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Seleção do Irã: barreiras, retenção e acordo de paz marcam estreia na Copa

Equipe joga nos EUA, mas fica no México; capitão é retido e atleta pede novo visto em meio a tensões

por Lucas Ferreira
17/06/2026 às 12h51
em Copa do Mundo 2026
Seleção Do Irã - Gazeta Mercantil
A seleção iraniana de futebol estreou na Copa do Mundo de 2026 com um empate em 2 a 2 contra a Nova Zelândia, em Los Angeles, mas também com uma série de obstáculos burocráticos e diplomáticos nos Estados Unidos. Logo após a partida, a comitiva recebeu ordem de deixar o país imediatamente, o capitão Mehdi Taremi e um auxiliar foram retidos na imigração do aeroporto, e um jogador teve de pedir novo visto por ter autorização apenas para uma única entrada. Os contratempos ocorrem enquanto Estados Unidos e Irã selaram, na mesma segunda-feira, um acordo de cessar-fogo após mais de três meses de conflito no Oriente Médio.
Desde antes do início da competição, a participação iraniana gerou questionamentos por causa das relações diplomáticas rompidas entre os dois países. A Fifa chegou a alterar o plano original e definiu que a equipe teria sua base em Tijuana, no México, de onde se deslocará apenas para os jogos e treinamentos em território norte-americano. Até o momento, autoridades de imigração dos Estados Unidos não se manifestaram oficialmente sobre os episódios de retenção e restrições de deslocamento.

Retenção no aeroporto e saída obrigatória

Segundo informações divulgadas por agências estatais iranianas, após o término da partida contra a Nova Zelândia, toda a delegação foi orientada a deixar o país de forma imediata, sem poder pernoitar em Los Angeles como estava previsto. Durante o embarque de volta ao México, o centroavante e capitão Mehdi Taremi, um dos principais nomes do time, e o integrante da comissão técnica Saeid Alhouei foram detidos na alfândega, sob o que as autoridades iranianas classificaram como “atraso injustificado” na verificação de documentos. Ambos foram liberados após análise e chegaram ao hotel em Tijuana com o restante do grupo.
O técnico Amir Ghalenoei criticou as medidas em entrevista coletiva logo após o jogo. “Deveríamos ficar aqui esta noite para nos recuperarmos e voltar amanhã na hora do almoço, mas não nos permitiram. Para ser sincero, não faço ideia do porquê. Acho que talvez nossa equipe seja a mais oprimida de toda a Copa do Mundo”, declarou. Ele reforçou que as limitações interferem diretamente no desempenho esportivo e na preparação dos atletas.
Outro problema envolve o atacante Mehdi Torabi: diferentemente do restante do grupo, que tem visto de múltiplas entradas, ele recebeu um documento válido apenas para uma única passagem pelos Estados Unidos. Como as duas próximas partidas do Irã serão em solo norte-americano — contra a Bélgica, no dia 21, em Los Angeles, e contra o Egito, no dia 27, em Seattle — a federação iraniana já deu entrada em um pedido de nova autorização para que ele possa participar dos confrontos.

Regras especiais e restrições desde a chegada

O governo dos Estados Unidos definiu regras específicas para a delegação iraniana: a equipe só pode entrar no país até 36 horas antes de cada partida e deve deixar o território logo após o apito final. A medida faz parte de um conjunto de imposições negociadas entre a Fifa, as autoridades americanas e representantes iranianos para viabilizar a participação do time no torneio, que é realizado conjuntamente por Estados Unidos, México e Canadá.
Originalmente, a concentração da seleção seria em Tucson, no Arizona, mas o plano foi descartado por causa da escalada de tensão geopolítica. A base em Tijuana, cidade na fronteira com a Califórnia, foi escolhida por ficar a curta distância dos locais de jogo, mas ainda assim impõe deslocamentos longos e frequentes.
Além das restrições de circulação, a federação iraniana também denunciou a retirada de sua cota oficial de ingressos. A medida impediu torcedores que já haviam comprado passagens e hospedagem de assistir aos jogos, gerando protestos de grupos de apoiadores que conseguiram entrar nos estádios e exibir bandeiras e faixas em defesa da equipe e contra as limitações impostas.

Acordo de paz firmado no mesmo dia da estreia

Os problemas enfrentados pela seleção ocorrem em um momento histórico para as relações entre os dois países. Na mesma segunda-feira, enquanto os jogadores entravam em campo em Los Angeles, representantes de Estados Unidos e Irã assinaram, de forma virtual, um acordo de cessar-fogo que põe fim a um conflito iniciado no dia 28 de fevereiro, quando forças americanas e israelenses realizaram ataques conjuntos a instalações militares iranianas.
Os combates se espalharam por toda a região do Oriente Médio, com retaliações do Irã contra bases americanas em países do Golfo Pérsico, além de confrontos indiretos no Líbano e em Israel. O acordo prevê, entre os pontos principais, a reabertura do Estreito de Ormuz — rota por onde passam cerca de 20% do petróleo e gás comercializados no mundo — e a retirada de navios de guerra norte-americanos que bloqueavam o acesso a portos iranianos.
As tratativas, que devem continuar por até 60 dias, têm como ponto central o futuro do programa nuclear iraniano, questão que motivou sanções internacionais e tensões há mais de uma década. Apesar do acordo, as medidas restritivas para a delegação esportiva foram mantidas, e as autoridades americanas não indicaram alterações nas regras de entrada e saída durante a competição.

Impacto na preparação e desempenho esportivo

Especialistas em logística esportiva avaliam que o deslocamento constante e as incertezas burocráticas aumentam o desgaste físico e emocional dos atletas. Viagens curtas, troca frequente de hospedagem e risco de atrasos ou retenções podem comprometer rotinas de treino, recuperação e até a escalação da equipe.
“Qualquer seleção precisa de estabilidade para competir em alto nível. Quando se adiciona a insegurança de não saber se todos os jogadores terão permissão para entrar no país ou se conseguirão sair a tempo, cria-se um ambiente de pressão que vai além do jogo”, explicou um profissional de logística esportiva que acompanha equipes em competições internacionais.
O capitão Mehdi Taremi também comentou o assunto logo após a partida. “Não é bom para nós. Acho que não é bom para o futebol. A Fifa precisa nos ajudar mais do que isso. É muito ruim e afeta nossa equipe, e nós só queremos paz”, afirmou o jogador, que atua no futebol europeu e é um dos principais líderes do grupo.
A entidade máxima do futebol foi procurada por veículos internacionais para comentar as restrições, mas até a manhã desta terça-feira não havia se pronunciado. O Departamento de Estado dos Estados Unidos também não respondeu aos pedidos de esclarecimento sobre as regras diferenciadas aplicadas à delegação iraniana.

Futuro da campanha depende de resoluções burocráticas

Com dois jogos restantes na primeira fase, a prioridade da comissão técnica e da federação é garantir que todos os atletas tenham documentação regularizada e acesso facilitado às cidades onde serão realizadas as partidas. O pedido de novo visto para Mehdi Torabi já está em análise, e a expectativa é que a liberação ocorra até a sexta-feira, um dia antes do confronto contra a Bélgica.
Além disso, a equipe tenta negociar com autoridades americanas a possibilidade de reduzir o tempo de espera na imigração e simplificar os procedimentos de entrada, evitando novos atrasos ou retenções. Representantes de outros países participantes e da própria organização da Copa têm acompanhado o caso, que se tornou um dos principais temas extra-campo desta edição do torneio.
Mesmo com todas as dificuldades, o técnico Amir Ghalenoei elogiou a postura dos atletas no empate contra a Nova Zelândia. “Foi o melhor jogo da primeira rodada. Mostramos qualidade e garra, mas precisamos de condições iguais para continuar competindo”, disse ele.
Para os próximos dias, a atenção estará dividida entre o desempenho dentro de campo e o desenrolar das negociações diplomáticas, que podem definir não apenas o andamento da campanha iraniana na Copa, mas também o futuro das relações entre Estados Unidos e Irã no cenário internacional.

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