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Grupo Refit mira de operação por fraude bilionária em combustíveis

por Gabriel Monteiro
28/11/2025 às 08h26
em Economia
Grupo Refit Mira De Operação Por Fraude Bilionária Em Combustíveis - Gazeta Mercantil

Foto: Reprodução

Grupo Refit e a megaoperação que expôs um suposto esquema bilionário no setor de combustíveis

A deflagração de uma megaoperação envolvendo órgãos estaduais e federais colocou o Grupo Refit no centro de uma das investigações fiscais mais amplas e sensíveis conduzidas recentemente no país. A ofensiva, autorizada pela Justiça e coordenada pelo Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos de São Paulo (Cira-SP), expôs o conglomerado como alvo de um conjunto de medidas simultâneas destinadas a desmontar um esquema que teria provocado prejuízo superior a 26 bilhões de reais aos cofres públicos, com efeitos diretos sobre a arrecadação do ICMS e sobre a concorrência no mercado de combustíveis.

A operação, batizada de Poço de Lobato, envolveu quase 600 agentes públicos e alcançou cerca de 190 pessoas físicas e jurídicas relacionadas ao conglomerado investigado. A magnitude das ações, associada ao alto valor em dívida ativa vinculado ao Grupo Refit, fez do caso um marco institucional na estratégia de combate à sonegação estruturada. Com 8,7 bilhões de reais inscritos apenas na dívida ativa paulista, o grupo aparece como o maior devedor de ICMS do estado, condição que ampliou a pressão para a adoção de medidas mais incisivas.

Leia também: PF deflagra Operação Overclean contra deputado Félix Mendonça Júnior.

A investigação reacende discussões relevantes sobre guerra fiscal, fragilidade estrutural na cadeia de arrecadação, competição desigual e capacidade do Estado de monitorar grandes contribuintes em setores de alta complexidade — especialmente combustíveis, historicamente associado a disputas tributárias e casos de fraude envolvendo operações interestaduais. O caso, por suas proporções e pela estrutura empresarial analisada, tende a se tornar referência para políticas de fiscalização de conglomerados que adotam modelos societários descentralizados.

O avanço da investigação sobre o Grupo Refit

A operação Poço de Lobato foi o ponto culminante de meses de apurações conduzidas pela Fazenda de São Paulo, Receita Federal, Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), Procuradoria-Geral do Estado (PGE) e forças policiais. As equipes mapearam mecanismos considerados fundamentais para o suposto funcionamento de um esquema de ocultação de operações e redução artificial da carga tributária.

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O foco central foi a atuação do Grupo Refit, acusado de utilizar empresas interpostas para mascarar transações reais, simular vendas interestaduais e evitar o recolhimento integral do ICMS. Essa estrutura permitiria uma movimentação de combustíveis em larga escala sem a correspondente contribuição tributária, o que, segundo técnicos, geraria impacto direto na formação de preços, criando vantagens competitivas indevidas.

A análise do fluxo operacional apontou a existência de sucessivas camadas societárias, com múltiplas subsidiárias e holdings. Esse modelo, embora comum entre grandes conglomerados, teria sido utilizado, no caso investigado, para pulverizar responsabilidades, dificultar o rastreamento de beneficiários finais e permitir a abertura rápida de novas empresas após autuações anteriores. As estruturas paralelas seriam a base para operações internas sobrepostas, manipulação documental e esvaziamento patrimonial das empresas mais expostas.

O conteúdo levantado por órgãos de fiscalização indica que o grupo teria continuado operando com irregularidades mesmo após a imposição de Regimes Especiais de Ofício, criados para impedir práticas tributárias inadequadas. A reincidência e o volume das operações reforçaram a necessidade de uma ofensiva integrada, articulada entre instâncias estaduais e federais.

Impacto econômico e prejuízo estimado em mais de 26 bilhões de reais

Os cálculos divulgados pelas autoridades apontam um rombo superior a 26 bilhões de reais decorrente do suposto esquema vinculado ao Grupo Refit. Para dimensionar o impacto, esse valor corresponde ao orçamento anual de centenas de municípios, a dezenas de hospitais regionais ou ao montante de políticas federais de assistência social em determinados períodos. Trata-se de cifras capazes de alterar projeções fiscais de estados e comprometer políticas públicas essenciais.

O ICMS é o principal tributo arrecadado pelos estados e financiador direto de áreas como saúde, educação, segurança pública e infraestrutura. Quando grupos de grande porte reduzem artificialmente sua contribuição, o efeito fiscal se espalha pelas finanças estaduais. No caso de combustíveis, a distorção é ainda maior, porque o setor responde por uma parcela significativa das receitas estaduais.

O suposto modelo adotado pelo Grupo Refit também teria gerado efeitos econômicos sobre o mercado de combustíveis. A redução artificial da carga tributária permite que determinada empresa ofereça preços abaixo do padrão e desestabilize um ambiente já caracterizado por concorrência acirrada. Esse fenômeno cria barreiras econômicas para distribuidoras que operam dentro da legalidade, provoca desbalanceamento no equilíbrio do setor e amplia o risco de concentração de mercado.

O prejuízo estimado, portanto, não é apenas fiscal, mas competitivo e estrutural. A ação repressiva concentrada, conduzida por diversos órgãos, busca não apenas recuperar valores, mas restabelecer parâmetros de concorrência e desestimular práticas semelhantes em outros grupos empresariais.

A dimensão da operação Poço de Lobato

A escolha do nome da operação remete ao primeiro poço de petróleo descoberto no Brasil, em 1939, no bairro de Lobato, em Salvador. A simbologia reforça o impacto do setor de combustíveis na economia nacional. Assim como o Poço de Lobato marcou o início da produção de petróleo no país, a operação pretende marcar um novo estágio na fiscalização de grandes conglomerados.

As ações ocorreram de forma simultânea em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Distrito Federal e Maranhão. Mandados de busca e apreensão alcançaram escritórios, depósitos, residências e instalações industriais atribuídas ao Grupo Refit e às empresas ligadas à sua cadeia operacional. As medidas envolveram diretores, administradores, representantes legais e colaboradores que, segundo investigações preliminares, integrariam a estrutura societária paralela.

A Justiça autorizou o bloqueio de bens e valores que ultrapassam 10 bilhões de reais. A PGE determinou o bloqueio imediato de 8,9 bilhões de reais em processos estaduais, enquanto a PGFN adotou medidas para tornar indisponíveis 1,2 bilhão de reais em âmbito federal. Houve, ainda, decretação de sequestro de bens, imposição de restrições patrimoniais e adoção de medidas cautelares contra integrantes das empresas investigadas.

A magnitude dessas medidas demonstra o grau de preocupação das autoridades com o caso. Investigadores ressaltam que, para esquemas de grande porte, o sequestro rápido de ativos é essencial para evitar esvaziamento patrimonial e garantir que o Estado tenha acesso a valores suficientes para pagar dívidas fiscais, indenizações e eventuais condenações futuras.

Estruturas interpostas e o mecanismo das operações simuladas

A investigação detalhou como empresas supostamente ligadas ao Grupo Refit seriam utilizadas para simular operações interestaduais e reduzir a alíquota de ICMS aplicável. Esse mecanismo explora brechas relacionadas ao regime de substituição tributária e às diferenças entre as alíquotas estaduais. Na prática, a operação fictícia permitiria que o combustível circulasse com custo tributário significativamente menor do que o devido.

Em larga escala, como sugerem as autoridades, essa prática altera o equilíbrio de preços no setor. Uma distribuidora que consegue reduzir ilegalmente sua carga tributária pode praticar valores inferiores aos concorrentes, conquistando mercado e pressionando empresas regulares a absorver prejuízos ou abandonar regiões inteiras.

O funcionamento desse modelo depende da existência de múltiplas empresas funcionando como intermediárias, algumas de curta duração e criadas exclusivamente para sustentar operações simuladas. A pulverização dessas empresas, associada a uma cadeia societária extensa, cria obstáculos para auditores que tentam rastrear origem dos produtos, fluxos financeiros e beneficiários finais.

O papel da engenharia societária

O Grupo Refit, segundo a apuração, teria utilizado modelos societários em múltiplas camadas para dificultar a ação fiscalizatória. Embora estruturas desse tipo não sejam ilegais em si, podem ser utilizadas para ocultar responsabilidades e impedir a identificação de agentes que comandam as operações.

A presença de sucessivas holdings, subsidiárias e empresas recém-criadas formaria uma teia corporativa com o objetivo de fragmentar obrigações, obscurecer rotas de circulação e ocultar patrimônios. Para os órgãos envolvidos, esse padrão é característico de esquemas elaborados de blindagem patrimonial.

O processo de investigação, portanto, depende da integração de bancos de dados estaduais e federais, além de cooperação entre áreas técnicas especializadas. Isso explica a participação simultânea de tantos órgãos no caso, incluindo equipes de inteligência fiscal e unidades especializadas em crimes econômicos.

Efeitos sobre a concorrência e sobre o mercado de combustíveis

A cadeia de combustíveis é particularmente sensível a fraudes estruturadas. Pequenas variações de carga tributária geram grandes diferenças na formação de preços, já que o setor opera com margens enxutas e custos logísticos elevados. A atuação irregular atribuída ao Grupo Refit teria permitido uma competitividade artificial, pressionando empresas que cumprem integralmente suas obrigações tributárias.

A distorção afeta não apenas o mercado, mas consumidores e governos estaduais. Quando empresas que atuam dentro da legalidade perdem participação para concorrentes que operam com vantagens ilegítimas, há redução natural da arrecadação, queda de investimentos em infraestrutura e concentração de mercado.

Esse é um dos pontos que tornaram a operação Poço de Lobato um marco institucional. Seu objetivo não é apenas recuperar recursos, mas também restabelecer condições adequadas de concorrência, corrigir distorções de mercado e reforçar o caráter pedagógico das ações de fiscalização.

A integração entre órgãos públicos e o novo modelo de combate à fraude fiscal

A operação representa um modelo de integração entre instâncias fiscalizadoras que tende a se consolidar no país. A fragmentação de informações entre órgãos federais e estaduais tem sido historicamente um obstáculo para a identificação de grandes esquemas. A atuação conjunta de Cira-SP, Receita Federal, PGFN, PGE e polícias demonstra a evolução institucional para lidar com fraudes cada vez mais sofisticadas.

A estratégia aposta na troca de informações, no cruzamento de dados fiscais e societários, na análise de inteligência e na atuação simultânea de equipes distintas para evitar que grupos empresariais desmobilizem estruturas suspeitas antes das medidas judiciais.

No caso do Grupo Refit, a união de esforços permitiu a execução de mandados em diversos estados no mesmo dia, garantindo que provas fossem preservadas e que ativos pudessem ser bloqueados antes de qualquer tentativa de movimentação suspeita.

Consequências jurídicas e desdobramentos futuros

Os desdobramentos do caso terão repercussões criminais, fiscais, administrativas e patrimoniais. As acusações envolvem crimes contra a ordem tributária, organização criminosa, lavagem de dinheiro e outros ilícitos correlatos. A investigação deve resultar em processos criminais individuais e ações de cobrança de dívida ativa.

Do ponto de vista patrimonial, o bloqueio de bens e valores é apenas o primeiro estágio de uma disputa que tende a avançar ao longo dos próximos anos. Casos dessa magnitude, em geral, exigem análise pericial aprofundada, revisão de estruturas societárias e reconstituição de fluxos financeiros complexos.

A repercussão política também é inevitável. Governos estaduais pressionados por limitações orçamentárias têm investido fortemente em ações contra grandes devedores. O caso do Grupo Refit reforça essa agenda e pode estimular a ampliação de operações semelhantes em outros setores historicamente associados à evasão, como cigarros e bebidas.

A operação como ponto de inflexão institucional

A megaoperação que atingiu o Grupo Refit se torna, assim, um marco institucional. A dimensão das medidas, o volume de recursos bloqueados, a integração entre órgãos e o impacto sobre o setor de combustíveis reforçam a importância da fiscalização moderna baseada em tecnologia, cruzamento de dados e atuação conjunta.

Os efeitos sobre a arrecadação, sobre a concorrência e sobre a estrutura econômica tornam o episódio um divisor de águas. A investigação ainda está em curso e deve se estender por anos, mas já deixa claro que o combate a fraudes tributárias de grande escala passa por planejamento integrado e capacidade de ação imediata.

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