A seleção iraniana de futebol estreou na Copa do Mundo de 2026 com um empate em 2 a 2 contra a Nova Zelândia, em Los Angeles, mas também com uma série de obstáculos burocráticos e diplomáticos nos Estados Unidos. Logo após a partida, a comitiva recebeu ordem de deixar o país imediatamente, o capitão Mehdi Taremi e um auxiliar foram retidos na imigração do aeroporto, e um jogador teve de pedir
novo visto por ter autorização apenas para uma única entrada. Os contratempos ocorrem enquanto Estados Unidos e Irã selaram, na mesma segunda-feira, um acordo de cessar-fogo após mais de três meses de
conflito no Oriente Médio.
Desde antes do início da competição, a participação iraniana gerou questionamentos por causa das relações diplomáticas rompidas entre os dois países. A Fifa chegou a alterar o plano original e definiu que a equipe teria sua base em Tijuana, no México, de onde se deslocará apenas
para os jogos e treinamentos em território norte-americano. Até o momento, autoridades de imigração dos Estados Unidos não se manifestaram oficialmente sobre os episódios de retenção e restrições de deslocamento.
Retenção no aeroporto e saída obrigatória
Outro problema envolve o atacante Mehdi Torabi: diferentemente do restante do grupo,
que tem visto de múltiplas entradas, ele recebeu um documento válido apenas para uma única passagem pelos Estados Unidos. Como as duas próximas partidas do Irã serão em solo norte-americano — contra a Bélgica, no dia 21, em Los Angeles, e contra o Egito, no dia 27, em Seattle — a federação iraniana já deu entrada em um
pedido de nova autorização para que ele possa participar dos confrontos.
Regras especiais e restrições desde a chegada
O governo dos Estados Unidos definiu regras específicas para a delegação iraniana: a equipe só pode entrar no
país até 36 horas antes de cada partida e deve deixar o território logo após o apito final. A medida faz parte de um conjunto de imposições negociadas entre a Fifa, as autoridades americanas e representantes iranianos para viabilizar a participação do time no torneio, que é realizado conjuntamente por Estados Unidos,
México e Canadá.
Além das restrições de circulação, a federação iraniana também denunciou a retirada de sua cota oficial de ingressos. A medida impediu torcedores que já haviam comprado passagens e hospedag
em de assistir aos jogos, gerando protestos de grupos de apoiadores que conseguiram entrar nos estádios e exibir bandeiras e faixas em defesa da equipe e contra as limitações impostas.
Acordo de paz firmado no mesmo dia da estreia
Os problemas
enfrentados pela seleção ocorrem em um momento histórico para as relações entre os dois países. Na mesma segunda-feira, enquanto os jogadores entravam em campo em Los Angeles, representantes de Estados Unidos e Irã assinaram, de forma virtual, um acordo de cessar-fogo
que põe fim a um conflito iniciado no dia 28 de fevereiro, quando forças americanas e israelenses realizaram ataques conjuntos a instalações militares iranianas.
Os combates se espalharam por toda a região do Oriente Médio, com
retaliações do Irã contra bases americanas em países do Golfo Pérsico, além de confrontos indiretos no Líbano e em Israel. O acordo prevê, entre os pontos principais, a reabertura do
Estreito de Ormuz — rota por onde passam cerca de 20% do petróleo e gás comercializados no mundo — e a retirada de navios de guerra norte-americanos que bloqueavam o acesso a portos iranianos.
As tratativas, que devem continuar por até 60 dias, têm como ponto central o futuro do
programa nuclear iraniano, questão que motivou sanções internacionais e tensões há mais de uma década. Apesar do acordo, as medidas restritivas
para a delegação esportiva foram mantidas, e as autoridades americanas não indicaram alterações nas regras de entrada e saída durante a competição.
Impacto na preparação e desempenho esportivo
“Qualquer
seleção precisa de estabilidade para competir em alto nível. Quando se adiciona a insegurança de
não saber se todos os jogadores terão permissão para entrar no país ou se conseguirão sair a tempo, cria-se um ambiente de pressão que vai além do jogo”, explicou um profissional de logística esportiva que acompanha equipes em competições internacionais.
O capitão Mehdi Taremi também comentou o assunto logo após a partida. “Não é bom
para nós. Acho
que não é bom para o futebol. A Fifa precisa nos ajudar mais do que isso. É muito ruim e afeta nossa equipe, e nós só queremos paz”, afirmou o jogador, que atua no
futebol europeu e é um dos principais líderes do grupo.
A entidade máxima do futebol foi procurada por veículos internacionais para comentar as restrições,
mas até a manhã desta terça-feira não havia se pronunciado. O Departamento de Estado dos Estados Unidos também não respondeu aos pedidos de esclarecimento sobre as regras diferenciadas aplicadas à delegação iraniana.
Futuro da campanha depende de resoluções burocráticas
Com dois jogos restantes na primeira fase, a prioridade da comissão
técnica e da federação é garantir que todos os atletas tenham documentação regularizada e acesso facilitado às cidades onde serão realizadas as partidas. O
pedido de novo visto para Mehdi Torabi já está em análise, e a expectativa é que a liberação ocorra até a sexta-feira, um dia antes do confronto contra a Bélgica.
Além disso, a equipe tenta negociar com autoridades americanas a possibilidade de reduzir o tempo de espera na imigração e simplificar os procedimentos de entrada, evitando novos atrasos ou retenções. Representantes de outros países participantes e da própria organização da Copa têm acompanhado o caso,
que se tornou um dos principais temas extra-campo desta edição do torneio.
Mesmo com todas as dificuldades, o técnico Amir Ghalenoei elogiou a postura
dos atletas no empate contra a Nova Zelândia. “Foi o melhor jogo da primeira rodada. Mostramos qualidade e garra, mas precisamos de condições iguais
para continuar competindo”, disse ele.
Para os próximos dias, a atenção estará dividida entre o desempenho dentro de campo e o desenrolar das negociações diplomáticas, que
podem definir não apenas o andamento da campanha iraniana na Copa, mas também o futuro das relações entre Estados Unidos e Irã no cenário internacional.