.

Como a maior parte da distribuição de alimentos no Brasil depende de caminhões, a alta do diesel elevou os custos logísticos ao longo da cadeia produtiva, desde o produtor rural até os centros de distribuição e os supermercados.

Segundo o gerente do IPCA, José Fernando Gonçalves, a inflação observada em diversos alimentos resulta tanto da menor oferta quanto do aumento dos gastos com frete.

A combinação desses fatores acabou sendo repassada ao consumidor final, intensificando a inflação dos alimentos em maio.

Batata, tomate e cebola lideraram aumentos

Entre os produtos que mais pressionaram o índice de alimentação no domicílio, a batata-inglesa apresentou disparadamente a maior alta.

O produto registrou avanço de 44,69% apenas no mês, refletindo restrições de oferta e dificuldades na recomposição dos estoques.

O tomate também teve elevação expressiva, com aumento de 20,62%, seguido pela cebola, que avançou 16,80%.

As carnes, item de peso relevante no orçamento das famílias, registraram alta de 1,39%, contribuindo para ampliar a disseminação da inflação alimentar.

Embora alguns alimentos apresentem oscilações naturais ao longo do ano, economistas observam que a intensidade dos reajustes recentes ultrapassa o padrão sazonal normalmente registrado para maio.

Esse comportamento reforça a percepção de que fatores estruturais e conjunturais vêm atuando simultaneamente sobre a formação dos preços.

Mercado revisa projeções para inflação dos alimentos

O desempenho observado em maio levou economistas e instituições financeiras a revisarem suas estimativas para a inflação dos alimentos em 2026.

Até abril, o acumulado de 12 meses da alimentação no domicílio estava em 2,99%, segundo os dados do IPCA. Entretanto, diante da aceleração recente, projeções passaram a indicar que esse percentual poderá encerrar o ano acima de 7%.

A revisão ocorre em um ambiente de incertezas relacionadas tanto ao cenário internacional quanto às condições climáticas domésticas.

O comportamento dos alimentos tem peso significativo nas expectativas inflacionárias porque afeta diretamente o orçamento das famílias e influencia a percepção da população sobre o custo de vida.

Além disso, movimentos persistentes de alta podem dificultar o processo de convergência da inflação para as metas estabelecidas pelo Banco Central.

Para analistas, o avanço dos preços da alimentação tende a continuar sendo um dos principais componentes monitorados pelos formuladores de política econômica ao longo do segundo semestre.

El Niño surge como novo fator de risco para preços

Além das pressões já observadas, especialistas acompanham com atenção a possibilidade de intensificação do fenômeno climático El Niño nos próximos meses.

Modelos meteorológicos indicam risco crescente de ocorrência de um evento de forte intensidade durante o segundo semestre de 2026.

Historicamente, o El Niño altera o padrão de chuvas em diferentes regiões brasileiras, produzindo impactos relevantes sobre a agropecuária.

Nas regiões Norte e Nordeste, o fenômeno costuma aumentar o risco de estiagens prolongadas, reduzindo a produtividade de diversas culturas agrícolas.

Já no Sul do país, o padrão normalmente favorece chuvas mais intensas e frequentes, o que também pode provocar perdas em determinadas lavouras.

Caso as previsões se confirmem, a produção agrícola poderá enfrentar novos desafios justamente em um momento de recuperação parcial da oferta.

Esse cenário aumenta o risco de novas pressões sobre a inflação dos alimentos até o final do ano.

Setores ligados ao agronegócio, à distribuição e ao varejo alimentar acompanham as projeções climáticas com atenção, diante dos potenciais efeitos sobre safras, estoques e custos operacionais.

Impacto pesa mais sobre famílias de baixa renda

A aceleração da inflação dos alimentos possui efeitos desiguais entre as diferentes faixas de renda da população.

Para famílias de menor poder aquisitivo, os gastos com alimentação representam parcela significativamente maior do orçamento mensal.

Dessa forma, aumentos em itens básicos tendem a produzir impacto mais intenso sobre o consumo e a capacidade financeira desses grupos.

Produtos como batata, tomate, cebola, arroz, feijão e carnes ocupam posição central na alimentação cotidiana da população brasileira, tornando seus reajustes particularmente sensíveis do ponto de vista social.

O encarecimento dos alimentos também pode reduzir a renda disponível para outras despesas, afetando setores do comércio e dos serviços que dependem do consumo das famílias.

Economistas observam que a persistência desse movimento pode influenciar indicadores de confiança do consumidor e alterar padrões de consumo ao longo dos próximos meses.

Inflação dos alimentos entra no radar político antes das eleições

O avanço da inflação dos alimentos também ganhou relevância no cenário político nacional em razão da proximidade das eleições de outubro.

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acompanha com atenção a evolução dos preços, diante do potencial impacto sobre a percepção da população em relação às condições econômicas do país.

Historicamente, o comportamento da inflação alimentar exerce influência relevante sobre avaliações de governo e humor do eleitorado.

Em 2022, ano da disputa presidencial vencida por Lula, a alimentação no domicílio encerrou o período com inflação acumulada de 13,23%.

Na ocasião, o encarecimento dos produtos básicos foi apontado por analistas como um dos fatores que influenciaram o ambiente econômico e político do país.

Agora, a nova aceleração dos alimentos recoloca o tema no centro do debate público, especialmente porque afeta diretamente o cotidiano dos consumidores.

Com pressões vindas do mercado internacional, incertezas climáticas e aumento dos custos logísticos, o comportamento dos preços dos alimentos deverá permanecer como um dos principais focos de atenção da política econômica e das autoridades ao longo dos próximos meses.

A evolução desse quadro será determinante para as expectativas de inflação, para o poder de compra das famílias e para o desempenho da economia brasileira na segunda metade de 2026.

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